Opinião

Grito silenciado: Equador resiste

o povo equatoriano mostra ao mundo o sentido real da palavra democracia, e o protagonismo dos povos indígenas na América Latina em defesa da terra, da equidade e dos direitos sociais e coletivos constantemente atacados pelo capital financeiro.

As marcas indeléveis do colonialismo na história da América Latina refletem-se não só no passado, mas no presente, no agora. Saques às reservas naturais e violência foram transformados em dívidas públicas infindáveis, políticas de austeridades e a exploração predatória do grande capital financeiro sobre a natureza - que conduz à dependência e à precariedade. Características que são o motor do sistema neoliberal que serve os interesses dos grandes fundos internacionais.

A socióloga boliviana Silvia Cusicanqui, defende que conhecer aspetos das lutas anticoloniais é um fluxo contínuo, que, se constitui através de novas imersões teóricas e práticas. São elas que nos permitem a compreensão de disputas em contextos localizados e promovem outras dinâmicas de contestação.

No Equador, na última semana a revolta liderada por movimentos populares indígenas e estudantis em resposta às reformas económicas deflagradas pelo governo de Lenín Moreno levaram milhares às ruas. A onda de protesto que teve início em Quito já se alastra por todo país. A entoar palavras de ordem os manifestantes seguem em marcha por todo território nacional em defesa da soberania do povo equatoriano que não aceita os acordos feitos pelo chefe de Estado com o FMI. A descolonização das práticas políticas ganha relevo na medida que propõe um tipo de substituição total e não residual: propõe mudanças que precisam ser realizadas a partir dos sujeitos colonizados com uma consciência política.

A reivindicação dos movimentos sociais ocorre desde a declaração do aumento de combustíveis - ao anúncio da implementação de um pacote de medidas económicas e laborais que afetam a população mais empobrecida do país e violentam a constituição e os tratados de direitos humanos.

Em resposta às manifestações, no último dia 04 de outubro, Moreno declarou o Estado de exceção, com o objetivo de criminalizar os movimentos populares e legitimar a violência do Estado. Desde então, segundo dados oficiais, já são mais de 400 pessoas detidas e várias gravemente feridas. O Conselho de Proteção de Direitos Humanos já repudiou publicamente os atos de assédio policial, mesmo com pessoas que não fizeram parte de protestos, inclusive crianças.

Verónica Yuquilema, natural do povo Kichuwa Puruwa do Equador - doutoranda no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra – chama atenção a pouca visibilidade dada pelos média, que ao minimizar as mobilizações populares acabam por invisibilizar a repressão do Estado sobre os manifestantes. Por isso, a Confederação Nacional de Indígenas do Equador CONAIE (a organização indígena mais representativa do país) que está a liderar as manifestações conjuntamente com a Frente Unitária de Trabalhadores FUT, está a fazer um chamado para que se rompa o cerco mediático que está a esconder o que realmente se passa no país.

Enquanto os estudantes e outras organizações mantém os protestos no centro de Quito e em outras cidades, os movimentos indígenas bloqueiam as estradas e caminham em direção à capital, onde pretendem somar forças à grande concentração popular prevista para hoje dia 09 de outubro. O levante que até o último fim de semana era liderado pelas províncias da zona andina e amazônica, já se expande até a zona da costa do Equador.

A entoar a famosa frase “el pueblo unido jamás será vencido” da canção de Sergio Ortega, que se transformou no hino de resistência contra a ditadura militar nos anos 70 no Chile, o povo equatoriano mostra ao mundo o sentido real da palavra democracia, e o protagonismo dos povos indígenas na América Latina em defesa da terra, da equidade e dos direitos sociais e coletivos constantemente atacados pelo capital financeiro.

Perceber as idiossincrasias do debate latino-americano sobre resistência e luta – ajuda-nos a compreender as ancoragens que foram realizadas quando tentaram cartografar, a partir de teorias e jogos de poder, outras expedições políticas, teórico-epistêmicas sobre a América Latina.