Potências cobiçam o Afeganistão a pensar no fim da guerra

China, Rússia, Paquistão e Índia têm tentado ganhar influência no país asiático a pensar no futuro pós-guerra entre o Governo afegão, Estados Unidos e taliban.

Rússia, China e Paquistão avançaram há meses com um processo de paz paralelo entre o Governo afegão e os talibãs
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Rússia, China e Paquistão avançaram há meses com um processo de paz paralelo entre o Governo afegão e os taliban Reuters/PARWIZ

O acordo de paz entre os Estados Unidos e os taliban foi recebido com agrado nas capitais dos países com grandes interesses no Afeganistão e o fim das negociações com desilusão. China, Rússia, Paquistão e Índia esperam há muito pelo fim de uma guerra que se arrasta há 18 anos e cuja solução deixou de ser militar. Como sempre, o Afeganistão é um tabuleiro de um complexo xadrez onde as grandes potências disputam a sua importância geopolítica e riquezas.

“A China está a ter uma visão de longo prazo no que diz respeito ao Afeganistão, baseando-se nos seus interesses económicos à medida que os Estados Unidos se afastam”, disse Qazi Humayun antigo embaixador paquistanês no Afeganistão, ao Nikkei. Uma visão que a faz ter boas relações tanto com o Governo afegão como com os taliban: independentemente de quem vencer a guerra, Pequim quer estar numa posição confortável, daí já se ter oferecido para mediar negociações de paz.

Fá-lo por razões geoestratégicas e económicas. A posição geopolítica do Afeganistão é fundamental para ligar a China ao Paquistão no âmbito da iniciativa da Nova Rota da Seda e o solo afegão é rico em minerais – cobre, lítio, mármore, ouro e urânio – essenciais para a indústria chinesa. Nos últimos dois anos, diz a News in Asia, empresas chinesas ganharam contratos na ordem dos três mil milhões de dólares para explorar minas na província de Logar. Mas a guerra com os taliban é um obstáculo aos seus interesses económicos.

A Rússia, conhecida por se ter distanciado da política afegã, rompeu com a “neutralidade” e tem ganho influência no país. A sua principal preocupação é securitária, por temer que o país seja usado pelo Daesh para levar a guerra até si – instalou-se no Afeganistão em 2014 –, e quer usar o país para pressionar os EUA. Em Fevereiro deste ano, representantes russos, paquistaneses, chineses, do Governo afegão e taliban encontraram-se em Moscovo para discutir o processo de paz, em paralelo com o que já estava a ser feito entre Washington e os taliban.

O Paquistão tem alinhado com Moscovo por os seus interesses serem, de momento, convergentes e com a China por causa do corredor económico que os poderá ligar. Islamabad foi um dos poucos Governos a reconhecer o regime taliban na década de 1990 e, finda a guerra, quer um regime afegão que não dispute a fronteira de 2450 km que os separa – os dois países têm disputas fronteiriças desde a independência paquistanesa, em 1947.

Mas está sobretudo preocupada com a crescente influência indiana no Afeganistão e quer travá-la. Nova Deli apoia o Governo afegão por querer limitar a influência dos taliban – é um dos maiores contribuidores regionais para a reconstrução do país (mais de 10 mil milhões de dólares desde 2012). Quer ganhar terreno na exploração de matérias-primas necessárias para a sua indústria tecnológica – o lítio, por exemplo – e até já construiu o Porto de Chabahar, no Irão, para as transportar.

Também existem preocupações securitárias. Nova Deli quer impedir que o Daesh ganhe raízes em solo Afeganistão por recear que um dia possa ser o alvo de atentados terroristas, uma vez que a sua actuação política é vista como antimuçulmana. Porém, o Governo indiano resistiu até ao momento em apoiar militarmente o executivo afegão e tudo indica que não está para aí virado.