Morreu o alfarrabista centenário da livraria O Mundo do Livro

Aos cem anos, cumpridos a 8 de Abril, João Rodrigues Pires ainda trabalhava diariamente na sua livraria do Largo da Trindade. Morreu na madrugada de quarta-feira.

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Miguel Manso

O livreiro centenário João Rodrigues Pires, proprietário da livraria O Mundo do Livro, que funciona desde 1946 no Largo da Trindade, em Lisboa, junto à Rua da Misericórdia, morreu às primeiras horas da madrugada de quarta-feira, tendo sido sepultado esta manhã no cemitério de Oeiras.

A notícia foi avançada pelo Fórum Cidadania de Lisboa, que lembra a condecoração que o Presidente da República atribuiu ao livreiro no início de Abril e lamenta que a Câmara de Lisboa nunca lhe tenha outorgado a “mais do que merecida” medalha de Mérito Cultural.

Nascido em Santo Amaro de Oeiras, João Pires começou a trabalhar com livros aos 18 anos, na Livraria Lourenço de Melo, que então funcionava na Rua Garrett; passou depois pela Bertrand e pela Sá da Costa, e ainda voltou a trabalhar com o seu primeiro patrão, entretanto instalado na Livraria Ecléctica, na Calçada do Combro, antes de se estabelecer por conta própria, em 1941, num vão-de-escada da Rua Nova da Trindade, no prédio da Academia dos Amadores de Música.

Em 1946 mudou-se para o prédio do Largo da Trindade, onde ainda hoje funciona O Mundo do Livro, que integra o Círculo das Lojas de Carácter e Tradição de Lisboa, e cujo nome evoca a antiga designação da Rua da Misericórdia, ali ao pé, que a República, em 1910, numa homenagem ao jornal republicano O Mundo, rebaptizara Rua do Mundo, despejando o seu primeiro patrono, S. Roque.

Para financiar as obras da sobreloja, que estava em ruínas, obteve um empréstimo do banqueiro Miguel Quina, genro do fundador do Banco Borges & Irmão, que era seu cliente e que lhe ficou a dever algumas horas de interrogatório na Polícia Judiciária. O próprio livreiro conta o episódio numa entrevista ao site Lisboa Secreta, explicando que serviu de intermediário na venda daquele que é considerado o primeiro livro impresso em Portugal em língua portuguesa, o Tratado de Confissom, de 1489, pelo qual Miguel Quina desembolsou na época 400 contos (dois mil euros). A PJ soube do negócio e tentou em vão obter do livreiro o nome do comprador, tendo-o submetido a um interrogatório de dez horas, do qual só foi libertado quando o banqueiro, informado da situação, telefonou a assumir a aquisição.

O alfarrabista publicou em 1951 o seu primeiro Catálogo de Livros Seleccionados, que tinha prefácio de Aquilino Ribeiro, frequentador assíduo do estabelecimento do Largo da Trindade, que em 1962 foi decorado com um mural de António Domingues no qual se podem ver alguns versos de elogio aos livros escritos pelo poeta brasileiro Castro Alves.

A par da venda de livros, e também de gravuras antigas e mapas, a livraria O Mundo do Livro notabilizou-se ainda nos anos 50 e 60 pelo lançamento de uma série de edições fac-similadas de livros raros, a começar, em 1958, pela publicação das Satyras de Sá de Miranda, num volume que reproduzia a edição portuense de 1626, cujo único exemplar conhecido, hoje na Biblioteca Nacional, foi uma das preciosidades que passaram pelas mãos do livreiro.

Geralmente destinadas a ofertas natalícias aos cliente da livraria, muitas dessas edições, de autores portugueses como Bernardim Ribeiro, Gil Vicente, António Ribeiro, dito O Chiado, ou D. Francisco Manuel de Melo, mas também de Bocaccio ou Pico della Mirandola, para não alongar exemplos, faziam-se acompanhar de estudos introdutórios de especialistas tão prestigiados como José Vitorino de Pina Martins, Maria de Lurdes Belchior ou a italiana Luciana Stegagno Picchio, numa clara confirmação do prestígio de que João Pires gozava nos meios culturais e académicos.

O seu trabalho de divulgação de obras clássicas da literatura italiana valeu-lhe mesmo a sua primeira condecoração: a Ordem de Mérito da República Italiana, que lhe foi conferida em 1965 pelo presidente Giuseppe Saragat e pelo malogrado primeiro-ministro Aldo Moro. A correspondente homenagem do seu país veio a ser-lhe atribuída no dia 5 de Abril deste ano, a três dias de se tornar centenário, quando recebeu de Marcelo Rebelo de Sousa a Ordem do Mérito, com o grau de comendador, cujas insígnias o Presidente da República lhe impôs durante uma visita à livraria O Mundo do Livro, onde João Rodrigues Pires continuava a atender diariamente a clientela, como fazia, em sucessivos estabelecimentos, há mais de 80 anos.