Quatro candidatos lutam pela presidência em Moçambique

A 15 de Outubro, no país africano são: Filipe Nyusi, Ossufo Momade, Daviz Simango e Mário Albino.

Fotogaleria
Nyusi não se coibiu na campanha de falar na sua “boa governação” Grant Lee Neuenburg/REUTERS
,Moçambique
Fotogaleria
Ossufo Momade, da Renamo, explica como votar VASCO QUEMBO/EPA
,Movimento Democrático de Moçambique
Fotogaleria
Daviz Simango, líder do Movimento Democrático de Moçambique NAITA USSENE/EPA

Filipe Nyusi, Frelimo

Do primeiro mandato de Nyusi como Presidente da República resgata-se muito pouco capaz de se transformar em trunfo eleitoral, daí o tom morno do discurso político (ao contrário do clima violento da campanha). Com o caso das “dívidas ocultas” a ensombrar o ambiente (e a detenção do ex-ministro das Finanças Manuel Chang na África do Sul fez mover a justiça moçambicana para evitar que seja extraditado para os EUA), dissidências internas que a Frelimo acabou por conseguir calar com sabe-se lá qual promessa a Samora Machel Jr., que de crítico com ambições de ser candidato a Presidente se remeteu ao silêncio.

Mesmo assim, Nyusi não se coibiu na campanha de falar na sua “boa governação”, garantindo que este seu mandato serviu para “consolidar” as bases para o “próximo ciclo”.

As críticas à corrupção do partido e do Governo obrigaram Nyusi a assumir um discurso anti-corrupção: “A ética governativa e a integridade serão fundamentais para o fortalecimento das instituições do Estado”, disse numa entrevista, ideia que esteve presente durante a campanha.

Com o assassínio do observador eleitoral Anastácio Matavel por agentes da polícia, irrompeu na campanha o tema da existência de esquadrões da morte em Moçambique que teriam sido responsáveis por dezenas de execuções sumárias durante o mandato de Nyusi. Num reflexo de uma sociedade violenta, onde os raptos e as agressões a cidadãos se tornaram comuns.

Além disso, apesar de o Governo e a Frelimo insistirem que a violência associada ao radicalismo islâmico em Cabo Delgado, o certo é que ao fim de dois anos, militares e polícia estão longe de conseguir travar essa insurgência islamista que poderá perturbar o escrutínio eleitoral na província.

Ossufo Momade, Renamo

Na sua estreia em campanhas eleitorais como líder da oposição, Ossufo Momade parece ter tido uma prestação razoável, nem entusiasmando por aí além, nem lastimando as hipóteses do seu partido. Assinou o acordo de paz com Filipe Nyusi num timing que parece ter servido melhor à propaganda eleitoral da Frelimo que da Renamo e que lhe trouxe dissabores internamente, com os dissidentes militares do partido que se recusam a aceitar o acordo a acusarem-no de ser um joguete nas mãos do Presidente.

“Eu acho que ele não é político e nem está interessado em ser. Como bom militar que deve ser, está ali a cumprir uma missão e vai ficar aliviado quando tudo isto terminar”, explica o sociólogo moçambicano Elísio Macamo.

Uma opinião que contrasta com a de Dércio Alfazema, da Sala da Paz, plataforma de organizações da sociedade civil que monitoriza processos eleitorais, que classifica como “boa prestação” a campanha de Momade nesta campanha. “Havia muitos questionamentos antes da campanha porque as suas ideias não eram conhecidas”, mas acabou por se mostrar melhor do que o esperado.

Mesmo assim, não serviu para acalmar os mais críticos dentro da Renamo, principalmente entre os guerrilheiros que se sentem traídos pelo acordo assinado. No mês passado, o coronel João Machava, guerrilheiro da Renamo em Inhambane, mostrava-se muito crítico e pedia a demissão do sucessor de Dhlakama.

“Não estamos a gostar do trabalho desenvolvido pelo presidente Ossufo Momade, queremos que ele se retire e demita-se da liderança do partido. Com a sua entrada na liderança, destruiu o partido e, pelo facto, exigimos um novo presidente que deve respeitar as cláusulas do dossier que o presidente Dhalkama deixou”, afirmou o coronel, citado pela Deutsche Welle.

Momade tem optado por não entrar em responder às críticas dos guerrilheiros do partido que se recusam a entregar as armas, preferindo a gestão silenciosa de um tema bicudo que não convém como tema de campanha.

Daviz Simango, MDM

Na quinta-feira, o cabeça-de-lista do Movimento Democrático de Moçambique na província de Maputo, Augusto Pelembe, sofreu um atentado a tiro do qual saiu ileso. Foi mais um incidente de violência no percurso de campanha do partido de Daviz Simango, o presidente do município da Beira que lidera a terceira maior força política moçambicana desde a sua criação, em 2009.

Simango condenou o incidente num comício na Gorongosa, no centro do país, considerando tratar-se de um atentado contra a democracia, levado a cabo por quem sente que a oposição, nomeadamente o MDM, está a ganhar espaço no eleitorado. “Eles estão a ver que o galo está a bater em Maputo”, referindo-se ao símbolo do seu partido.

Por várias vezes, apoiantes do MDM envolveram-se em confrontos com simpatizantes da Frelimo que resultaram em feridos. No sul do país, a caravana de Simango foi várias vezes impedida de fazer o percurso programado, travados de uma ou de outra forma por militantes e simpatizantes do partido do governo.

“O grande problema da violência é que o partido no poder não está preparado num processo democrático, muito menos num processo de Estado de direito”, disse Simango em conversa com a RFI, ressaltando o facto de nem Filipe Nyusi nem qualquer dirigente da Frelimo ter tido uma atitude “de rejeição, de condenação e de repúdio” em relação à violência dos apoiantes do seu partido.

Aos 55 anos, o filho do antigo vice-presidente da Frelimo Uria Simango, que abandonou a Renamo para formar o seu partido há uma década, candidata-se pela terceira vez à presidência do país, em 2009 obteve 8,6%, tendo ficado com 6,36% em 2014.

O quarto candidato

À primeira vista, as eleições moçambicanas parecem ter apenas três candidatos presidenciais, mas é apenas ilusão redutora porque há um quarto candidato na corrida, Mário Albino Muquissinse, o líder do pequeno partido sem assento parlamentar Acção do Movimento Unido para a Salvação Integral (AMUSI) que tem uma base de apoio relativamente reduzida.

Formado por dissidentes do MDM, o AMUSI é um partido de implantação local, com influência restrita à província de Nampula, no Norte do país. Albino tentou o ano passado eleger-se para o conselho municipal da cidade de Nampula, mas o resultado que obteve, 4,2%, não lhe permitiu cumprir essa ambição.

Albino, que denunciou os atrasos na entrega das verbas para financiar a campanha, defendeu como grande tema de campanha a valorização da EN1, a estrada nacional que liga o país de Norte a Sul, prometendo transformá-la em auto-estrada.