Economia portuguesa não evita impacto do abrandamento internacional

Revisão em alta da previsão de crescimento para 2019, de 1,7% para 2%, é explicada essencialmente pela nova série do PIB publicada pelo INE no mês passado.

Carlos Costa
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Banco de Portugal, liderado por Carlos Costa, passou agora a apontar para um crescimento de 2% Miguel Manso

A variação do PIB português em 2019 até será mais alta do que antes era previsto pelo Banco de Portugal, mas as razões para um maior optimismo esbatem-se quando se percebe que o que justifica esta revisão em alta das projecções é apenas o efeito da introdução pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) da nova série para o PIB e que aquilo que se observa na economia é um abrandamento provocado pela deterioração da conjuntura internacional.

Nas suas novas projecções para este ano, o Banco de Portugal, que em Junho tinha previsto um crescimento de 1,7%, passou agora a apontar para uma variação de 2%, um valor que também supera os 1,9% ainda projectados pelo Governo. No entanto, o banco central assinala que esta aceleração do ritmo de crescimento se deve essencialmente à incorporação nos cálculos da nova série de contas nacionais publicada recentemente pelo INE e que passou a estimar o crescimento da economia em 2,4% em 2018.

Para além desta mudança da base das contas, o que sobra da análise do Banco de Portugal é a confirmação de um cenário em que a economia nacional, como seria de esperar, não consegue escapar ao impacto da deterioração da conjuntura internacional que se verifica desde o início deste ano.

Face a 2018, ano em que a economia cresceu 2,4% (valor que antes da revisão efectuada pelo INE era de 2,1%), todos os indicadores desaceleraram em 2019, excepto o investimento.

As exportações, em particular, mostraram uma deterioração significativa do seu desempenho. Tinham crescido 3,8% em 2018, esperando-se agora que a sua taxa de variação não passe dos 2,3% este ano. É um cenário que encontra explicação no facto de as economias que constituem os mercados principais para as empresas exportadoras portuguesas, como a Espanha ou a Alemanha, estarem a registar uma forte desaceleração.

A procura externa dirigida à economia portuguesa reduziu-se, diz o Banco de Portugal, de 3,2% para 1,8%. Em Junho, o banco central previa um crescimento da procura externa em 2019 um pouco mais forte, de 2,3%.

A notícia positiva – o crescimento mais elevado do investimento em 2019 face a 2018 – encontra a sua explicação essencialmente no sector da construção, diz o banco. Ainda assim, o investimento deverá ter um desempenho no segundo semestre do ano que é mais fraco do que o da primeira metade do ano, período em que o indicador disparou 9,5% face ao período homólogo do ano anterior.

Neste boletim, o Banco de Portugal não apresenta novas previsões para os anos seguintes, mas identifica quatro grandes riscos para a evolução da economia portuguesa nos próximos anos. Em primeiro lugar, a possibilidade de uma desaceleração mais acentuada da actividade económica nos principais mercados para as exportações portuguesas. Depois, com efeito negativo também nas exportações, o banco teme um cenário de intensificação das tendências proteccionistas no comércio internacional. A possibilidade de uma saída do Reino Unido da União Europeia sem acordo, já a partir do final deste mês, constitui uma ameaça adicional, havendo também a possibilidade de, em diversos pontos do planeta, se assistir a um agravamento das tensões geopolíticas.