Número de mortos em protestos no Iraque sobe para 46

O grande ayatollah Ali Al-Sistani responsabilizou o Governo iraquiano pelas mortes nos protestos, que chegaram já a 46, e aconselhou-o a aceitar as exigências dos manifestantes “antes que seja tarde demais”.

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Manifestantes transportam um ferido em Bagdad Alaa al-Marjani/REUTERS

O primeiro-ministro iraquiano Adel Abdul Mahdi foi repreendido pelo grande ayatollah Ali Al-Sistani, uma das maiores autoridades do islão xiita, pela forma como está a lidar com os protestos populares em várias cidades contra a corrupção, o desemprego e a falta de serviços públicos. A polícia está a disparar contra os manifestantes, e há pelo menos 46 mortos, segundo a Reuters após vários dias de manifestações. O Governo deve aceitar as exigências dos manifestantes, avisou Sistani, “antes que seja tarde demais”.

“É de lamentar ter havido tantas mortes, feridos e destruição”, disse Al-Sistani numa carta lida por terceiros num sermão em Kerbala, uma cidade santa para os xiitas, tal como Meca, onde se vai realizar a 19 de Outubro a peregrinação xiita que nos últimos anos teve mais de 20 milhões de participantes. “O Governo e os políticos não têm dado resposta às exigências do povo para se combater a corrupção”, continuou. “O Parlamento detém a maior parte da responsabilidade pelo que está a acontecer”.

Os protestos foram convocados espontaneamente nas redes sociais, começaram na terça-feira e foram motivados pela corrupção, desemprego (25% jovem e 8% no geral) e falta de serviços públicos básicos, como água e electricidade. Estes protestos repetem-se ciclicamente: em 2018, as pessoas saíram à rua pelas mesmas razões, em Basra, com milícias a reprimirem-nos, causando a morte a 30 pessoas, e em 2016 e 2012/13 registaram-se outras vagas de protestos. A derrota do Daesh, em 2017, inaugurou o que se pensava ser um novo período de estabilidade e prosperidade para os iraquianos, mas as expectativas não foram correspondidas. 

“Todos os iraquianos sabem que o país possui uma vasta riqueza petrolífera e que traz 6,5 mil milhões por mês, mas vivem com um desemprego elevado, falta de electricidade, corrupção e sistemas de saúde e educação de fraca qualidade”, escreveu o jornalista Patrick Cockburn no Independent. “Sabem que funcionários do Governo fizeram grandes fortunas através de projectos que nunca foram concluídos e, muitas vezes, nem começaram”.

As forças de segurança reagiram na terça-feira disparando gás lacrimogéneo e balas reais na Praça Tahrir, no centro da capital iraquiana, e foi o necessário para que os protestos se espalhassem a muitas outras cidades – Kut, Hilla, Samawa, Kirkuk, Tikrit, Diyala, Nassíria, Diwaniyah e Basra. Não se sabe o que levou o primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul Mahdi, a ordenar a repressão, mas, diz Cockburn, especula-se nas ruas da capital que o chefe do Governo estará “a ser aconselhado por falcões militares com pouca noção dos mecanismos da política iraquiana”.

Como o acesso a armas de fogo é fácil no país, os manifestantes não se deixaram reprimir quando as autoridades dispararam balas reais. Retribuíram fogo e o número de vítimas mortais não tem parado de subir, em escaramuças aqui e ali. Morreram 18 pessoas em Nassíria, 16 em Bagdad, quatro em Amara e outras quatro em Baquba, com as restantes a serem registadas em Hilla e Naja, diz a Reuters. Os feridos ultrapassavam na quinta-feira os 800 e tudo indica que esta sexta-feira já serão mais de mil.

A violência já levou o Kuwait, o Bahrein, o Qatar e o Irão a aconselharem os seus cidadãos a evitar viajar para o país, com as autoridades iranianas a terem ainda encerrado as passagens fronteiriças em Khosravi e Chazabeh. É que se está a aproximar a peregrinação xiita de Arbaeen, em Kerbala.

A raiva dos manifestantes foi até agora dirigida contra o Governo e a acção dos protestos não se regeram por divisões étnico-religiosas, ao contrário dos protestos de 2012/2013 e de 2016. Mas há quem o tema e a intervenção de Al-Sistani, que se junta à do líder religioso xiita Moqtada al-Sadr, vencedor das eleições de 2018 e que pediu uma investigação às mortes e apelou à “greve geral” contra o Governo, reforçam esses receios. Se tal vier a acontecer, o Iraque pode porventura entrar em mais um período de conflito permanente.

Os protestos carecem de liderança formal e essa característica dificulta um eventual diálogo com o Governo. Contudo, Mahdi não deu qualquer sinal de querer dialogar com os manifestantes e tem levado a cabo uma dupla estratégia: por um lado, reprime os protestos, impõe o recolher obrigatório e limita o acesso à internet e, por outro, diz compreender os manifestantes e promete reformas vagas. Uma estratégia que apenas está a exacerbar os ânimos e a violência nas ruas.

Promessa de reformas

Disparavam-se balas reais contra os manifestantes quando o primeiro-ministro se dirigiu, num anúncio pela televisão, esta quinta-feira, aos iraquianos para dizer que compreendia a frustração que sentiam, mas que não há “soluções mágicas” para os problemas do país. Depois, pediu apoio aos deputados para se remodelar o executivo e prometeu reformas, sendo uma delas a introdução de um rendimento básico para os mais pobres na sociedade iraquiana.

Mas as suas palavras não tiveram grande impacto. Mahdi está profundamente desacreditado entre os manifestantes e os protestos são a maior crise que enfrenta desde que chegou ao poder, há um ano. “As promessas de Adel Abdul Mahdi são para enganar o povo e hoje estão a disparar balas reais contra nós”, disse à Reuters um jovem manifestante que fugiu de balas reais na Praça Tahrir de Bagdad. “A manifestação de hoje foi pacífica. [As forças de segurança] Montaram barricadas e há um sniper sentado ali desde a noite passada”.

No que à capital diz respeito, Mahdi ordenou o isolamento total da cidade e a dispersão dos manifestantes da Praça Tahrir. Porém, ao fazê-lo, apenas fragmentou os protestos, obrigando as forças de segurança a um desdobramento significativo e a terem de lidar com barricadas e pneus a arder. “Os manifestantes estão agora dispersos pelas ruas vizinhas e batalhas estão a decorrer”, disse Imran Kahn, correspondente da Al-Jazira em Bagdad.

A capital, onde mais de sete milhões de pessoas vivem, não poderá continuar isolada indefinidamente e o Governo terá de dar verdadeiros passos na aproximação aos manifestantes sob risco de Mahdi se ver obrigado a apresentar a demissão. “A não ser que o primeiro-ministro consiga controlar a crise nos próximos dias, a sua administração pode começar a implodir”, escreveu Cockburn.

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