Crítica

O que tem de ser tem muita Forza

Tudo se acelera tragicamente na brilhante segunda metade de La Forza del Destino, de Giuseppe Verdi, nesta excelente co-produção da Welsh National Opera e do Teatro de São Carlos. Então o amor não é mais forte do que a vingança? Claro que sim.

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ilustração mr. red/big

O que tem de ser tem muita força. Mas tem mesmo de ser? Não fosse a guerra impor à paz as suas condições, em que a mentira, a honra e a vingança valem mais do que a verdade, a paz e o amor e podia ser tudo diferente. Claro que podia... mas não pode ser.

Que extraordinários golpes de teatro sabia fazer Giuseppe Verdi e os seus companheiros de aventuras na ópera italiana do século XIX! E como fazem David Pountney e Antonio Pirolli justiça a esse teatro musical inventado há tanto tempo! E — já agora — que surpresa esse teatro musical ser ainda hoje actual, para um público burguês, mas bem diferente dos espectadores daquela época!...

Vale a pena esperar e não sair da sala, mesmo se a primeira parte de La Forza del Destino deixa um amargo de boca, porque insiste numa simbólica que parece exagerada e redundante: cruzes enormes enchem o palco em cenas consecutivas, sublinhando a traço grosso e religioso que é de Destino, com maiúscula, que se trata. Não se sabia já, não está no título?

A soprano Julianna Di Giacomo foi nesta récita Leonora, e atacou muito bem as angústias iniciais, em que está longe do seu amor que há-de ser para sempre, como tem de ser para qualquer romântico. Com muitas súplicas ao céu, em que a tristeza não se resolve. A palavra PAZ irrompe logo de início, projectada sobre uma arquitectura cenográfica móvel que será bem eficaz a mostrar o dentro e o fora em todas as cenas. Uma borboleta projectada abre uma esperança sobre uma implacável roda da fortuna. Mas tudo é ainda frio e distante nesta primeira metade, em que Alvaro mata sem querer o pai de Leonora. E sai-se para o intervalo um pouco perplexo, apesar da boa prestação da Orquestra Sinfónica Portuguesa — que segurou a música de Verdi e a sua genial sinfonia inicial (está lá tudo!) — e do Coro do São Carlos, que termina com as vozes masculinas no segundo acto (os frades, nesta encenação vestidos com fatos brancos que parecem ensanguentados) deixando uma estranheza inquietante no ar. Mas onde é que isto vai parar, depois de vivas à guerra e vivas à boa companhia?

Na segunda parte desta Forza é que tudo rebenta. Primeiro a GUERRA, em letras garrafais projectadas, e todo um clima de vingança que parece impedir a possibilidade de o amor vencer. Amor entre “estrangeiros” (ele é “índio”, ela é “de cá”), que coloca esta ópera no centro dos problemas actuais do racismo persistente. Mas a encenação deixa isso apenas em aberto, e interessa-se também por outros problemas. Na segunda metade acompanha o ritmo teatral alucinante de Verdi e da sua música, que a muito boa prestação da orquestra deixou bem claro, apesar de pequenos desacertos com o coro que ainda vão a tempo de ser corrigidos. Aceleração teatral e não só musical, em que efeitos de montagem e de sobreposição deixam surgir, entre a música e o teatro, a ópera de ideias de Verdi.

No terceiro acto, sem Leonora, há um magnífico “piccollo teatro della guerra” que coloca os espectadores definitivamente num papel activo e crítico. Se preciso fosse, o olhar da fotografia de Leonora, que surge em tamanho grande integrado na cenografia, cuidava de nos pôr em sobressalto e interrogar toda a acção subsequente. Em estilos vocais (e teatrais) bem distintos, o barítono Damiano Salerno e o tenor Rafael Álvarez foram bem eloquentes. Sobretudo Salerno, no terrível papel de Don Carlo, aquele que, no fundo, impede tudo de acabar em bem, e cuja sombra se vê invertida (nas complicadas luzes do espectáculo, nem sempre bem afinadas), como num espelho, sugerindo quão contraditório é qualquer ser humano. Álvarez foi um tenor dramático eficaz e com um belo timbre, mas a sua voz falhou indisfarçavelmente nalguns saltos para os agudos. Nada de grave para a acção dramática, que prossegue inexoravelmente para a perdição anunciada. Julianna Di Giacomo fez o magnífico final magnificamente. E todos os outros cantores foram impecáveis, mas há que destacar a meio-soprano Cátia Moreso, que foi uma Preziosilla espectacular sobretudo no extraordinário “rataplan” do final do terceiro acto, num momento altíssimo do coro do São Carlos e num dos mais tocantes momentos da encenação de Pountney, apesar da violência imensa da cena, que nos obriga a pensar se o amor pode mesmo mais do que o horror do apelo guerreiro. Mas como?

No final, a última pancada do destino (na música) não é cumprida pelas pancadas do gesto de teatro da actriz, que deixa o bastão suspenso, numa ideia simples e genial. Porque é mesmo disso que se trata nesta ópera em que tantas vezes o destino é invocado e não cumprido, no fim de contas. O nosso destino será feito pelas nossas mãos? Será.

Texto alterado a 12/10/2019: corrige no nome de Alfonso para Alvaro