Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

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Recordar Aquilino Ribeiro

Ler Aquilino Ribeiro é portanto resgatar do esquecimento pessoas e lugares forjados na dureza da serra, longe das luzes das cidades e que infelizmente estão cada vez mais remetidos aos pretéritos passados.

O primeiro livro que li de Aquilino Ribeiro foi O Malhadinhas. Mais do que as aventuras e desventuras de um almocreve pelas serranias da Beira e Trás-os-Montes, o que me fascinou, e continua a fascinar, foi a descoberta de uma linguagem tão diferente que por vezes tinha a sensação de estar a ler um outro idioma.

Ao embrenhar-me por esse território desconhecido, rapidamente percebi que não podia interromper a leitura a cada instante para consultar o significado das palavras que não conhecia, sob o risco de não passar do primeiro capítulo. E mesmo munido do melhor dos dicionários, havia sempre uma legião de substantivos, verbos e adjectivos que não constavam das suas páginas, tal a riqueza lexical do escritor. Ainda hoje estou para encontrar um que contenha a palavra “esperluxador”. A partir do momento em que se ultrapassa essa primeira tentação de querer perceber tudo, começa o deleite com a pena luxuriante, ritmada e álacre do escritor, onde abundam cores, cheiros, imagens, sons e impressões e onde o coloquial, o rural e o pagão se entrecruzam com a sofisticação, a erudição e a religião.

Com Aquilino Ribeiro sentimos, por vezes, que estamos perante um estudo etnográfico, em que as palavras brotam não da sua pena, mas do seio granítico da serra, o alfa e o ómega de grande parte da sua obra. Pelas páginas dos seus livros ressuma uma imensa declaração de amor a esse espaço indómito e genesíaco, que ele descreve com o rigor de um botânico e o detalhe de um ourives.

No dorso das aldeias e vilas serranas pululam faunos, lobos, fojos, urgueirais, andurriais, ferragiais e também o bicho homem. Este não é um corpo estranho ao meio, mas antes parte dessa natureza primária, vivendo de acordo com os seus instintos, numa religiosidade pagã. Como escreveu Vasco Graça Moura na introdução à obra Andam Faunos pelos Bosques, é o “ser humano terra-a-terra e pão, pão, queijo, queijo, que não conhece o tédio nem o spleen, que teoriza pouco, filosofa ainda menos”.

Mais do que o quadro de ardósia ou a pia baptismal é o diálogo permanente com a serra que molda os seus corpos e também as suas almas, como tão bem descreve Rigoberto, em Quando os Lobos Uivam, na sua tentativa de convencer os esbirros do poder central a não avançar com a florestação da serra: “A alma do habitante gerou-se desses oiteiros petrificados e corgos cheios de saltos. Mas só assim é que valem, em tanto que conformadores de carácter. A serra é por assim dizer a extensão universitária destas aldeias rupestres, desabridas e broncas, autênticas terras do Demo. E aldeias e serras estão consubstanciadas até à sua fibra mais íntima.” 

Ler Aquilino Ribeiro é portanto resgatar do esquecimento pessoas e lugares forjados na dureza da serra, longe das luzes das cidades e que infelizmente estão cada vez mais remetidos aos pretéritos passados. Por outro lado, a sua obra encerra um património linguístico único na história da literatura portuguesa que merece ser redescoberto, sobretudo numa altura em que se assiste a um empobrecimento cada vez mais acentuado do nosso vocabulário.

Agora que no dia 13 de Setembro passaram 134 anos sobre o seu nascimento, talvez seja uma boa oportunidade de a revisitar e conhecê-la melhor, evitando assim que se torne cada vez mais marginal nas preferências dos leitores. Mais do que discursos de circunstância ou descerramento de placas, esta é a maior homenagem que se pode fazer ao escritor natural de Carregal de Tabosa.