Pedro Fazeres
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Pedro Fazeres
O Doutor Explica as Legislativas

Sondagens: como devo pensar hoje?

Sei de fonte segura que, caso o PS caia mais um ponto percentual nas sondagens, fica sem deputados suficientes para alimentarem as respectivas famílias. O CDS é o Dr. Mufasa da campanha eleitoral, que caiu quando o Dr. Scar lhe largou a pata.

Deus não pode intervir em democracia porque o voto é secreto e ofereceu às pessoas o livre-arbítrio, dando-lhes a liberdade para fazerem escolhas estúpidas, como votar na esquerda, irem para cursos de teatro ou colocarem o Dr. David Carreira nos tops de música. Mas reservou para Si o direito de fazer campanha pela oposição quando não concorda com os governos, enviando catástrofes naturais ou revelando escândalos políticos no timing certo. Se o PSD está a diminuir o fosso para o PS não se deve ao vigor e carisma do Dr. Rui Rio que, numa escala de 0 a Dr. Cavaco, consegue ter uma pontuação ainda pior que o Dr. Fernando Nogueira. Quem? Pois, era esse mesmo o meu ponto de vista. Não quero com isto dizer que é mau, até porque a maior vitória do Dr. Rui Rio, nesta campanha eleitoral, foi fazer entender os cidadãos que, dentro do seu fato, existe um ser humano, o que até aqui nunca havia acontecido. O fosso decresceu, no entanto, devido à família do Dr. D. Carlos César e à resolução do caso de Tancos, dois escândalos revelados por Deus no ano de legislativas.

No que toca a catástrofes naturais, ainda não tivemos nenhuma. Se tivéssemos seria muito triste para o povo português. No entanto, em política não podemos perder tempo a chorar, devemos aproveitar o tempo para fazer o bem. E fazer o bem é instrumentalizar uma catástrofe, aproveitando-a como oportunidade para chegar ao poder e, depois, fazer o bem. Não são aqueles que choram que governam. Os que instrumentalizam é que têm condições de o fazer.

Só no Governo é que podemos chorar pelos portugueses, nunca na oposição. Devemos usá-los para que o seu sofrimento não seja em vão. Por exemplo, aquando dos incêndios de Pedrógão de 2017, tentámos imputar todas as responsabilidades ao Governo e dizer que foi o Dr. António Costa o principal incendiário do país. Pode não ser totalmente verdade, mas cabe-nos a nós tentarmos. O melhor que poderia acontecer ao Dr. Rui Rio era arder uma localidade pouco importante de Portugal, por exemplo Ferreira do Zêzere. Era uma tragédia, mas podia aproximar a direita do poder. No espírito do saudoso Dr. Pedro Passos Coelho, mais vale vivermos com menos portugueses e um bom governo (de direita, leia-se) do que com todos os portugueses e ter socialistas no poder.

A melhor forma de medir a intervenção de Deus em campanha ocorre na fé que se coloca em sondagens. Na última sondagem do PÚBLICO, o PS fica cada vez mais longe da maioria absoluta, o PSD e o PAN subiram, o BE mantém a anterior, o CDS e o PCP seguem o ciclo natural da vida, que é morrer, e podem entrar na Assembleia da República dois novos partidos, o Livre e a Iniciativa Liberal. Sei de fonte segura que, caso o PS caia mais um ponto percentual nas sondagens, fica sem deputados suficientes para alimentarem as respectivas famílias. O CDS é o Dr. Mufasa da campanha eleitoral, que caiu quando o Dr. Scar lhe largou a pata. Nesta analogia, o Dr. Scar é o PSD, não porque seja mau mas porque carrega uma cicatriz que não sarou desde a saída do Dr. Pedro Passos Coelho, e o largar de pata é o fim da coligação PàF. Dizer que o PCP está a decrescer parece-me uma falácia porque, por um lado, contra todas as métricas do mundo racional, continua a existir, e, por outro lado, são os que conseguem melhores resultados do que nas sondagens, uma vez que os seus eleitores não atendem números desconhecidos e quando vêem pessoas a abordá-los na rua pensam que é o grande capital que os vai tomar de assalto.

Quanto aos partidos novos, tenho de dar-lhes os parabéns. O Livre teve uma ideia extremamente original que mais nenhum partido tinha tido até hoje, que foi apresentar como cabeça-de-lista uma candidata afrodescendente. Nem sei como se conseguiram lembrar de algo tão original e fora da caixa. A gaguez da Dra. Joacine Katar Moreira foi objecto de alguma suspeita entre comentadores nas redes sociais, que insinuaram que ela anda a fingir gaguez para conquistar votos. Faz sentido. Toda a gente sabe que a gaguez é uma qualidade muito valorizada pelos eleitores. O filme O Discurso do Rei conta precisamente a história de um Rei de Inglaterra que teve sucesso precisamente por ser gago. Não vi o filme, mas acho que era isso. A Iniciativa Liberal também merece o seu deputado de consolação. Fizeram muitos cartazes engraçados e as eleições também são uma espécie de concurso de artes visuais. Captam o voto do eleitor que até pode não saber bem o que eles pensam, mas quer ter um desenho para colar no frigorífico. Além disso, colocaram o Dr. Fernando Pessoa a fazer campanha por eles num cartaz. Faz sentido, o meu poema preferido do Dr. Fernando Pessoa é aquele em que ele fala de uma taxa fixa de IRS. Quanto às ideias, são um PSD, mas com a mania de que são anti-sistema. Também os anexarei quando chegar à liderança do PSD.

As sondagens, tirando as eleições presidenciais americanas e o “Brexit”, funcionam na perfeição, não necessariamente porque funcionam, mas porque orientam o eleitor no sentido de voto. O eleitor, segundo algumas sondagens recentes, é profundamente estúpido e precisa de sondagens para saber em quem votar. As pessoas usam as sondagens como se estivessem a jogar no Placard, apostam nos cavalos vencedores e esperam tirar dividendos individuais dessa aposta. Não tiram, mas pensam que sim, e isso é o mais importante. Há pessoas que gostam de estar do lado dos vencedores, uma vez que elas próprias não são vencedoras. É por isso que gostam de sair à rua para celebrar vitórias, agitando bandeiras e usando autocolantes na testa. É da única forma que sentem que fizeram parte da vitória. Não fizeram, mas dão boas entrevistas nas noites eleitorais. É a beleza da democracia, quando se cria uma ilusão de felicidade e as pessoas sentem que contribuíram genuinamente para que tal acontecesse.

Já os políticos têm um guião para reagir a sondagens. Quem está atrás, desvaloriza as sondagens e diz frases como “a minha verdadeira sondagem é isto, a rua, as pessoas”, enquanto come um pedaço de broa junto a pessoas genéricas. Já quem está à frente também desvaloriza, com uma espécie de humildade gabarolas, dizendo frases como “é bom ver que as pessoas estão a valorizar o nosso trabalho, mas estes valores não nos permitem descansar. Há que trabalhar mais e não descansar à sombra das sondagens.”

Mas esta desvalorização é só aparente. Com sondagens, um político não precisa de ter uma opinião. Se disser uma coisa e subir nas sondagens, continua a dizer essa coisa. Se não subir, abandona-a. É complicado ter princípios em política e as sondagens ajudam os políticos a moldarem os seus princípio em função do que as pessoas pensam, tal como os humoristas vão criando os seus números em função das gargalhadas que recebem do público. O político do século XXI é um pedaço de plasticina que vai sendo esculpido em função das opiniões mais populares. Ter princípios é demasiado perigoso, porque esses princípios podem, eventualmente, passar de moda e deixar de dar votos. As sondagens são a única forma de sabermos que princípios estão na moda. E ninguém sabe melhor que princípios estão na moda do que pessoas que atendem o telefone fixo para responder a sondagens.

As sondagens são também excelentes para jornalistas. Em vez de estarem a discutir ideias, passam a discutir estatística. Como sabemos, as pessoas estão cada vez mais afastadas da política e a estatística pode trazê-las de volta. É como transformar uma eleição numa corrida de desporto atletismo. É mais fácil ir buscar vocabulário emprestado ao jornalismo desportivo e falar de vencedores e perdedores do que de ideias, medidas ou ideologia. Até porque, como sabemos, é uma perda de tempo falar sobre as ideias que os políticos apresentam durante a campanha, já que, se chegarem ao poder, vão ter de as mudar.