Emmanuel Macron dramatiza e põe em causa palavra de Ursula Von der Leyen

Após chumbo do Parlamento Europeu, Presidente francês quebra confidencialidade e revela manobras de bastidores para a nomeação de Sylvie Goulard, perante o silêncio desconfortável da futura líder comunitária.

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Rui Moura

No day after ao chumbo da candidatura de Sylvie Goulard ao cargo de comissária do Mercado Interno pelo Parlamento Europeu, a secretária de Estado dos Assuntos Europeus da França, Amélie de Montchalin, não fez a coisa por menos: a decisão dos eurodeputados, acusou, abre uma “grave crise institucional” e representa “um falhanço da Europa”, uma vez que impede a futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e a equipa por si escolhida, de tomar posse e começar a trabalhar na data prevista de 1 de Novembro.

As fortes declarações de Montchalin são representativas do impacte político que o chumbo da candidata designada pelo Presidente de França, Emmanuel Macron, teve tanto em Paris como em Bruxelas — a rejeição, pelo mesmo Parlamento Europeu, dos nomes dos candidatos a comissários da Hungria e Roménia não provocou o mesmo grau de frustração e alarme, nem deu origem a uma troca de recriminações tão tensa que põe em causa a credibilidade da futura presidente da Comissão.

A porta-voz da Comissão Europeia recusou esta sexta-feira desmentir ou confirmar as afirmações de Emmanuel Macron, que no rescaldo da reprovação de Sylvie Goulard revelou publicamente os contornos da sua negociação com Von der Leyen, a quem atribuiu por inteiro a responsabilidade pela escolha da candidata francesa ao colégio de comissários. “Ainda vou ter de perceber muito bem o que aconteceu”, reagiu o Presidente francês depois da expressiva votação que levou ao afastamento de Goulard, com 82 votos contra e apenas 29 a favor. “Não podemos permitir uma escalada desta crise política europeia”, reforçou esta sexta-feira, antes de receber o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, no Eliseu.

Segundo Macron, a França apresentou uma lista com três nomes de possíveis comissários, que apesar das suas “diferentes forças e fraquezas” eram capazes de conduzir a super pasta do Mercado Interno que lhe interessava. Na versão do chefe do Eliseu, foi a presidente eleita da Comissão que decidiu com quem queria trabalhar. “Ela disse-me que queria Sylvie Goulard porque a conhecia muito bem e sabia o que ela valia”, divulgou Macron, quebrando a confidencialidade que rodeia este tipo de conversações.

De acordo com o seu relato, depois de ter sido chamada a atenção para as controvérsias associadas ao nome de Goulard, Ursula von der Leyen teria dado conta das garantias obtidas após uma consulta os líderes das três maiores bancadas do Parlamento Europeu — Partido Popular Europeu, Socialistas & Democratas e Renovar a Europa. “Ligou-me a dizer que eles aceitavam o nome. O que me leva a perguntar o que aconteceu, porque quando a futura presidente da Comissão fecha um acordo com os líderes parlamentares, as coisas não podem mudar assim”, avisou.

Imediatamente o presidente da bancada democrata-cristã, Manfred Weber, e a chefe do grupo socialista, Iratxe García, refutaram a versão de Macron, esclarecendo não terem sido consultados por ninguém nem terem garantido o seu acordo à nomeação de Goulard. O silêncio persistente de Ursula von der Leyen face às declarações dos governantes franceses e dos dirigentes do Parlamento veio levantar dúvidas sobre quem estaria a mentir nesta história. 

Mas muito pior para a futura líder comunitária, o “caso” veio reanimar a discussão sobre a sua habilidade política, após uma sucessão de erros e equívocos, que vão da nova organização que fez dos pelouros às designações polémicas que atribuiu a várias pastas, à forma como acolheu os candidatos propostos pelos países e desenhou a hierarquia do próximo colégio de comissários.

A equipa de comunicação de Von der Leyen escondeu-se atrás de um curto comunicado emitido na noite de quinta-feira que reconhecia genericamente as dificuldades e os desafios colocados pelo chumbo de três candidatos a comissários pelo Parlamento Europeu. Esta sexta-feira, a porta-voz da Comissão recusou dizer se a presidente eleita tencionava pedir aos eurodeputados para rever a data da votação do colégio de comissários no seu conjunto, marcada para 23 de Outubro.

Também não disse qual é o plano de Von der Leyen para lidar com estas contrariedades, para além de repetir que o processo de nomeação voltou à estaca zero para Hungria, Roménia e França: os governos têm de avançar novos nomes, que serão entrevistados pela futura presidente da Comissão, e, se indigitados, escrutinados pelo Parlamento Europeu. “A presidente eleita gostaria de avançar o mais rapidamente possível, mas entende que todos os envolvidos neste processo devem ter o tempo necessário para uma avaliação cuidadosa”, comentou a porta-voz de Von der Leyen.