Opinião

Da carne de vaca ao nosso ego. Guia para que a nossa consciência ambiental ganhe à nossa paz de consciência

Em Portugal, a bovinicultura, pelas características do seu modelo de exploração, faz mais parte da solução do que do problema

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Enric Vives-Rubio

Desde que a Universidade de Coimbra baniu a carne de vaca das suas cantinas, muito se falou e escreveu em vários locais, muitas vezes sem a robustez e validade científica suficiente. Em boa verdade, esta medida tem mais impacto simbólico do que real. Quem come em cantinas sabe perfeitamente que as raras vezes que existe carne de vaca na ementa, ela não aparece em forma de bife do lombo nem em quantidades muito grandes (por norma está misturada em pratos como rancho, feijoada, empadão, arroz de carne e outras confecções que diminuam a capitação da carne), para controlo de custos. Por isso a maior vantagem desta medida foi ter colocado de novo o assunto na ordem do dia e consciencializar a população de que as nossas escolhas alimentares têm um impacto ambiental significativo.

Por isso, vamos a factos:

              - Segundo o último Inquérito Alimentar Nacional, cada português come em média 117g/dia de carne (valor que sobe para 130g/dia quando analisamos apenas adolescentes e adultos), face a 42g de pescado total;

              - 32,3% dos adolescentes e 25,5% dos adultos portugueses consomem mais do que 100g de carne vermelha por dia, sendo que os homens consomem 3 a 4 vezes mais do que as mulheres (a quantidade máxima de carne vermelha recomendada de modo a “poupar” o planeta seria uma média de 28g/dia);

              - As ementas da Universidade de Coimbra de Setembro de 2019 apenas contemplavam carne de vaca em 10% das refeições;

Por estes dados conseguimos ver que o problema não está no que se come nas cantinas universitárias, mas sim nas casas de cada um de nós e nos sítios que cada um de nós escolhe para comer fora de casa. Por outro lado, há que ter em conta que nem toda a carne de vaca é igual e que a sua origem é um ponto de partida fundamental para perceber se estamos ou não a fazer uma escolha mais ou menos amiga do ambiente. Em Portugal, particularmente na produção extensiva, a bovinicultura pelas características do seu modelo de exploração, faz mais parte da solução do que do problema, sendo que os próprios bovinicultores estão cientes do problema e a tentar encontrar alternativas para que a produção de carne vermelha emita menor quantidade de metano. Como tal é certamente diferente comer carne vermelha de origem portuguesa uma a duas vezes por semana proveniente do talho da minha rua do que ir às tão em voga steakhouses ou rodízios comer um chuletón argentino de 500g ou uma overdose de picanha e maminha brasileira. A este nível, louve-se o exemplo do Instituto Politécnico de Bragança onde a carne de vaca utilizada em todo o complexo de restaurantes é obrigatoriamente, de raça mirandesa de Denominação de Origem Protegida (DOP).

Do ponto de vista nutricional existe aqui um dilema que é: se ter uma boa ingestão de proteína é benéfico na manutenção do peso, controlo do apetite, aumento de força e massa muscular, de que forma é que eu o consigo fazer sem deixar um lastro grande no ambiente?

Em primeiro lugar, tentar reduzir as quantidades de carne e pescado no almoço e jantar. Mesmo apontando para as maiores recomendações existentes para o aporto proteico por refeição (0,4g/kg – o que dá à volta de 30g de proteína para alguém com 80kg), este valor é genericamente atingido com 100 a 125g cozinhadas de carne ou peixe. Lacticínios, ovos e suplementos proteicos podem ajudar a suprir as necessidades de proteína nas restantes refeições com menor impacto ambiental. Ou seja, todas as pessoas ligadas à área do fitness/culturismo que gostam de basear as cinco a sete refeições diárias em frango/carne picada/atum/pescada com arroz/massa/batata doce perfazendo um total de 500-1000g de carne ou peixe por dia, podiam e deviam repensar esse estilo alimentar uma vez que conseguem ter os mesmos resultados na composição corporal optando por alimentos com menor pegada de carbono (e mais baratos já agora), pois os nossos músculos não sabem se os aminoácidos que lá chegam são provenientes do leite, queijo ou iogurte ou da carne ou peixe. Também alimentos com rótulo de “superalimentos” que muitos se orgulham de comer e divulgar nas redes sociais como o abacate, quinoa, bagas goji, coco, cacau e açaí não são cultivados no nosso país e o transporte por via aérea também pesa bastante nas emissões de C02.

Por último, não só a alimentação humana tem influência no ambiente. Os nossos animais de estimação também contribuem para esse consumo de proteína animal por mais que isso nos custe aceitar, sendo esse impacto tanto maior quanto maior o porte e o consumo de ração do animal. Parafraseando o autor do estudo: “Esta análise não significa que devemos limitar a propriedade de cães e gatos, mas também não podemos vê-la como um bem incontestável.”

Falar da alimentação quando falamos de ambiente é fundamental porque comemos todos os dias e várias vezes ao dia, mas existem muitos outros aspectos a modificar no nosso estilo de vida. Esta iniciativa da Universidade de Coimbra foi pioneira, mas todas as universidades e restantes institutos e empresas independentemente do seu carácter público ou privado, devem pensar urgentemente em medidas que visem a redução da sua pegada de carbono. Quantos de nós conhecemos pessoas que “vivem” em aeroportos ou na auto-estrada a “fazer piscinas” Porto-Lisboa (só para falar do itinerário com mais tráfego), quando podiam ir de comboio ou até fazer as respectivas reuniões online dado o grande número de opções que hoje existem. Nas universidades quantas viagens a congressos internacionais podem ser reduzidas tendo em conta que apresentar um póster ou uma comunicação oral (vamos deixar as comunicações por convite de fora), por mais prestigiante que seja e que contribua para o currículo de cada um, acrescenta muito pouco ao conhecimento pois esses trabalhos são posteriormente publicados em revistas científicas ficando à distância de um clique.

Mesmo tendo em conta que a classe política a nível mundial deixa muito a desejar nas medidas a implementar para combater as alterações climáticas, aquilo que conseguimos modificar no imediato são mesmo as nossas acções, o nosso estilo de vida e o nosso… ego! Uma das frases que melhor ilustra o tempo que vivemos é de que “não vamos conseguir combater as alterações climáticas tentando tirar das pessoas aquilo que elas mais gostam”, que é o mesmo que dizer, que existe a tendência natural no ser humano para achar que a culpa está sempre do outro lado.

Vegans que promovem o ódio aos transgénicos (quando se sabe que estes para além de não terem nenhum risco para a saúde até diminuem as emissões de C02) podem dizer que a culpa é só da carne vermelha; pessoas que andam de bicicleta porque conseguem morar no centro das cidades podem dizer que o problema é apenas das emissões de C02 dos carros das pessoas que são obrigadas por razões financeiras a viver nos dormitórios das grandes cidades; pessoas que não têm filhos, mas têm 2 cães podem dizer que não contribuíram para o crescimento populacional e pressionar ainda mais o ecossistema, e poderíamos continuar por aí adiante com o moralismo/terrorismo verde dos alimentos biológicos e antiplástico, que não têm o efeito protector para o ambiente tantas vezes propalado, apenas servindo para deixar mais tranquila a consciência de cada um.

Em suma, enquanto cada um de nós estiver mais preocupado em ter razão e apontar o dedo ao outro do que em mudar os comportamentos que factualmente fazem a nossa pegada ecológica aumentar, as alterações climáticas serão sempre uma guerra de facções onde perdemos todos.