Opinião

Freitas do Amaral - Lições de vida

Antes de apresentar o meu projecto de lei de bases da habitação, perguntei-lhe se o queria ver. Respondeu-me de imediato que o faria com o maior gosto e interesse, porque sempre tinha considerado a habitação um pilar essencial do Estado Social de direito em que acreditava.

Diogo Freitas do Amaral, o último dos quatro fundadores da democracia portuguesa, deixa um enorme legado político, académico e humano. Várias gerações aprenderam verdadeiras lições de vida com o seu rigor e sabedoria e, sobretudo, a sua inatacável decência pessoal.

Vivi momentos muito difíceis a seu lado, em especial o trágico dia das mortes de Sá Carneiro e Amaro da Costa, de que tivemos conhecimento ao mesmo tempo, no seu gabinete. Outros houve em que não o acompanhei. Foi o caso da campanha presidencial de 1986, em que apoiei Mário Soares. Nunca me guardou azedume.

Enquanto fui vereadora da habitação em Lisboa, recorri várias vezes ao seu saber para deslindar embrulhadas jurídicas em que se encontravam alguns bairros de habitação municipal. Beneficiámos todos do seu conselho, a começar pelos moradores, cujos direitos ele sempre defendeu.

Antes de apresentar o meu projecto de lei de bases da habitação, perguntei-lhe se o queria ver. Respondeu-me de imediato que o faria com o maior gosto e interesse, porque sempre tinha considerado a habitação um pilar essencial do Estado Social de direito em que acreditava. Deu-me mais uma vez conselhos preciosos. A última vez que falámos ao telefone foi para me congratular pela aprovação da lei no Parlamento. A ele também se deve essa lei.

Pessoas que pautam a sua vida por convicções profundas e são capazes de acompanhar mudanças difíceis com tamanha honestidade e rectidão são raras nos nossos dias, em especial na vida política. A sua morte não é apenas uma terrível perda para a família e os amigos. Diogo Freitas do Amaral é um dos poucos que merece o luto nacional com que Portugal registará a sua partida. As suas lições de vida não foram em vão.

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