Pela primeira vez, oposição faz sair do poder ex-comandantes da guerra do Kosovo

Uma nova geração chega ao poder por causa do descontentamento causado pela corrupção, desemprego e más relações com a Sérvia.

Eleitores deram maioria à oposição ao anterior governo
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Eleitores deram maioria à oposição ao anterior governo FLORION GOGA / Reuters

Nunca tinha acontecido desde 2008, quando o Kosovo declarou a independência da Sérvia: os partidos da oposição foram os mais votados nas eleições legislativas de domingo, afastando do poder os ex-comandantes da revolução, que se têm sucedido na liderança, apesar das suspeitas de corrupção e crimes de guerra. Devem agora formar uma coligação governamental inédita. 

A grande surpresa foi a vitória do Vetevendosje, um partido nacionalista de esquerda, liderado por Albin Kurti, que se tornou conhecido como líder dos protestos estudantis de 1997 pela independência da então província sérvia. Agora com 44 anos, o seu partido ficou à frente, com cerca de 26% dos votos. Em segundo lugar ficou a Liga Democrática do Kosovo (LDK), de centro-direita, partido herdeiro de Ibrahim Rugova, que defendia a luta pacífica pela independência. Obteve 25% e que deverá ser parceiro de coligação do Vetevendosje, mas que tem esperança de conseguir nomear como primeira-ministra uma mulher: a advogada Vjosa Osmani, de 37 anos.

No entanto, os dois partidos necessitam do apoio de partidos mais pequenos ou dos representantes das minorias étnicas (sérvios, turcos e bósnios muçulmanos), que ao todo correspondem a 20 lugares no Parlamento, segundo a Reuters. 

Albin Kurti, disse que a vitória do Vetevendosje é motivo de “celebração nacional”. “O que aconteceu hoje [domingo] foi a intervenção do povo na nossa cena política para impedir o drama de o Estado vir a ter um fim trágico”, afirmou o dirigente político. 

A vitória da oposição foi interpretada como um castigo dos eleitores à coligação governamental que reunia o Partido Democrático do Kosovo (PDK), que ficou em terceiro lugar, com 21% dos votos e irá liderar a oposição. A Aliança pelo Futuro do Kosovo, do anterior primeiro-ministro, Ramush Haradinaj, não foi além dos 11%.

As eleições foram convocadas em Julho na sequência da demissão de Haradinaj, depois de ter sido intimado a comparecer no tribunal de Haia que investiga crimes de guerra durante a guerra com a Sérvia entre 1998 e 1999. Haradinaj era um dos comandantes do Exército de Libertação do Kosovo, mas nega ter cometido qualquer crime. Não, é no entanto, a primeira vez que sobre ele recaem suspeitas.

Mas mais do que as suspeitas sobre Haradinaj, são a corrupção, o desemprego elevado e as más relações com a Sérvia que mais causam descontentamento entre o eleitorado.

O Kosovo tem 1,8 milhões de habitantes e uma grande diáspora, de cerca de 800 mil emigrantes, sobretudo na Alemanha e na Suíça, que ainda têm direito a votar. É uma população muito jovem, com uma idade média de 29 anos, mas pobre. Desde a independência, em 2008, 200 mil pessoas emigraram e pediram asilo na União Europeia.

“Quando as pessoas votaram nele [Kurti] foi pensando que ele é uma pessoa que pode combater o crime e a corrupção, criar empregos e melhorar a economia”, disse à Reuters o director do diário Koha Ditore.

Outra das prioridades do próximo Executivo será melhorar as relações com a Sérvia que estão num impasse desde que o Kosovo impôs taxas aduaneiras de 100% sobre produtos sérvios. O líder do Vetevendosje prometeu durante a campanha eleitoral acabar com as taxas, mas não se pode esquecer que a sua matriz é a de um partido partido nacionalista albanês: não excluiu, por isso, aprovar outras medidas contra a Sérvia. Em Belgrado, o Presidente sérvio, Aleksandar Vucic, recusou dialogar com Pristina enquanto as taxas estiverem em vigor.

A Sérvia e o Kosovo estão embrenhados em difíceis negociações desde que o território declarou a independência, em 2008, que Belgrado não reconhece. Este diferendo diplomático que causa instabilidade na região é o maior obstáculo ao avanço dos seus processos de adesão à União Europeia. O diálogo mediado pela UE, iniciado em 2013, não tem dado grandes resultados.