“Cabeças a rolar” e versões opostas sobre racismo no Bulgária-Inglaterra

No final de contas, tal como disseram Boris Johnson, o treinador e alguns jogadores ingleses, os 6-0 aplicados no relvado são uma resposta ao racismo.

Adeptos búlgaros no jogo desta segunda-feira
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Adeptos búlgaros no jogo desta segunda-feira LUSA/GEORGI LICOVSKI

UEFA, governo búlgaro, federações de futebol, Balakov, jogadores de ambas as equipas e até o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. O racismo no Bulgária-Inglaterra tornou-se, em poucas horas, um caso global – não só no círculo desportivo, mas no mundo – e já “rolaram cabeças” no país do sudeste europeu.

Os jogadores ingleses foram recebidos em Sófia com imitações de macacos e saudações nazis e a marca indelével do que se passou nesta segunda-feira é a demissão de Borislav Mihaylov, presidente da União Búlgara de Futebol (UBF). A decisão acabou por ter um “pequeno empurrão” do governo da Bulgária, que “convidou” o dirigente a sair. “Convidou” é, ainda assim, uma formulação eufemística, já que o primeiro-ministro anunciou o corte de relações institucionais e financeiras com a UBF enquanto Mihaylov não resignasse ao cargo.

A entidade que rege o futebol búlgaro acabou por ser um “elefante na loja de porcelana”, já que cumpriu imediatamente a indicação do governo, seguindo a diligência drástica, mas… não abordou especificamente o caso de racismo. Justificou, apenas, com “um ambiente prejudicial para o futebol búlgaro e para a UFB”.

Seleccionador e capitão da Bulgária têm versões opostas

Krasimir Balakov, actual seleccionador búlgaro e ex-jogador do Sporting (década de 90), esteve presente no Bulgária-Inglaterra. No banco de suplentes, a orientar a equipa, Balakov garante não ter tido noção do que se passou no Estádio Vasil Levski. O búlgaro não só diz não ter ouvido nada como acrescenta, ainda, que alguns adeptos ingleses provocaram, antes do jogo, animosidade para com a Bulgária.

“Pessoalmente, não ouvi os cânticos (...) eles têm de ser provados e, se forem, devemos pedir desculpa. Mas repito: têm de ser provados”, disse o técnico, após a partida. E completou: “Vi o árbitro interromper o jogo, mas devo dizer, também, que o mau comportamento não veio apenas do lado dos adeptos búlgaros, mas também dos ingleses, que assobiaram e gritaram durante o hino da Bulgária. E, durante a segunda parte, usaram palavras inaceitáveis dirigidas aos nossos jogadores”. Balakov fez, ainda, a medição de quem mais sofre com o racismo e disparou que, em Inglaterra, o problema é maior do que na Bulgária.

Raheem Sterling, jogador do Man. City, ironizou, publicando “hummm… não estou seguro disso, chefe”, enquanto Alexander-Arnold, jogador do Liverpool, questionou, nas redes sociais, se Balakov estaria mesmo a falar a sério. Mas estava.

Apesar de polémica, a retórica do seleccionador búlgaro não é ímpar. Plamen Iliev, guarda-redes titular na partida desta segunda-feira, falou de um exagero inglês e elogiou mesmo a postura dos adeptos búlgaros: “Para ser honesto, acho que os adeptos se comportaram bem. Não houve abusos, pelo que consegui ouvir, e acho que os jogadores ingleses exageraram um pouco na reacção.”

Há, no entanto, dados que atestam a fragilidade da argumentação búlgara. Desde logo, a já referida demissão do presidente da UBF e a acção do governo, mas também a conduta do capitão de equipa, durante a partida. Ivelin Popov, jogador do FK Rostov, da Rússia, chegou a falar com alguns adeptos e com os polícias, ao intervalo, junto ao túnel, tentando acalmar o ambiente. E, após o jogo, deixou uma reflexão: “Todos sofremos com este tipo de comportamentos. Acham que um jogador estrangeiro gostará de vir jogar para a Bulgária depois do que aconteceu hoje? O racismo é um problema que tem de ser erradicado. Somos todos pessoas, independentemente da cor da pele”.

Governos apontam para a UEFA, UEFA aponta para os governos

A descoordenação na reacção búlgara contrasta, sobremaneira, com o carácter unissonante da postura do restante globo, particularmente em Inglaterra. O primeiro-ministro, Boris Johnson reagiu e apelou à “mão pesada” da UEFA. “O racismo vil que vimos e ouvimos ontem [segunda-feira] não tem lugar no futebol ou em qualquer outro sítio. Apoio totalmente Gareth Southgate e a equipa por passarem por cima do racismo. Precisamos de ver uma acção firme da UEFA”, escreveu, no Twitter.

O governo inglês apontou para a UEFA, mas a UEFA apontou para os governos. Por um lado, a “acção firme” que Boris Johnson reclama não tem, para já, aplicações práticas por parte da UEFA – que espera os relatórios do árbitro e do delegado ao jogo –, ainda que seja crível que exista um castigo pesado à selecção da Bulgária. Jogos à porta fechada deverão ser o cenário mais provável, até porque, para este Bulgária-Inglaterra, o estádio já estava parcialmente fechado, por um castigo precisamente a envolver racismo num Bulgária-Kosovo, em Junho.

Por outro lado, o organismo que tutela o futebol europeu apontou para os governos e garantiu, através do presidente Aleksander Ceferin, que “tudo tem feito para eliminar esta doença do futebol”. E assumiu alguma impotência: “As associações do futebol não conseguem, por si mesmas, resolver este problema. Os governos têm de fazer mais nesta área.”

Para já, o “barulho mediático” global em torno deste caso fará, por si só, com que a UEFA não enjeite a possibilidade de castigar severamente a Bulgária, além do processo já aplicado a ambas as federações (à búlgara pelos cânticos racistas, à inglesa pelo desrespeitar do hino adversário). Mas para um castigo mais severo há a necessidade de os relatórios do árbitro e do delegado serem claros e inequívocos no reportar do episódio de racismo, até por haver negações de intervenientes búlgaros.

No final de contas, tal como disseram Boris Johnson e alguns jogadores ingleses, os 6-0 aplicados no relvado são uma resposta ao racismo. Mas terá sido pedagogicamente proveitoso continuar o jogo após o que veio das bancadas?