Editorial

Hong Kong, a democracia em causa perante o silêncio do mundo

O que as ruas de Hong Kong revelam é uma luta entre a defesa de uma forma de vida e um regime que a recusa

Já se passaram 18 semanas. Sob a chuva, nas ruas, nas estações de metro, no aeroporto ou nos viadutos gigantescos que tornam possível o fluxo do quotidiano a 7.5 milhões de pessoas acotoveladas numa área exígua, os cidadãos de Hong Kong continuam a resistir e a protestar. Começaram por recusar uma lei de extradição, entretanto anulada, que permitiria o julgamento dos seus cidadãos em tribunais da China. Continuaram com a exigência do sufrágio universal. Hoje lutam quase essencialmente pelo direito de lutar. Depois de injectarem tinta azul nos canhões de água, depois de mobilizarem gangues pró-chineses para causar tumultos e agredir manifestantes, o governo da cidade decidiu por estes dias dar mais um passo no endurecimento da sua resposta às manifestações: uma lei de excepção herdada dos tempos coloniais que já não se aplicava desde 1967 foi ressuscitada para proibir que os manifestantes usem máscaras nos seus protestos.

Entrámos definitivamente num território desconhecido. Apesar de todas as ameaças, de todas as proibições e da escalada da repressão, os manifestantes, na sua maioria jovens, não desarmam. O desespero leva as franjas mais radicais à violência gratuita. A cidade estava ontem praticamente paralisada. Sem o metro a funcionar, com centenas de lojas fechadas, com o seu habitual bulício suspenso. Só os manifestantes voltaram à rua e com máscaras. Sem que uma pretensa maioria silenciosa de cidadãos se exponha a exigir o regresso à normalidade, o que as ruas de Hong Kong revelam é uma luta entre a defesa de uma forma de vida e um regime que a recusa. O modelo de “um país dois sistemas” só existe se um desses sistemas impuser limites ao outro.

Tudo se passa perante uma gelada indiferença do mundo, em concreto a indiferença das democracias ocidentais. A União Europeia limita-se a recordar valores, sem pressionar a favor do seu respeito. Dos Estados Unidos ouve-se o comprometedor silêncio de Donald Trump. A democracia só se exige aos mais fracos, nunca a um colosso com a dimensão da China. Pode-se argumentar que esta indiferença se justifica com a prudência com que as autoridades têm gerido o conflito. Mas a situação mudou com o regresso da lei de excepção. O que se segue é incerto mas, olhando para a tenacidade dos cidadãos de Hong Kong nos últimos meses, nada garante que desarmem pela persuasão das palavras. Talvez então, nessa luta entre um gigante e um anão que se adivinha, o Ocidente democrático tenha a coragem de dizer que a razão está do lado da democracia. Mas será tarde de mais.