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Megafone

Dumb phones: advogados desligados

Responder a uma chamada profissional ou a um email, depois do expediente, com o acesso facilitado dos smartphones, é a marca de um grande profissional? Ou, talvez mais importante, não atender é significado de desleixo e falta de compromisso com a instituição empregadora?

A década de 90 era simples. O topo da sofisticação e afirmação pessoal bastava-se com um simples Nokia 3310, reza a lenda que inquebrável e com bateria inesgotável, que, entre a possibilidade de enviar umas SMS e receber uns telefonemas de controlo dos pais, permitia uma feroz competição com o colega do lado por aquele recorde último de Snake. O tempo era largo, a noite tranquila e existia uma espécie de fosso comunicacional entre os vários espaços de desenvolvimento pessoal e profissional. Fast forward e, perante uma sociedade que agora se move quase exclusivamente de forma digital, entre inaptos sociais e descrentes de relações interpessoais reais, onde fica o advogado, munido de um qualquer smartphone que lhe permite responder a emails, rever contratos e peças processuais e manter-se, sempre, a par das urgências dos seus clientes, mas sem qualquer lastro de sensibilidade que lhe possibilite definir fronteiras e limites de defesa da sua vida pessoal?

O desenvolvimento das profissões modernas acaba por assentar (leia-se, ser escravo), um pouco à imagem de toda uma sociedade, das existentes técnicas de comunicação. Emails, conference calls e outros neologismos instrumentais entraram com inusitada força no vocabulário de jovens e vetustos profissionais que, com maior ou menor facilidade, os acabam, também, por incluir na sua rotina profissional. O grande problema consiste em saber o que fica no espaço de trabalho e o que entra (ou deixamos entrar) no nosso espaço de reserva de intimidade da vida familiar. Será que esta é uma escolha que podemos ou nos deixam fazer?

Entre síndromes de burnout, fenómenos crescentes de intolerância ao stress e processos dinâmicos que assentam numa exaustão emocional, despersonalização e perda de realização pessoal, aparece, aqui, o cerne da questão. Com a crescente diluição entre o espaço “casa”, e o espaço “escritório”, surge também a dúvida do momento e do lugar da realização da prestação de trabalho. Responder a uma chamada profissional ou a um email, depois do expediente, com o acesso facilitado dos smartphones, é a marca de um grande profissional? Ou, talvez mais importante, não atender é significado de desleixo e falta de compromisso com a instituição empregadora? No contexto das profissões liberais, com maior flexibilidade de horários de trabalho, existe ou não um ónus de estender temporalmente a disponibilidade para possibilitar uma resposta imediata?

No campo das sociedades de advogados onde, por mister profissional, me movimento, parece-me claro que a resposta fora de horas, mais do que a renúncia a um qualquer direito, acaba por ser encarada como uma trend possivelmente demonstrativa de compromisso e factor diferenciador de competência profissional. O mesmo se passa com a necessidade de demonstrar que se trabalhou certo número de horas, ou que se vai abdicando de certas normais prerrogativas sociais em prol do crescimento do trabalhador. A quantidade tende a substituir a qualidade e a competência e exigência próprias da profissão vão sendo substituídas por indicadores estatísticos. Perde-se a noção de crescimento sustentado, talvez porque, de facto, este não exista. Parecer o que não se é, investindo na construção de uma personagem que, orgulhosa (e ansiosa) dos sacrifícios pessoais a que se sujeita, tudo faz pela afirmação profissional, exibindo-os com abnegação.

Precisamente por isso é que cada vez mais advogados preferem, conscientemente, estupidificar-se (exclusivamente) num plano digital, desligando contas de emails nos telemóveis e focando-se no essencial. Afasta-se, por um lado, a fábula de urgência, acrítica e arbitrária, que precipita respostas deficitárias e compromete a visão de definição de propriedades e é propiciado pela acesso contínuo ao servidor de email. Por outro lado, a um nível de supervisão e construção de equipas, o smartphone acaba por mimetizar uma falsa sensação de controlo, infantilizando o profissional e retirando-lhe autonomia, habituando-o a confiar nas redes de segurança existentes nos outros profissionais em carbon copy, possivelmente tornando a sua resposta pouco eficaz e contundente. Será que o Snake está de volta?

Para lá da discussão legal à volta de um direito à desconexão e do direito a dizer não ao patrão, esta montanha arrisca-se, certamente, a parir... um email.  É que se existe um espaço mínimo inviolável que se situa na percepção de que existe vida para lá do(s) escritório(s), o abrir mão desse direito tem que se situar, também, na esfera de responsabilidade (escolha?) do próprio profissional. Quanto a mim, para lá do fear of missing out tecnológico, sempre percepcionei a utilização destas ferramentas como uma forma de organização e prevenção futura de momentos de ansiedade. Trabalhar muito para evitar trabalhar de(mais). Mas existe um lado de adição latente que acaba por potenciar e comprometer esse esforço. Trabalhamos, muito, e, sempre, demais. E pur si muove, e nos acabamos por ir ficando para trás, presos nas nossa gaiolas douradas de tecnologia e ânsia de competência.

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