Opinião

Com 97 anos Goodenough é efetivamente bastante bom

Fazer ciência de alta qualidade e com impacto na vida das pessoas implica dominar várias áreas do conhecimento científico e ter adquirido muita experiência tecnológica. Geralmente tal só se consegue com a idade.

John Bannister Goodenough, que reside presentemente nos Estados Unidos, nasceu a 22 de julho de 1922 e mais de 97 anos depois, a 9 de outubro de 2019, é laureado com o prémio Nobel da Química. Juntamente com ele foram galardoados mais dois cientistas: Michael Stanley Whittingham, nascido em 1941, e Akira Yoshino, nascido em 1948. Apesar do mais novo deste trio ter já completado 71 anos, os três mantêm-se ativos e produtivos em ideias, continuando a colaborar com as suas instituições. Neste ano de 2019 o Nobel da Química premiou estes três cientistas pelos seus contributos para o desenvolvimento das baterias de iões de lítio. Todos eles presentemente estão ligados a instituições/departamentos cuja área de trabalho contempla a interdisciplinaridade, envolvendo domínios relacionados com a física do estado sólido, a ciência dos materiais, a eletroquímica, a caracterização avançada de materiais, a engenharia mecânica, a eletrónica, etc.  

Quem não se lembra de Manoel de Oliveira, o cineasta português que trabalhou e produziu até muito próximo da sua morte, à qual chegou com 106 anos? E de outros criadores cuja idade não os impediu de continuarem a produzir bem. O neurologista português António Egas Moniz, nascido em 1874, atingiu a reforma por limite de idade aos 70 anos em 1944, mas 5 anos depois foi galardoado com o prémio Nobel da Medicina de 1949 conjuntamente com o fisiologista suíço Walter Rudolf Hess, o qual também já não era propriamente um jovem. Quanto ao outro prémio Nobel conseguido até hoje por um português, José Saramago conseguiu esse feito, o Nobel de Literatura de 1998, o qual foi anunciado quando Saramago tinha quase 76 anos.

Pois é. A idade da pessoa parece ser um fator positivo e não-discriminatório para a execução de atividades de criação e performance intelectual, sejam elas de ordem estética ou comunicativa (arquitetura, desenho, escultura, pintura, escrita, música, dança, teatro, cinema, e suas possíveis combinações) ou tenham elas cariz científico, nomeadamente nas denominadas ciências exatas ou nos ramos do saber que implicam a aplicação do conhecimento científico nas realizações práticas e nas produções industriais e económicas.  

Para um cientista experiente, com longa carreira e muita tarimba, fazer ciência no dia-a-dia pode ter muitas parecenças com a intenção que um pintor consagrado tem de ousar pintar mais um quadro. Ou de um escultor ousar surpreender os seus concidadãos com uma obra nova e impactante. Ou de um escritor conseguir inovar com mais uma obra literária que ele próprio idealiza e consubstancia. Fazer ciência de alta qualidade e com impacto na vida das pessoas implica dominar várias áreas do conhecimento científico e ter adquirido muita experiência tecnológica. Geralmente tal só se consegue com a idade, com a possibilidade de estabelecer relações institucionais fortes e de acumular conhecimento e reconhecimento internacionais.

O processo de desenvolvimento científico e tecnológico requer estabilidade institucional, equipas permanentes e duráveis, e liberdade de circulação e de criação, tendo como limites a deontologia e a ética. Hoje em dia vemos surgir boa investigação científica e tecnológica em países emergentes, como a China e a Índia, que já competem diretamente com os mais consagrados (EUA, Alemanha, França, Japão, Reino Unido, Rússia, etc.). A China e a Índia possuem instituições científicas com dimensão, e estas estão cada vez mais abertas à cooperação. Começa a ser vulgar assistir-se a projetos de cooperação científica celebrados diretamente entre instituições de diferentes continentes, em domínios tecnológicos específicos e muito mais interessantes que os antigos e já caducos acordos generalistas celebrados sem necessidade concreta.

A ideia que deu origem às baterias de iões de lítio remonta ao período da crise do petróleo da década de 1970. John Goodenough trabalhava nessa altura na Universidade de Oxford, em Inglaterra. O “mundo recarregável”, nas palavras do comité do prémio Nobel da Química 2019, visa efetivamente criar um mundo novo. Baterias simultaneamente leves, recarregáveis e potentes são atualmente usadas em telemóveis, computadores portáteis e veículos elétricos. Elas permitem armazenar muita da energia que provém de fontes renováveis, como a energia solar e a energia eólica, tornando assim possível evitar a utilização das energias fósseis. E Portugal tem grupos de investigação ativos nestes domínios, os quais convirá manter, apoiar e desenvolver para que aqui façam ciência impactante e prestigiante para o nosso país.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico