Crítica

Descrição de uma rua

Numa cidade cada vez mais gourmet, uma avenida que resiste: a Almirante Reis.

Foto
Recomppr aspectos da história da Almirante Reis, fazer-lhe um mapa...

E eis que numa Lisboa em acelerada mutação (que tem implicado, como todos sabemos, uma forma de rasura, em vários sentidos) as suas ruas se podem transformar num assunto quase “arqueológico”. É a proposta de Renata Sancho para a avenida que dá título ao seu filme: recompor aspectos da sua história, fazer-lhe um mapa, varrer-lhe o espaço. Isto — um movimento a “varrer” — acontece literalmente, através duma preciosidade de arquivo integrada no filme, imagens a cores captadas num travelling de automóvel que desce a avenida na direcção do Martim Moniz, filmadas no princípio dos anos 70 (os grandes cartazes que anunciam os filmes no Império permitem datá-las como sendo de um época já relativamente próxima do 25 de Abril de 74, e de resto não será a única vez que o cinema, e em particular a memória do velho Império, desempenhará um papel no filme). Associa-se, a partir da história do Almirante Reis que lhe dá nome (figura trágica da implantação da República), a avenida a uma vocação “revolucionária” — e aparecem, também, as imagens das grandes manifestações do 1º de Maio de 1974, imagens “parentes” das do célebre As Armas e o Povo (vêm-se várias figuras reconhecíveis, e mesmo Fernando Lopes, em plena rodagem, empoleirado no tejadilho dum automóvel), e de novo o Império, orgulhosamente ostentando o gigantesco cartaz do Couraçado Potemkin que Cunha Telles se apressou a estrear nos dias a seguir à revolução.