Sábio Sabor: uma horta que promove a saúde mental

Projecto de uma associação alia a produção agrícola à terapia ocupacional. Para além da produção de legumes e frutas para utentes e comunidade, pretende-se que esta horta seja um espaço terapêutico para pessoas com doenças mentais.

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A manutenção da horta acontece duas vezes por semana Nelson Garrido
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A ideia surgiu quando a AFUA-HML pensou na “alimentação como promotora da saúde mental” Nelson Garrido
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Horta Sábio Sabor quer envolver os utentes nesta arte terapêutica que é a jardinagem Nelson Garrido

Plantar, semear, tratar, ver crescer, colher pode ser uma terapia. Eles acham que sim e, por isso, os utentes da Associação de Familiares, Utentes e Amigos do Hospital Magalhães Lemos (AFUA-HML) começaram, no dia 22 de Julho, a plantar uma horta terapêutica e solidária. Os objectivos desta iniciativa incluem a produção de legumes e frutas que assegurem uma alimentação saudável dos utentes da instituição e da comunidade e o funcionamento de um espaço terapêutico. A dinamização da horta é realizada por pessoas com doença mental, em contexto de aprendizagem e com supervisão técnica.

Num espaço pequeno, mas acolhedor, cerca de oito utentes, com uma média de 35 anos de idade, “tentam (re)aprender a viver”, como afirmou Susana Fernandes, responsável pelo Departamento Científico e de Desenvolvimento de Projectos da AFUA-HML. De luvas na mão, estão prontos para fazer a manutenção da horta, que acontece duas vezes por semana, de manhã cedo. Esta actividade é um complemento ao já existente atelier de culinária desta IPSS (Instituição Particular de Solidariedade Social), que cria receitas com os seus próprios produtos e convida os utentes a participar.

Susana Fernandes revelou ao PÚBLICO que a horta Sábio Sabor, além de ter como grande finalidade a produção agrícola, “pretende envolver os utentes nesta arte terapêutica que é a jardinagem”. “A finalidade destes produtos é conhecida pelos utentes, pois estes devem saber que há um propósito” – nomeadamente produzir as receitas do Sábio Sabor e beneficiar quem mais precisa. Este é um conhecimento que “os motiva ainda mais”, explicou. Além disso, continuou, há um “efeito de bem-estar e uma motivação intrínseca” que os utentes acabam por sentir. É o caso de Carlos Pereira, de 34 anos, que embora seja licenciado em contabilidade, tem uma doença psiquiátrica crónica que o impede de trabalhar. Com esta horta e com a ajuda da AFUA-HML, sente-se “mais independente”. Planta de tudo um pouco e crê que é uma boa forma de passar o tempo, frisou, acrescentando que consegue, igualmente, “lidar melhor com a doença”.

Com o apoio financeiro do Mar Shopping de Matosinhos, o sonho da horta nasceu com vista à promoção do bem-estar dos utentes, a associação conseguiu agora uma casa, de que é arrendatária, onde se encontram vários serviços desta IPSS com 20 anos de existência. Para a responsável, este “é um esforço financeiro fundamental para [se levar] a cabo respostas para os utentes”.

A ideia surgiu no início deste ano, quando a AFUA-HML pensou na “alimentação como promotora da saúde mental”. Aliás, alguns dos produtos da horta Sábio Sabor também apoiam esta marca registada da AFUA-HML, que visa comercializar receitas – através de um livro – e produtos saudáveis. O lucro gerado serve para criar oportunidades de emprego para os utentes da instituição, assim como para dar a conhecer à comunidade os produtos promotores de saúde mental e os seus benefícios.

Susana Fernandes diz que a adesão da comunidade a este projecto está a ser “muito boa”. “Os utentes sentem-se motivados e as famílias, vendo-os bem, também ficam bem”, declarou a psicóloga, adiantando que “a ideia é continuar”. Isto, porque, na sua opinião, “a prática de uma actividade ao ar livre favorece a saúde mental de quem a pratica, prevenindo-se, simultaneamente, o acumular de ansiedade e de outros sintomas psicopatológicos”.

A associação explora ainda o bar do hospital Magalhães Lemos e tem alguns utentes ali a trabalhar. Já iniciou, também, num espaço cedido pela Câmara do Porto, “um processo de obras para a instalação de uma cozinha semi-industrial”, onde pretende transformar e comercializar, em maior volume, os produtos cultivados. “A horta vai-nos facultar o acesso a produtos biológicos feitos por nós”, rematou.

Para além da horta, a associação está a desenvolver outros projectos, como o Centro de Apoio à Vida Independente (CAVI), sendo o foco a autonomização das pessoas com doença mental e a sua integração. Já o Gabinete de Informação, Intervenção e Apoio Psicossocial visa promover a saúde mental dos seus utentes, mas também reabilitar. Pretende, portanto, ir ao encontro daqueles utentes que precisam de apoio ao nível da sua saúde mental mas cujo foco já não é tanto a doença crónica.

Actualmente, a AFUA-HML detém diferentes estruturas na área da reabilitação psicossocial, nomeadamente uma Unidade Sócio Ocupacional, quatro Unidades Residenciais Protegidas, uma Unidade Residencial de Autonomia, uma Empresa Social de Restauração, uma Empresa Social de Limpeza, o Gabinete de Informação, Intervenção e Apoio Psicossocial, uma Equipa de Apoio Domiciliário e agora, mais recentemente, o CAVI. A equipa ao serviço destas estruturas é multidisciplinar, sendo constituída por dois assistentes sociais, duas terapeutas ocupacionais, uma psicóloga, um técnico de reabilitação psicossocial, 11 ajudantes de acção directa, nove funcionários de limpeza e sete funcionários de restauração. Os funcionários das empresas sociais são, na sua maioria, pessoas com doença mental.

A AFUA-HML é uma IPSS criada por um grupo de técnicos, familiares, utentes e amigos do Hospital Magalhães Lemos e tem como missão promover a saúde mental junto da comunidade e a reabilitação e integração social das pessoas com experiência em doença mental, dar apoio aos que deles cuidam e, ainda, contribuir para a definição das políticas de saúde mental.

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São cerca de oito os utentes que participam na manutenção da horta Nelson Garrido

Texto editado por Ana Fernandes

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A horta pretende promover o bem-estar dos seus utentes com a prática de uma actividade ao ar livre Nelson Garrido