Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

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No estrangeiro não se pode votar

O envelope de resposta não cola como deve ser. Depois de dobrado e vincado, rapidamente começa a abrir por cima. Entretanto já estávamos no posto dos correios e com hora marcada com uns amigos, pelo que enchemos o peito de esperança e colocámos os boletins na caixa de correio. Dois dias depois, os boletins chegaram a casa. Devolvidos e sem explicação.

Não sei se é pedir muito. Já basta a distância. Já nos chega a distância. Mas ao menos deixem-nos votar! Não. Não é pedir muito.

Primeiro foi o voto postal. Recebemo-lo em casa há duas semanas! Finalmente, 12 anos e três legislativas depois, o tão ansiado voto, a voz, o respeito por quem deixou tudo para trás, não por querer, não quisemos, não temos culpa, tivemos de nos ir embora. Mas não deixámos de lutar pelo direito a uma cruz neste pequeno papel. Por uma questão de respeito. Por uma questão de princípio. Por Abril.

No entanto, não nos enganemos. Não obstante o tão precioso voto postal agora nas mãos, o desafio para poder votar acabara de começar. Desde logo pelo exercício de origami para dobrar o boletim de voto, de modo a que o mesmo caiba dentro do subscrito verde e, por sua vez, no envelope de resposta, o qual já tem a franquia paga. Não cabe. Não cabe mesmo se dobrado de acordo com as instruções. Talvez coubesse se ao mesmo não tivéssemos de acrescentar uma fotocópia do cartão de cidadão, assim acrescentando um volume dramático a um envelope já de si demasiado limitado. Um exercício de física pura onde as regras regentes do universo têm de ser forçosamente contornadas.

Espera lá? Pára tudo. Uma fotocópia do cartão de cidadão? Então e o anonimato do voto? Vale a pena discutir? Vale, mas noutro texto. Para já, só queremos votar. Já o disse, esperámos 12 anos, não queremos esperar mais. 

O envelope de resposta não cola como deve ser. Depois de dobrado e vincado, rapidamente começa a abrir por cima. Entretanto já estávamos no posto dos correios e com hora marcada com uns amigos, pelo que enchemos o peito de esperança e colocámos os boletins na caixa de correio. Dois dias depois, os boletins chegaram a casa. Devolvidos e sem explicação. Bem, a explicação existe para quem vive em Inglaterra, um país incapaz de compreender outra língua para além da sua e onde o envelope de resposta vem escrito em português, em francês, mas nem por isso em inglês.

Muito bem, como só temos tempo para ir aos correios ao fim-de-semana, passa mais uma semana e as eleições à porta. Chegados aos correios, a senhora começa logo por nos contar sobre o número de envelopes como aquele recentemente devolvidos. A franquia paga? É só para o território português. Se quisermos enviar o voto postal, temos de pagar uma libra e sessenta cêntimos. De modo que pagámos uma libra e sessenta cêntimos por cada voto postal e fomos para casa a rir. Mais uma história para contar.

A verdade é que nada disto tem piada. Sejamos claros, fora de Portugal estão recenseados mais de um milhão e quatrocentos mil eleitores. Os votos postais são enviados com aviso de recepção. Se não estivermos em casa, temos de ir ao posto dos correios. Aqui, onde moramos, havia mais de 100 votos postais por levantar. Levantámos o nosso. Depois há que saber dobrar o voto de acordo com as instruções. E, no fim, enviar o mesmo, sem saber que, dois dias depois, será devolvido. Resultado, muitos não se darão ao trabalho de tentar perceber porquê, sendo o destino dos votos o inevitável balde do lixo. Ainda para mais quando para se poder votar ainda temos de pagar a franquia em falta. Isto não é democracia. É um exercício astuto de burocracia cujo único fim consiste em demover quem vive tão longe e lá fora de votar. 

Os nossos votos estão agora a caminho do Ministério da Administração Interna no Terreiro do Paço. Ou assim queremos acreditar. De caminho ainda colocámos a hipótese de votar presencialmente na embaixada. Só com marcação. Estivemos ao telefone à espera 42 minutos e no fim cortaram-nos a chamada. Como o sistema de marcação online não funciona, não tivemos outra opção: enchemos outra vez o peito de esperança. Será desta? Só saberemos se daqui a dois dias não encontrarmos os envelopes de volta ao chão desta casa ao fim de mais um dia de trabalho.

P.S. No dia 1 de Outubro, exactamente dois dias depois, ali estavam os malditos no chão de casa à nossa espera, devolvidos mais uma vez e mais uma vez sem explicação. Não vale a pena reenviar sob pena de já não chegarem a tempo. Desta feita, vamos colocar os votos postais num envelope normal, pago com o nosso próprio dinheiro e endereçado ao Ministério da Administração Interna. Como não seguem de acordo com os procedimentos, o mais provável é serem anulados. Isso ou, como mais ninguém conseguiu enviar o voto postal, o nosso candidato tem a vitória garantida. 

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