Eduardo Torgal abre uma agência de relacionamentos, depois de Casados à Primeira Vista

A experiência no concurso de televisão como especialista em relações levou o profissional e a mulher a abrir a Match 74.

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Alice Donovan Rouse/Unsplash

De manhã, Eduardo Torgal falava com um executivo que confessava que a sua vida profissional e financeira “estava óptima, mas faltava-lhe ter alguém com quem partilhar” o seu sucesso. À tarde, com uma mulher que dizia exactamente o mesmo. “Como é óbvio, por questões de sigilo profissional, nunca conseguia juntar os dois, mas pensava que se estas duas pessoas se conhecessem, resolviam-se dois problemas”, conta o coach que, por isso, decidiu abrir a Match 74, uma agência de relacionamentos, a primeira em Portugal, garante, e que é hoje formalmente apresentada, em Lisboa.

“Fiquei com uma noção real do problema que as pessoas enfrentam. Há muitas com uma boa carreira, bem estabelecidas na vida, mas que se vêem obrigadas a recorrer a sites para encontrarem alguém, embora não se sintam confortáveis nesse papel”, explica. Faltava quem fizesse a ponte entre elas e as poupasse a “conhecerem pessoas desinteressantes, que mentem nos perfis e que nada têm a ver consigo, que é o que muitas vezes acontece nesse tipo de plataformas”, refere o ex-director comercial que, em 2004, trocou uma multinacional pelo coaching

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Eduardo Torgal e Joana Carvalho Costa dão a cara pela Match74 DR

Eduardo Torgal, que é coach de relacionamentos e que fez parte da equipa de profissionais que acompanhava os concorrentes de Casados à Primeira Vista, um concurso da SIC, onde os jogadores casavam sem se conhecerem previamente, avança que o seu site não é uma aplicação, como o Tinder, para promover encontros românticos. “A nossa agência é exactamente o oposto. A nossa missão é juntar pessoas. Ninguém é um número ou apenas um nome. Nós conhecemos a história da pessoa. Queremos ter sempre essa proximidade com os nossos clientes e queremos que as pessoas que não estão confortáveis no Tinder sejam nossas clientes”, explica.

Para já, os clientes da Match 74 têm entre 38 e 66 anos e exercem várias profissões: são médicos, advogados, consultores e arquitectos, enumera. 

Promover relações sérias e duradouras

O processo tem várias fases e dura seis meses. O primeiro filtro é feito por Joana Carvalho Costa, coach adviser e mulher de Torgal, que vai “perceber se a pessoa está no momento certo”. Para já, a agência tem estado a funcionar em modo piloto e “já aconteceu recusar alguns clientes, que não estavam à procura de um relacionamento sério e real; ou que tinham terminado um relacionamento, há pouco tempo, e foi considerado que ainda não era a altura de iniciar uma relação”, revela o empresário.

Só depois da entrevista inicial, é que o cliente entra no programa “Love Card” (140 euros), que inclui uma reunião de hora e meia com um dating coach – a agência tem 12 profissionais, em Lisboa e no Porto, que foram seleccionados de um grupo de cerca de 70, que tiveram formação com Torgal. A ambição é chegar a outras cidades.

A procura de parceiro só começa se o cliente aderir ao programa “Membership” (que pode ser pago numa periodicidade mensal, mas que o empresário prefere não divulgar os valores), onde vai reunir directamente com Eduardo Torgal, que publicou recentemente o livro Guia Definitivo para Amar. “Esta reunião serve para perceber quais são as bagagens de relações passadas e se, eventualmente, o cliente necessita de uma sessão de coaching antes do primeiro encontro”, refere.

Quando dois perfis se cruzam, a agência começa por enviar informação por escrito aos candidatos que ficam a saber, por exemplo, se a outra pessoa tem filhos, se quer ter, por que é que procura uma relação, qual a sua situação profissional, etc.. Eduardo Torgal explica que o objectivo é ter em conta algo que é “muito importante nos relacionamentos: se, de facto, há coisas que as ligam, se existe uma linha comum”. 

Após a apresentação e validação de ambos os perfis, chega, finalmente, o encontro – um almoço ou um jantar –, para o qual os dois clientes recebem instruções. No dia seguinte, são contactados por um dos elementos da equipa para perceber como correu. “Imaginemos que uma pessoa gostou e a outra não. É uma situação que acaba com uma a insistir nas chamadas e a outra a não ligar. Nós queremos acabar com esses vazios. Se uma pessoa quiser e a outra não, é importante explicar. O papel do dating coach é perceber se há espaço para recuperar. E depois há, também, um trabalho de ir afinando aquilo que é importante para o cliente”, sublinha o também professor de Liderança e Coaching na Universidade Lusófona.

Por outro lado, “acontece também haver encontros muito bons e ninguém ter a coragem de dizer que gostou. Nesses casos, conseguimos promover um segundo encontro”. O trabalho de coaching de relacionamentos é “muito sensível”. O sigilo é garantido através de um contrato de confidencialidade.

Pouca tolerância à frustração 

Apesar de nos últimos anos, o número de divórcios ter vindo a diminuir, há ainda muitas relações que falham. Eduardo Torgal explica porquê: “A maior parte das relações, que vemos, hoje em dia, são entre duas crianças, onde as pessoas reclamam e fazem birras. Por outro lado, a sociedade atravessa uma fase em que tudo é descartável. Então, é mais fácil descartar uma relação do que investir nela. Há muito pouca tolerância à frustração porque olhando para as redes sociais, tudo é perfeito e supostamente ninguém tem frustração. Se uma pessoa sente frustração, o que é que ela faz? Abandona a relação e não faz o essencial, que é abraçá-la e ultrapassar o momento difícil. Fugir é a forma mais fácil.”

O especialista considera que “as pessoas estão a criar um padrão de frustração e de fracasso sem perceberem o que aconteceu na relação anterior”. É em situações como esta que pode entrar a ajuda de um coach de relacionamentos. “Se quiserem aprofundar o que falhou, devem ter a coragem de perguntar: ‘o que há de comum em todas as relações que a tive até hoje?’ A própria pessoa. É importante que perceber que padrão é que teve nas relações anteriores e a levou a ir buscar um padrão igual”, enfatiza.

Esse é o trabalho que Eduardo Torgal já fazia antes de começar a agência. “É comum alguém que sempre teve um padrão de relacionar-se com pessoas que a menosprezavam, andar repetidamente à procura do mesmo como que uma necessidade de ser reconhecido. E contrariamente ao que seria de esperar, quando encontra alguém que a valorize, tende a rejeitá-la. É estranho, não é? A pessoa sentiu-se sempre tão maltratada nas relações anteriores que quando encontra alguém que a trata bem, tem tendência a acabar com a relação antes que a outra pessoa a acabe. É nessa altura que é importante reconhecer o padrão e recusá-lo. A pessoa deve permitir-se estar numa relação em que alguém a trata bem.”

“A nossa expectativa é única: juntar pessoas que criem uma história de amor que faça sentido. Se depois houver casamento, será uma consequência”, conclui.