Opinião

A guerra à geração floco de neve

As bolhas de ódio e toxicidade na internet aumentam. Quantas mais vozes clamam por mudança, mais ondas de reactividade se revelam.

Deixemo-nos de preliminares. Decorre uma guerra. Para uns o mundo está doente e necessita de intervenção médica. Para outros está tudo bem e com um comprimido a coisa vai ao lugar. O alerta surgiu com a crise económica de 2008 e ganhou expressão nos anos seguintes, quando fomos surpreendidos por movimentos (do Movimento Occupy nos EUA, aos Indignados de Espanha) que tiveram como embrião a comunicação em rede da internet.

Depois desse arroubo de rebelião a geração milénio silenciou-se por não existir um foco claro para se insurgir – o capitalismo neoliberal é anónimo e camaleónico. O que aconteceu a seguir foi óbvio. Estados poucos democráticos, e redes de interesses financeiros com receio do seu espaço ultraliberal ser posto em causa, reagiram. A internet passou a ser vigiada, com censura, informação controlada e notícias falsas para provocar o caos com a bênção de Trump e, nos últimos tempos, acção bélica de elites e militantes direitistas, na forma de bolhas de ódio e toxicidade.

Nos últimos anos o mal-estar fragmentou-se (ambientalismo, feminismo, LGTBQ, anti-racismo, revisão colonialista, justiça social e desigualdades) sem que estas lutas sejam homogéneas. São atravessadas por muitas visões e lógicas por vezes contraditórias. Mas todas reproduzem uma vontade de mudança. Têm muitas potencialidades. A fragilidade é existirem no interior de um sistema económico e político em crise e de nem sempre ser inteligível para a maior parte as articulações complexas entre todas. Traduzem interesses análogos. Não um projecto comum.

Mas incomodam e de que maneira. Dir-se-á que já existiram excessos e até injustiças. Outra coisa não seria de esperar de um período transformador. Mas a tensão que provocam é sintoma das feridas que estão a tocar, com as forças reactivas a reproduzirem chavões esvaziados como “ideologia de género”, “higienização da linguagem”, “politicamente correcto”, ou “invasão do marxismo cultural”. Reacções que mostram o desejo de perpetuar hierarquias, edificadas no capital ou biologia. Na maior parte das vezes não há argumentos, apenas cinismo e insultos, como se viu esta semana nos ataques dos negacionistas ambientais à adolescente Greta.  

De todas as tentativas de desqualificação nenhuma manifesta melhor o medo da direita populista pela liberdade do que a expressão snowflake (floco de neve), que começou por ser utilizada por apoiantes de Trump, caracterizando supostamente uma geração vulnerável, incapaz da competição. Em subtexto essa ideia de que o floco de neve se derrete e é por isso fraco. É uma visão. Outras existem. Os flocos de neve são também elegantes e flutuantes, com uma gama ampla de variações e em condições estáveis até dançam. E não existe nada que chateie mais uma mente conservadora do que corpos em movimento, ondulantes, representando tanto a disciplina, como a oportunidade de a transcender, oferecendo-se a si próprio, e aos outros, alternativas. Em vez da incapacidade de lidar com a mudança, integrá-la, sem receio de questionar comportamentos, reavaliar a forma como nos contamos hoje a partir do passado ou interrogar o neoliberalismo decadente.

Há quem queira fazer crer que estes movimentos nos têm conduzido às trevas. Talvez valha a pena pensar se as trevas estão nessas dinâmicas, ou na aversão à democracia, na misoginia, no racismo, no autoritarismo, no negacionismo ambiental, no nacionalismo e no ultraliberalismo de Trump, Bolsonaro, Johnson, Putin, Xi Jinping, Orbán ou Salvini, e nos interesses que protegem. E estes são exemplos fáceis. Outros há por aí, cada vez mais alarmados, não percebendo de onde surgem tantos flocos de neve.