Benfica no top 10 das “custódias partilhadas” na última década

A “ponte” de empréstimo de jogadores entre os “encarnados” e o Deportivo é das mais prolíferas da Europa e a cedência de Jovic ao Eintracht foi das mais lucrativas. FC Porto também surge referenciado neste estudo do CIES.

,SL Benfica
Foto
Reuters/DANIELE MASCOLO

Ninguém, por cá, empresta tantos jogadores como o Benfica às principais Ligas europeias e poucos clubes o fazem com mais expressão a nível mundial. O FC Porto também surge nesta lista do Observatório do Futebol (CIES), mas são os “encarnados” quem domina a arte de “partilhar a custódia” dos seus futebolistas.

A “ponte” entre o Benfica e vários clubes dos “Big 5” — campeonatos inglês, espanhol, italiano, alemão e francês — tem sido, maioritariamente, frutífera para todas as partes. O campeão português surge em décimo lugar a nível mundial, com 37 jogadores emprestados na última década, o que significa cerca de quatro futebolistas colocados nas principais Ligas em cada temporada, um valor considerável para uma equipa da Liga portuguesa.

O estatuto de “oásis” comprova-se com o restante top 25: o Benfica é a única equipa de fora dos “Big 5” a surgir neste lote e a segunda é… o FC Porto (23.º lugar). As equipas portuguesas são, portanto, entre as Ligas periféricas, as que melhor trabalham os empréstimos para os principais campeonatos, sendo que, para o Benfica, há outros dois dados sintomáticos e mais concretos ainda.

PÚBLICO -
Foto

Primeiro, a parceria com o Deportivo da Corunha, de Espanha, é, a nível global, a segunda mais fértil da última década. Ola John, Sidnei, Hélder Costa, Ivan Cavaleiro, Fariña, Roderick, Luisinho, Urreta e Nélson Oliveira foram os jogadores com viagem feita entre Lisboa e a Galiza. Esta parceria apenas foi superada pela “ponte” entre Udinese e Granada, dois clubes com o mesmo dono.

Depois, houve o sucesso de um nome em particular. O sérvio Luka Jovic, emprestado ao Eintracht Frankfurt entre 2017 e 2019, surge no top 5 de jogadores com mais golos marcados em período de empréstimo. O então benfiquista intrometeu-se numa luta com nomes como Zapata e Adebayor e superou mesmo os registos de avançados como Aubameyang (quatro cedências entre 2008 e 2011) ou Lukaku (Everton). E bem pode vangloriar-se o Benfica com este negócio, já que muito lucrou com a “explosão” do jogador na Alemanha e consequente venda do passe ao Real Madrid.

Os empréstimos são, por um lado, um recurso financeiro, e são, por outro, um benefício desportivo. Permitem às equipas, sobretudo as mais poderosas, emprestarem os seus excedentários, dando-lhes minutos de jogo e, possivelmente, obterem lucro numa futura venda. E isto aplica-se a jovens ainda sem espaço, mas também a “empecilhos” inadaptados ao clube-mãe. Há, ainda, o chamado “carrossel” dos empresários, que, com uma carteira de parcerias em mãos, fazem rodar os atletas pelos “seus” clubes, abrindo portas a negócios paralelos.

É com base num ou em vários destes pressupostos que os clubes recheiam os seus quadros com jogadores e que, depois, os espalham pelo globo. E quando conseguem fazê-lo recorrendo a equipas das principais Ligas europeias têm o melhor de três mundos: nível competitivo de excelência, que espoleta a evolução do jogador, exposição maior para o atleta e equipas potencialmente mais capazes de o adquirirem no final do empréstimo. 

Estas duas últimas premissas acabam mesmo por ser as mais frequentes, já que, segundo este relatório do CIES, quase metade dos atletas emprestados a equipas dos “Big 5” acaba por ser transferidos em definitivo após o empréstimo e apenas 30% regressam ao clube-mãe.

Esta lógica de empréstimos tem, porém, um efeito perverso, já assumido pela própria FIFA: os clubes mais poderosos acabam por exercer um certo poder sobre os clubes menores e as “teias” entre empresários e clubes adensam-se. Motivos para algumas Ligas já terem implementado um limite de empréstimos, ainda que se fale de passos mais fortes por parte da FIFA: limitar o número de atletas sob contrato, os empréstimos sucessivos do mesmo jogador e dar a um atleta a possibilidade de romper um contrato após vários empréstimos.