Amamentação, recuperação e sexualidade pós-parto entre os temas que as mulheres acusam como tabu

O tema da sexualidade continua, segundo a maioria das inquiridas, a ser pouco abordado pelos profissionais de saúde.

A relação conjugal está entre as maiores preocupações da grávida
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A relação conjugal está entre as maiores preocupações da grávida Kelly Sikkema/Unsplash

Os profissionais de saúde continuam a ser a fonte de informação em que as grávidas e puérperas mais confiam (82% consideram a opinião dos médicos “muito importante” e 83% consideram a opinião dos farmacêuticos “importante” ou “muito importante”), segundo o Estudo Preocupações, Mitos e Tabus da Gravidez e do Pós-parto, realizado pela Universidade Católica. No entanto, muitas indicam haver temas em que continua a existir muita falta de informação e acompanhamento, dando origem por vezes a mitos. Entre estes, as inquiridas destacaram a amamentação, a recuperação pós-parto e a relação conjugal, nomeadamente no que à sexualidade diz respeito.

O estudo, apresentado esta semana, teve por objectivo “compreender melhor as questões de grávidas e puérperas num contexto em que o ambiente digital potencia a existência de uma sobrecarga de informação”. Porém, de referir que esses mesmos fóruns digitais são as fontes de informação que obtiveram menor grau de credibilidade (apenas 29% os consideraram “importantes” ou “muito importantes”).

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Entre as maiores preocupações surgiram a saúde do bebé (84%), a recuperação pós-parto (54%), o parto (51%) e a amamentação (48%). No entanto, o mesmo estudo conclui que há outras preocupações que criam ansiedade, com a concordância de mais de metade da amostra: não ter tempo para cuidar do corpo e da imagem (63%), sentir-se triste com as alterações no corpo (51%), ter momentos de desespero achando que não seria capaz de tratar do bebé (60%), alterações do humor (82%), dificuldade em descansar e dormir as horas necessárias (81%), sentir pressão social, por exemplo, para amamentar (51%), sentir que os familiares e amigos queriam ajudar, mas ainda complicavam mais (60%).

Ainda assim, e apesar dos receios, para quem já tinha passado pela experiência (439 em 663) a afirmação de que o parto foi uma experiência positiva recebeu a concordância de 60%, com 82% a destacar o apoio dos profissionais de saúde. Cerca de 71% das inquiridas consideraram também que, por mais que tivessem lido e procurado informação sobre o parto, não estavam preparadas para uma experiência tão intensa.

Sobre o acompanhamento médico, várias participantes referiram a necessidade de apoio psicológico no pós-parto, defendendo a existência de equipas multidisciplinares nos hospitais e maternidades, que incluíssem, além de obstetra e pediatra, sexólogo, nutricionista e psicólogo. Paralelamente, muitas referiram o regresso ao trabalho como um grande foco de ansiedade, pelo facto de ser muito rápido, passando a ideia de que a legislação deveria ser repensada no sentido de tornar aquele regresso mais gradual.

Num inquérito feito a mulheres, os homens não ficaram de fora, com as inquiridas a expressarem a pressão que recai sobre si quando alguém diz que “o pai ajuda”, ideia que pode abrir caminho para que a obrigação de cuidar do bebé seja apenas da mãe.

“A tristeza é o melhor antidepressivo do mundo”

Para o psicólogo Eduardo Sá, o papel do pai ainda não é tão relevante quanto seria desejável. “O pai é tratado de uma forma insuportavelmente paternalista”, considerou, numa sessão de comentários ao estudo apresentado e que, moderado pela jornalista Isabel Stilwell, contou ainda com as participações da ginecologista/obstetra Sílvia Roque e da consultora de lactação Cristina Leite Pincho. Uma opinião pouco partilhada por Sílvia Roque que destaca o facto de hoje haver mais pais envolvidos em todo o processo e presentes desde o início até ao fim.

A obstetra, porém, salienta que a maioria das grávidas chega a uma primeira consulta “num estado de desgraça”, influenciadas por todas as histórias negativas que são obrigadas a ouvir a partir do momento que anunciam a gravidez. Por isso, aconselha a que grávidas e puérperas confiem nos médicos e que aprendam a filtrar a informação. No entanto, reforça a ideia de que é importante “manter uma visão aberta sobre o parto”. “Não faz mal desejar” que seja de uma determinada maneira, “mas é importante não criar falsas expectativas” porque, no fim, “é o que tiver de ser”, dando prioridade ao bem-estar da mãe e do bebé.

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Luiza Braun/Unsplash

As expectativas também são apontadas como uma das razões da tristeza, em que os especialistas referem a importância de separar os conceitos de baby blues (tristeza pós-parto) e depressão. Aliás, Eduardo Sá vai mais longe e afirma mesmo que “a tristeza é o melhor antidepressivo do mundo”, referindo a importância de se dar espaço à recém-mãe de estar triste e chorar à vontade, contrariando a ideia da “maternidade cor-de-rosa”.

O Estudo Preocupações, Mitos e Tabus da Gravidez e do Pós-parto, realizado pela Universidade Católica a pedido da marca Barral, no âmbito do lançamento de novos produtos para grávidas, que dá origem a uma nova gama (MotherProtect), envolveu dois distintos métodos: um quantitativo, com um questionário online realizado a uma amostra de 663 mulheres grávidas e puérperas, a residir em Portugal, com uma idade média de 34 anos; e outro qualitativo, com uma dinâmica de grupo que reuniu 18 grávidas e puérperas da região de Lisboa, com uma média de idade de 33 anos.