Chimamanda Adichie, Danny Glover e David Adjaye no Fórum do Futuro 2019

Travessias é o tema da edição deste ano, que toma como mote os 500 anos da viagem de circum-navegação para debater os efeitos históricos, políticos e sociais do feito de Fernão de Magalhães e Juan Sebastián Elcano. De 3 a 9 de Novembro, no Porto.

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Além de actor, Danny Glover é activista pelos direitos humanos Jean-Paul Pelissier/ REUTERS

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que a revista Time nomeou já como “uma das pessoas mais influentes do mundo”, o actor norte-americano Danny Glover, conhecido por filmes como Arma Mortífera, A Cor Púrpura ou Silverado, mas também pelo seu activismo pelos direitos humanos, e o arquitecto inglês de origem tanzaniana David Adjaye, autor do Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana em Washington, são três dos 52 convidados da sexta edição do Fórum do Futuro, que vai realizar-se em diferentes palcos da cidade do Porto entre 3 e 9 de Novembro.

O tema deste ano é Travessias, pegando na efeméride do 500.º aniversário do início da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães e Juan Sebastián Elcano para debater os efeitos históricos, políticos e sociais desta aventura que mudou a percepção do mundo nesse início do século XVI. “Um debate que nos coloca no centro de uma das principais inquietações contemporâneas: como lidar com o legado colonial e como entender a ocupação de territórios hoje, também no contexto da natureza”, lançou Rui Moreira, esta quinta-feira, no Teatro Municipal Rivoli, na apresentação do programa desta iniciativa da Câmara Municipal do Porto, que já conquistou um lugar seguro na agenda cultural da cidade.

Coordenador do fórum desde o início (com Paulo Cunha e Silva), Guilherme Blanc, director para a Arte Contemporânea e Cinema da empresa municipal Ágora, decidiu rodear-se este ano de uma equipa de curadores que inclui também Filipa Ramos, editora chefe da agenda de arte e-flux e curadora de cinema na Art Basel; Gareth Evans, galês, produtor cultural e curador de cinema na Whitechapel Gallery, em Londres; e o artista e escritor britânico de ascendência ganesa John Akomfrah.

Esta é uma das novidades da edição deste ano do Fórum, que vai também alinhar-se com a agenda das preocupações ambientais erradicando o plástico e usando papel produzido de modo sustentável nos seus serviços, e compensando a emissão de CO2 das viagens dos convidados de 15 países associando-se a um projecto de defesa da Amazónia.

Mas sobre as mesas das conferências e debates — e também num conjunto de iniciativas associadas, como performances, exposições, filmes e concertos — vai principalmente “reflectir-se sobre os efeitos da viagem de circum-navegação, e sobre o sistema de domínio de pessoas e povos, mas também da natureza” que ela originou, lembrou Guilherme Blanc na apresentação do programa.

Actualidade do racismo

A abertura do fórum vai ser feita, na tarde de 3 de Novembro, no Rivoli, por Chimamanda Ngozi Adichie, que, apresentada pela jornalista do PÚBLICO Joana Gorjão Henriques irá precisamente abordar o tema genérico, Travessias, falando sobre “a forma como o racismo ainda hoje opera a partir de um discurso único, latente e perigoso”. Uma intervenção que será seguida, no Palácio dos Correios, da performance Rant, pelos artistas norte-americanos Ralph Lemon & Kevin Beasley, a partir de uma exposição do segundo no Whitney Museum, de Nova Iorque.

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A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (“uma das pessoas mais influentes do mundo” para a revista "Time") fará a abertura do Fórum a 3 de Novembro rui gaudêncio

O artista plástico brasileiro Ernesto Neto terá uma dupla participação no segundo dia do programa, primeiro em defesa da “indigenização da vida”, mostrando como na espiritualidade, na arte e na política “estamos todos misturados”, depois fazendo par com a líder e activista indígena Sônia Guajajara, em defesa da Amazónia nestes dias em que o “pulmão do mundo” se encontra ameaçado pelas políticas do Presidente Bolsonaro. Entre as duas sessões, o artista brasileiro Calixto Neto apresenta, na Galeria Municipal, a performance Oh!rage, dando o seu corpo à raiva, ao lamento e à revolta perante a invisibilidade das minorias.

Na terça-feira, dia 5, antes de Danny Glover, também embaixador da UNICEF, recordar “o imperativo moral, democrático e económico” de reparar as injustiças perpetradas pelo racismo e pelo colonialismo ao longo da história, o artista do Bangladesh Naeem Mohaiemen, nomeado em 2018 para o Prémio Turner, e Fiesta Warinwa, do Sudão do Sul, directora para as Políticas de Envolvimento da African Wildlife Foundation, chamam a atenção para a necessidade, respectivamente, de respeitar as narrativas asiáticas locais em confronto com o olhar ocidental e de salvaguardar a vida selvagem e os recursos naturais em África.

A historiadora britânica Christina Sharpe, autora do livro In the Wake: On Blackness and Being (Duke University Press, 2016), pega neste título para uma conferência, no dia 4, em que irá abordar o tema da escravatura e também as representações artísticas da vida negra. Uma intervenção que será antecedida por uma palestra-performance da brasileira Vivian Caccuri, A Mão da Febre, sobre a febre amarela levada pelos navios negreiros da África para a América do Sul, e um concerto, na Casa da Música, a marcar a estreia portuense da francesa Lafawndah.

Duas realizadoras, Wu Tsang e Elizabeth A. Povinelli, e a cientista e activista ambiental indiana Vandana Shiva preenchem a agenda de quinta-feira, dia 7, com intervenções — entre a performance, o filme e a palestra — abordando, respectivamente, questões de género, a vida indígena na Austrália e as novas formas de colonização.

Um dia em Serralves

O Museu de Serralves vai ser, na sexta-feira 8, palco do fórum, acolhendo uma exposição-performance da húngara Eszter Salamon sobre as relações da coreografia com a História (que será repetida no sábado), a artista e escritora cubana Coco Fusco, a abordar as difíceis relações dos artistas com a centralismo estatal do seu país, onde está impedida de entrar, e o cineasta afro-americano Arthur Jafa, colaborador de Spike Lee e Beyoncé, e Leão de Ouro de Melhor Artista na Bienal de Veneza deste ano, a falar sobre a produção cultural negra — e a mostrar, no dia seguinte, no Cinema Trindade, o seu filme Dreams Are Colder than Death (2013).

A fechar o Fórum do Futuro, o regresso ao Porto, onde começou a trabalhar no atelier de Eduardo Souto de Moura, de David Adjaye, considerado já um dos arquitectos mais influentes do nosso tempo, para falar, com a sua ex-colega de estágio Graça Correia, sobre Identidades e Formas, utilizando como exemplos o pavilhão que desenhou para representar o Gana na Bienal de Veneza 2019 e o projecto de um novo museu para reunir em África tesouros pilhados do Benim.

Antes da intervenção de Adjaye, o tema das colecções coloniais sequestradas pela Europa será também tratado pela historiadora Clémentine Deliss. E, para fechar em festa, haverá música originária da Costa do Marfim com uma performance e um DJ set de Crystallmess, intitulada In Memory of Logobi.

À margem desta agenda, Guilherme Blanc sublinhou ainda a apresentação, ao longo da semana e a abrir algumas das sessões, de pequenos episódios de um projecto fílmico do poeta e académico norte-americano Fred Moten.

Notícia corrigida: o coordenador do Fórum do Futuro, Guilherme Blanc, é director para a Arte Contemporânea e Cinema da empresa municipal Ágora, e já não o adjunto de Rui Moreira no pelouro da Cultura.