Opinião

História, memória, museus e democracia

Justifica-se, pois, nomeadamente em Portugal, no Brasil e em outros países da CPLP, que os defensores de regimes democráticos reivindiquem a ampliação do investimento em pesquisa historiográfica e na presença da historiografia nos sistemas de ensino.

Ao longo da Época Contemporânea, fruto da afirmação do “paradigma moderno”, os grandes sistemas ideológicos — dos liberalismos aos fascismos, passando pelos tradicionalismos, pelos positivismos e pelos socialismos — têm adoptado posturas cientistas de auto-legitimação. Isto é, procuram reforçar a respectiva validade apresentando-se como conclusões indiscutíveis e inevitáveis da ciência e da tecnologia (ou da teologia, da filosofia, da ciência e da tecnologia). Algo de semelhante tem acontecido com mundividências de cariz transversal como os nacionalismos, os darwinismos sociais e os internacionalismos.

Se um determinado programa político-ideológico corresponde à realidade, ao bem e ao que é saudável, todos os outros posicionamentos só podem decorrer de perspectivas patológicas, criminosas ou estrangeiras (iniciativa de agressores externos ou de “inimigos internos”). Deste complemento de legitimidade têm decorrido, quer vectores de autoritarismo em regimes liberais conservadores ou demoliberais, quer ditaduras autoritárias ou totalitárias: os “outros” podem e devem ser detidos e castigados para se regenerarem, ser expulsos ou ser eliminados quando se mostrarem “irrecuperáveis”.

Da recusa de uma tal lógica binária e maniqueísta, tendencialmente incompatível com a democracia, têm surgido dois posicionamentos diferentes. Segundo a perspectiva pós-moderna, também binária e maniqueísta, a vivência cívica deve basear-se, apenas, em escolhas deduzidas dos princípios ideológicos justos — à escala individual e no plano colectivo —, resultando todas as tentativas de correlacionamento entre ciências sociais e vivência cívica em modalidades camufladas de alienação e controlo, visando a reprodução de discriminações, dominações e desigualdades (tratar-se-ia de neo-cientismos).

Em sentido inverso, as leituras neo-modernas defendem, por um lado, que a função das ciências deve ser a produção de conhecimento tão objectivante quanto possível acerca da realidade; por outro, que as sociedades e os sistemas políticos têm todas as vantagens em qualificar-se recorrendo às diversas propostas de reconstituição e análise disponíveis. Se a atual vivência cívica não pode deixar de se apropriar, livre e criticamente, das conclusões — parcelar e temporariamente válidas embora — das “ciências exatas” e das “ciências da natureza”, o mesmo deve acontecer, tanto com a historiografia e com as outras “ciências sociais”, como com as humanidades.

Caso concordemos com os pressupostos da crítica neo-moderna aos paradigmas moderno e pós-moderno, devemos, por um lado, contribuir para que também a historiografia e as outras ciências sociais produzam, essencialmente, conhecimento o mais próximo possível da realidade (e existe hoje muita reflexão acumulada, de cariz deontológico e epistemológico, teórico e metodológico, filosófico e teológico, relativa a essa preocupação). Devemos, por outro lado, encarar com maior seriedade as tecnologias — ou seja, saberes que visam intervir na realidade, tendo em conta conhecimento científico, mas com o propósito de atingir objectivos de natureza ideológica — derivadas das ciências sociais, das humanidades e das artes.

Devemos, ainda, exigir que as entidades produtoras de historiografia, de outras ciências sociais e de tecnologias a elas associadas se empenhem, sistemicamente, através do ensino e da formação, da comunicação social e da animação cultural, na divulgação do conhecimento gerado e das respectivas implicações. Devemos, finalmente, tentar que os indivíduos e as organizações das “sociedades civis”, as instituições públicas de cada Estado-Nação (ou Estado-Nações) e as organizações internacionais recorram permanentemente a esse conhecimento antes de fazerem escolhas.

Face à impossibilidade ou à ilegitimidade de utilizar as comunidades humanas como laboratórios e os indivíduos como cobaias, a historiografia permite-nos, de modo globalizante, por um lado, reconstituir e analisar, contextualizar e comparar fenómenos sociais passados e presentes; por outro, simular hipóteses de evolução futura. A título meramente exemplificativo, lembramos as correlações quase sempre verificáveis entre nacionalismos radicais, protecionismos extremos ou autarcias e conflitos militares globais; crises económicas e sociais prolongadas e radicalização ideológico-política; privação continuada de direitos sócio-laborais e perda de competitividade, aumento da conflitualidade e eclosão de crises económico-financeiras.

Quanto a tecnologias sociais também ligadas à historiografia, presentes desde as primeiras Civilizações Urbanas ou estruturadas somente ao longo da Época Contemporânea, elencamos a didática da História e a divulgação científica, o património cultural e a museologia, o direito e a diplomacia, a produção artística e o jornalismo, o planeamento do território e o planeamento urbanístico, a cultura organizacional e o marketing territorial, o lazer e o turismo culturais. Uma vez que algumas das tecnologias em causa lidam com as memórias históricas e com as identidades histórico-culturais, fenómenos inerentes às comunidades humanas, trata-se de instrumentos decisivos mas que, ao mesmo tempo, passam muitas vezes despercebidos.

Justifica-se, pois, nomeadamente em Portugal, no Brasil e em outros países da CPLP, que os defensores de regimes democráticos e de processos de desenvolvimento integrado e sustentável reivindiquem a ampliação do investimento em pesquisa historiográfica e na presença da historiografia nos sistemas de ensino, em formação e em divulgação científica; no aumento da auto e da hetero-regulação deontológica, epistemológica e teórico-metodológica da historiografia; na potenciação das tecnologias também derivadas da historiografia enquanto vectores de criação de riqueza e de melhoria das condições — imateriais e materiais — de vida das pessoas.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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