Rui Gaudencio
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Rui Gaudencio

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Parar é morrer

Incentivemos o movimento e evitemos o estar parado: movimento gera movimento e estar parado gera sofrimento.

Muito provavelmente, já todos conhecemos o provérbio português “Parar é morrer”. Normalmente, os provérbios assentam numa noção de verdade, que poderá ser maior ou menor consoante a interpretação do receptor. Mas “Parar é morrer” simboliza somente veracidade, comprovada pelos dados estatísticos que caracterizam o estado da saúde no nosso país.

O retrato da saúde elaborado pelo Serviço Nacional de Saúde em 2018 apresenta os seguintes dados no que respeita ao excesso de peso em Portugal:

  • 57% da população adulta apresenta excesso de peso e/ou obesidade;
  • oito em cada 10 idosos têm um peso corporal acima daquilo que é considerado saudável;
  • uma em cada quatro crianças (com 10 anos ou menos) têm excesso de peso e/ou obesidade.

Culpemos os pobres hábitos alimentares e a inexistência de um estilo de vida activo. Isto porque, no que concerne à prática de actividade física em Portugal, os dados reportados são novamente impiedosos:

  • 64% das crianças, entre os 10 e os 11 anos, não cumpre com as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS);
  • entre os adolescentes (16-17 anos), o valor da inactividade física sobe abruptamente para os 90%.

Se reflectirmos sobre estes números, concluímos que pouco mais de um terço das nossas crianças reporta níveis de actividade concordantes com as recomendações da OMS. Provavelmente julgamos que se exigem horas e horas de actividade física — e que o tempo é limitado. No entanto, as recomendações cingem-se a 60 minutos de actividade física de estilo moderado/vigoroso, pelo menos três vezes por semana. Ora, isto parece-nos facilmente tangível mesmo no contexto do horário escolar, onde no recreio existe espaço para correr e saltar.

Contudo, “o brincar” tem vindo a perder o seu espaço para o “teclar”. Um comportamento que se inicia na escola, onde se observam grupos em torno de um pequeno ecrã (telemóvel ou tablet), e que se prolonga em casa com a transição para um ecrã normalmente maior (computador ou televisão). Permitimos que o acesso aos ecrãs, aos teclados e às redes sociais se tornasse precoce e, tão facilmente, deixámos que as crianças abdicassem daquela que foi a melhor parte da nossa infância: o brincar. A situação perpetua-se na adolescência. E brincar? Só online! 

Os números são alarmantes e exigem a necessidade de repensarmos comportamentos. A ciência já provou, por várias vezes, que o excesso de peso na infância está positivamente correlacionado com a morbilidade cardiovascular e a morte prematura na idade adulta. A isto podemos somar o aumento exponencial da probabilidade destas crianças sofrerem de depressão e de desenvolverem graves problemas de auto-estima. E entendamos que estas repercussões são para o resto da vida.

Fomos engolidos pelo ciclo vicioso da tecnologia e estamos, literalmente, a cumprir com a veracidade implícita no nosso provérbio: parando e morrendo aos poucos. A mudança é emergente e os mais novos merecem-na. De tantas decisões que tomamos em prol do seu bem-estar, não ignoremos aquela que mais impactará o seu futuro. Incentivemos o movimento e evitemos o estar parado: movimento gera movimento e estar parado gera sofrimento.