Ofensiva turca na Síria empurra milhares de curdos para longe da fronteira

Presidente dos EUA defende saída das tropas norte-americanas: “Os curdos não combateram ao nosso lado na batalha da Normandia.” Teme-se uma nova tragédia humanitária entre a população curda e um possível reagrupamento do Daesh.

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Protesto em Hasakah, no Nordeste da Turquia, com fotos de vítimas dos bombardeamentos EPA

As forças turcas continuaram esta quinta-feira a avançar no território da Síria, ao longo da fronteira entre os dois países, forçando dezenas de milhares de civis a fugirem das suas casas com receio de serem atingidos por tiros de artilharia e ataques aéreos. À medida que a ofensiva da Turquia vai conquistando mais território às milícias curdas, com a permissão do Presidente norte-americano, Donald Trump, o ministro dos Negócios Estrangeiros da República Checa deu a entender que pouco pode ser feito para se anular os riscos de uma nova tragédia humanitária na Síria: “Infelizmente, nesta altura, não temos outra possibilidade para acalmarmos a situação além da pressão diplomática.”

O comentário de Tomas Petricek, citado pela agência Reuters, junta-se a uma outra declaração proferida esta quinta-feira pelo embaixador francês em Washington até Junho passado, Gérard Araud, que parece confirmar a ideia de que há pouca margem de manobra na União Europeia para enfrentar a Turquia.

“Os curdos combateram contra o Daesh porque eram o seu inimigo. Trabalhámos em conjunto porque o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Fornecemos-lhes armamento e apoio aéreo. Estou convencido de que eles não tinham ilusões sobre um compromisso a longo prazo da nossa parte”, disse Araud no Twitter.

Na noite de quarta-feira, na Casa Branca, o Presidente Trump justificou a sua decisão de fazer recuar as tropas norte-americanas da fronteira síria com um argumento semelhante ao do antigo embaixador francês em Washington. Foi essa decisão de Trump que abriu as portas ao Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, para ordenar o início da Operação Fonte da Paz, na quarta-feira.

“Os curdos estão a lutar pelo seu território. Eles não nos ajudaram na II Guerra Mundial, na batalha da Normandia, por exemplo”, disse o Presidente dos EUA. “Para além disso, gastámos muito dinheiro a ajudá-los com munições, armamento, dinheiro e salários. Mas, dito isto, nós gostamos dos curdos.”

O Presidente norte-americano tem sido acusado pelos críticos e por muitos dos seus apoiantes no Partido Republicano de trair as Forças Democráticas Sírias, em particular a milícia curda do YPG, que perdeu mais de 11.000 combatentes nos quatro anos de batalhas contra o Daesh, em que serviu como ponta de lança no terreno de uma coligação liderada pelos EUA.

É a milícia YPG, em particular, que a Turquia pretende varrer do Norte da Síria com a operação lançada esta semana, por considerá-la uma organização terrorista que ameaça a integridade do seu território.

Para Ancara, as milícias curdas no Norte da Síria e os curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, no Sul da Turquia, são uma e a mesma coisa – findos os combates mais sangrentos contra o Daesh, as milícias curdas da Síria apoiadas pelos EUA ficam agora totalmente expostas ao avanço da Turquia.

No terreno, os ataques turcos concentram-se numa faixa de território sírio com cerca de 400 km de largura e mais de 30 km de profundidade. É esse o pedaço da Síria que o Governo de Erdogan quer tirar das mãos dos curdos, com dois objectivos declarados: cortar qualquer hipótese de ligação aos curdos na Turquia, e enviar para lá grande parte dos mais de três milhões de refugiados sírios que vivem em campos no território turco.

O Crescente Vermelho Curdo disse que pelo menos sete civis foram mortos, entre os quais duas crianças, e 19 ficaram feridos. E segundo o Observatório Sírios dos Direitos Humanos, uma organização com sede no Reino Unido, os bombardeamentos turcos já obrigaram mais de 60.000 pessoas a fugirem, em menos de dois dias, e a deixarem praticamente sem população as cidades de Ras al-Ain e Darbasiya.

“Posso ter perdido outra vez tudo o que reconstruí nos últimos anos. Os bombardeamentos são selvagens e indiscriminados”, disse ao Washington Post um comerciante de Tel Abyad, Mikael Mohammad. “Tive de sair apenas com a roupa do corpo. Entrei no carro, fui buscar a minha família e fugimos da zona da fronteira.”

Esta quinta-feira, numa reunião do Partido Justiça e Desenvolvimento, em Ancara, o Presidente turco disse que nas primeiras horas da operação foram mortos 109 “terroristas” – o termo usado pelo Governo turco para se referir aos elementos das milícias curdas. Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, 16 combatentes das Forças Democráticas Sírias morreram desde o início da ofensiva turca, na quarta-feira.

Para além dos receios de uma nova tragédia humanitária no Norte da Síria depois de anos de combates sangrentos contra os extremistas islâmicos, teme-se também que a operação da Turquia force os curdos a abandonar o controlo dos vários campos onde estão detidos mais de 10.000 antigos combatentes do Daesh e quase 70.000 familiares, a esmagadora maioria mulheres e crianças.

Erdogan garantiu, esta quinta-feira, que não permitirá um reagrupamento do Daesh, mas a ausência de uma acção coordenada internacionalmente deixa as associações de defesa dos direitos humanos à espera do pior. Ao mesmo tempo que combate contra as forças curdas, o Governo turco teria de garantir a passagem para a Síria, a instalação e a segurança a mais de um milhão de refugiados sírios e, para além disso, lidar com uma possível tentativa de ressurgimento do Daesh.

Com a saída de cena dos EUA, o Presidente Erdogan lançou fortes críticas aos países europeus e do Médio Oriente que condenaram a ofensiva no Norte da Síria. À Europa, disse que enviará para lá os milhões de refugiados sírios que diz querer reinstalar na Síria, se Bruxelas continuar a opor-se; e à Arábia Saudita, disse que devia “olhar-se ao espelho” por causa da situação no Iémen.

Depois destas declarações de Erdogan, a agência Reuters citou um diplomata europeu, sob anonimato, que criticou a forma como Bruxelas lidou com a chegada de refugiados à Europa, em particular no Verão de 2015.

“Pusemo-nos numa posição em que a relação entre a Turquia e a União Europeia só tem uma dimensão, baseada num tópico que criou um equilíbrio de poder desfavorável para nós. Temos de nos organizar. Não tem havido uma solução colectiva para o problema dos refugiados, e por isso ficámos sujeitos a esta chantagem.”