Afegãos vão às urnas na mira dos talibãs

Dos 18 candidatos que os afegãos têm este sábado para escolher como Presidente para os próximos cinco anos, apenas dois têm hipóteses de ganhar: o Presidente Ashraf Ghani e o líder do Governo, Abdullah Abdullah. Quem vencer terá de negociar a paz com os talibans.

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Um terço dos mais de nove milhões de eleitores registados são mulheres JALIL REZAYEE/Reuters
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Cartaz de campanha do Presidente Ashraf Ghani, que promete “construir o Estado JAWAD JALALI/EPA
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Abdullah Abdullah diz ser o candidato da “estabilidade e integração” JALIL REZAYEE/EPA

Votou nas eleições presidenciais de 2014 e, em retaliação, os talibans cortaram-lhe um dedo indicador. Dividido entre o medo e o dever, Ahmad está indeciso sobre se vai votar nas presidenciais deste sábado no Afeganistão. “Sei que por amor ao meu país deveria votar, mas olho para os candidatos e penso que nenhum deles vale o risco”, disse à Associated Press.

Há meses que o país vive uma escalada de violência e os talibans prometeram ataques contra as mais de cinco mil mesas de voto das quartas eleições presidenciais desde que foram afastados do poder pelos norte-americanos, em 2001. O Governo destacou mais de 100 mil soldados e polícias para protegerem os locais de voto, mas nem assim conseguiu tranquilizar quem receia perder a vida num gesto democrático tão simples como votar. As negociações de paz falharam e o sentimento de insegurança é maior que nunca num país em guerra há mais de 40 anos e onde as eleições são sempre alvo de atentados

Mais de nove milhões de afegãos estão registados para votar (numa população de 34 milhões) e terão de escolher entre 18 candidatos, depois de uma campanha eleitoral de 60 dias que terminou esta quinta-feira. Mas apenas dois têm verdadeiras hipóteses de vencer num país fracturado por divisões étnicas, alianças instáveis e décadas de guerra: o Presidente Ashraf Ghani e o chefe do Governo, Abdullah Abdullah.

São eternos rivais e desde 2014 que partilham o poder numa solução de Governo de Unidade Nacional para impedir que venham ao de cima mais divisões e violência. Ghani apresenta-se como o candidato que quer “construir o Estado” e Abdullah como o da “estabilidade e integração”. É a segunda vez que se defrontam em presidenciais e, para Abdullah, que já tentou também eleger-se frente a Hamid Karzai, é a desforra há muito esperada. 

Se na primeira volta nenhum dos candidatos ultrapassar os 50% dos votos, uma segunda será realizada duas semanas depois. Espera-se que os resultados preliminares da primeira sejam anunciados a 19 de Outubro e os finais a 7 de Novembro. Se houver uma segunda volta, prevê-se que o regresso às urnas aconteça a 23 de Novembro.

Arriscar a vida

As eleições afegãs costumam ser marcadas por suspeitas de fraude eleitoral e corrupção, e o risco de segurança pode levar ao encerramento de muitas mesas de voto. Além disso, receia-se que o candidato que perder conteste os resultados. “Acho que [a repetição dos resultados de 2014] é provável e isso teria graves consequências para o Afeganistão”, disse Ali Yawar Adili, analistas da Rede de Analistas do Afeganistão, ao Guardian. “O Presidente Ghani já disse que as eleições são o derradeiro teste à continuação da república”.

Dois dos riscos que o regime enfrenta são a participação ser historicamente baixa, ameaçando desde logo a já de si frágil consolidação democrática e a legitimidade do próximo Presidente nas negociações que podem vir aí, e a falta de diálogo entre os líderes políticos. “O Afeganistão precisa de um Presidente, não de dois. Não vou aceitar um Governo de unidade nacional”, disse o Presidente afegão à Radio Free Afghanistan. Uma postura que ameaça abrir brechas no regime e pôr em causa uma possível abertura a negociações com os talibans, que tardam em acontecer.

“Votar quando a situação está má significa que se é louco. E eu não o sou”, disse Qasim Walizada, taxista de 29 anos, ao Guardian, sublinhando que as “mesas de voto não são seguras”. O risco é considerado tão elevado que os observadores internacionais não estarão nas mesas de voto, escrutinando o processo à distância.

Mas há também quem, determinado mas sem acreditar nas eleições, não ceda às ameaças dos talibans. “Arriscar a vida para votar mostra compromisso com a democracia”, disse à Reuters Masoudi, consultor cultural da UNESCO de 21 anos que vai votar pela primeira vez. “Perdi toda a esperança no processo eleitoral quando soube que pode ser facilmente manipulado pelos políticos. [Votar] Tornou-se um esforço desperdiçado, mas tenho de proteger os meus direitos”.

É preciso negociar

O resultado das eleições está profundamente ligado ao processo de paz afegão. O próximo Presidente terá como principal missão negociar o futuro do país com os talibans, já que os norte-americanos querem há muito retirar as suas tropas. Se não o conseguir, o país continuará em permanente guerra e os islamistas podem bem ganhar o conflito, à semelhança do que aconteceu após a retirada das forças soviéticas, em 1989. Washington já percebeu que não existe solução militar para o conflito que se arrasta há 18 anos, principalmente quando os islamistas estão mais fortes que nunca e controlam dois terços do país. Em consequência, a opção negocial ganhou força.

As negociações entre Washington e os talibans começaram em Outubro de 2018, em Doha, no Qatar, e as nove rondas que seguiram resultaram, em Agosto, num acordo preliminar. Porém, pouco depois de ser anunciado, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pôs fim às negociações argumentando com a morte de um soldado norte-americano num atentado dos talibans. Mas a verdadeira razão extravasa em muito as fronteiras afegãs: foi uma decisão com as presidenciais norte-americanas de 2020 no horizonte.

Na campanha presidencial de 2016, Trump fez da retirada dos soldados norte-americanos do Iraque e do Afeganistão uma das suas bandeiras eleitorais e não o cumpriu até ao momento. Bem pelo contrário, chegou até a anunciar, em Agosto de 2017, o aumento de tropas das 8400 para as 14 mil no Afeganistão – reduziu-as entretanto em duas mil. O aproximar das eleições de 2020 fez com que a Casa Branca apostasse as fichas nas negociações e apressou-as, cedendo, dizem os analistas, mais do que recebeu em troca. O acordo iria deixar o Governo afegão à sua sorte.

As negociações basearam-se em quatro pontos: a garantia dada pelos talibans de que o Afeganistão não seria usado para ataques contra os Estados Unidos e seus aliados, a completa retirada das forças norte-americanas e da NATO do país, o acordo de se iniciar um diálogo entre o Governo afegão e os talibans e um cessar-fogo permanente. Os islamitas sempre se recusaram a negociar com o regime afegão acusando-o de não ser mais que uma “marioneta” dos norte-americanos.

Não havia, portanto, garantias de que os talibans respeitassem um cessar-fogo após a retirada das tropas norte-americanas e da NATO e muito menos que negociassem a paz com o Governo afegão. Assim, explica o analista Max Boot no blogue do Council of Foreign Relations, houve três erros capitais da Administração Trump: a exclusão do Governo afegão da mesa das negociações, o não haver cessar-fogo durante as conversações e a constante sinalização da Casa Branca em querer retirar as suas forças.

Estes erros deram liberdade aos talibans para organizar atentados, pressionando Washington na mesa das negociações, e prejudicar as presidenciais afegãs deste sábado. Hospitais, comícios e edifícios governamentais foram os alvos e, em retaliação, as forças do Governo, apoiados pelos Estados Unidos, responderam com um escalar das operações militares aéreas e terrestres – por exemplo, um ataque de drones matou 30 civis afegãos e feriu outros 40 em Khogyani, na província de Nangarhar.

Em Agosto, morreram em média 74 afegãos por dia e, desde o início do ano, os atentados e combates já causaram a morte e ferimentos a mais de 4000, a maioria às mãos das forças do Governo e seus aliados, dizem as Nações Unidas.