A noite dos “miúdos”: um dominou os 200 metros, outro brilhou na vara

Nenhuma das provas de maior cartaz desiludiu em Doha: a velocidade foi emocionante, com um final trágico para Gemili, e o salto com vara assistiu à confirmação do talento de Duplantis.

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110 metros obstáculos
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Falou-se da possibilidade de haver uma aproximação ao recorde do mundo nos 200 metros - ou de, pelo menos, haver nova organização nos três mais rápidos de sempre -, mas Noah Lyles foi apenas “normal”, nesta terça-feira, nos Mundiais de atletismo, em Doha. O jovem de 22 anos venceu o ouro, gritou e bateu no peito, mas os 19,83s não permitem que chegue ao pódio dos mais rápidos de sempre (continuam a ser Usain Bolt, Yohann Blake e Michael Johnson).

Numa grande corrida, Adam Gemili partiu em modo “flecha” e entrou nos últimos 100 metros na frente da prova. O problema é que o “comboio” Lyles já vinha lançado e passou por Gemili. DeGrasse também passou por Gemili. Até Quiñónez passou por Gemili. Por pouco, mas passou. E o inglês, de “mão no ouro”, saiu de mão no bolso, sem medalha, numa noite para mais tarde não recordar.

“Estou destruído. Atirei todo o trabalho e o meu momento de boa forma pela janela fora. Corri como um amador”, lamentou-se o britânico, em declarações à BBC Sport. Um estado de espírito que contrastou em absoluto com o de Noah Lyles. “Tem sido uma longa temporada, mas ainda aqui estou e estou a divertir-me. E ainda tenho muitos objectivos para atingir”, resumiu o vencedor.

“Miúdo” fez tremer campeão

No concurso do salto com vara, antes de um dos ensaios, o campeão Sam Kendricks colocou a língua de fora, como um lagarto à caça. Mostrou ao que vinha e não desiludiu: “caçou” mesmo e repetiu o título que alcançara em 2017.

A qualificação já tinha sido dramática, para quem assistiu, e traumática, para alguns dos que nela participaram. Foram, sobretudo, os casos do recordista mundial Renaud Lavillenie e de Wojciechowski, que falharam a presença numa final recheada de emoção. Por um lado, com a decisão das medalhas entre os três atletas que, em 2019, foram capazes de superar os seis metros, esperava-se um duelo dessa estirpe nos Mundiais, algo que não se verificou - nenhum deles ultrapassou essa marca. Por outro lado, apesar da fasquia mais baixa, o concurso não desiludiu na emoção e nas reviravoltas.

Com nenhuma outra prova a acontecer na relva ou na pista, todo o estádio esteve de olho no início do concurso da vara. Kendricks, o polaco Lisek e o “menino” sueco Armand Duplantis, de 19 anos, subiram até aos 5,80m e ficaram quase meia hora a ver os adversários desperdiçarem tentativas e caírem, um a um. Tudo normal, portanto, com os três favoritos a discutirem qual a medalha que cada um levaria para casa.

Os 5,87m fizeram soar alarmes, com Lisek e Duplantis a passarem mais facilmente do que o campeão, que só vingou na terceira e última tentativa. Aos 5,92m, começou o jogo táctico: Kendricks passou, mas Lisek falhou o primeiro ensaio e dispensou o segundo, levando dois saltos livres para os 5,97m. Já Duplantis preferiu apostar tudo nos 5,92m e a aposta valeu o risco: passou, dramaticamente, à terceira tentativa e festejou “à Ronaldo”. “Calma, está tudo controlado”, pareceu querer dizer o sueco ao considerável leque de compatriotas presentes em Doha.

Os 5,97m trouxeram mais emoção, com Duplantis a passar à terceira tentativa, depois de ainda tocar na fasquia na fase descendente do salto. A barra tremeu, mas ficou no sítio. Todos cumprimentaram o “menino” com a amabilidade clássica de quem via um miúdo superar os graúdos e colocar pressão em Kendricks.

Já sem Lisek em prova, os 6,02m foram demasiado para Duplantis, que falhou todos os ensaios e deu a Kendricks - com menos falhas nas alturas anteriores - o título mundial. E foi pena ver um concurso destes ser decidido com o campeão a não precisar de saltar. 

Uma prova com traços épicos, da qual Lisek sai com a honra de uma das melhores marcas de um bronze, Duplantis (que se prepara, aos 19 anos, para ser um dominador do salto com vara) com a consolação da melhor prata de sempre e Kendricks como o primeiro, desde Serguei Bubka, a fazer o “bis”. Todos com motivos para festejar e fizeram-no a preceito, com um mortal à retaguarda bem coordenado.

Nigate superou duas quedas

O herói do dia acabou por ser o atleta etíope Takele Nigate, que caiu duas vezes nas eliminatórias dos 3000 metros obstáculos. 

Começou por cair no meio do pelotão e, poucos segundos depois, antes do salto na vala de água, tropeçou e, numa queda bizarra, foi dar com a cara na barreira. Agarrado ao pescoço, levantou-se, continuou a corrida até ao fim e não terminou no último lugar.

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