António Lobo Antunes “já entrou no Olimpo”, considera o Presidente da República que lhe atribuiu a Ordem da Liberdade

Marcelo Rebelo de Sousa encerrou neste sábado o colóquio que homenageou António Lobo Antunes na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, e agradeceu-lhe ter “contribuído para a nossa liberdade, por aquilo que pensou, por aquilo que fez e por aquilo que escreveu”.

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Daniel Rocha

O presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa entregou, ao final desta tarde, a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade ao escritor António Lobo Antunes no final do colóquio dedicado aos 40 anos da vida literária do autor de A Outra Margem do Mar (ed. Dom Quixote) que decorreu durante este sábado na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Na sala estavam também os antigos Presidentes da República Jorge Sampaio e general Ramalho Eanes.

De manhã, o escritor e filósofo francês Bernard-Henri Lévy, que fez a conferência de abertura, mostrou-se feliz por o seu país ter permitido à obra do escritor português a entrada na Biblioteca La Pléiade, considerada a colecção de referência da literatura mundial ( o anúncio foi feito no ano passado e o processo está em andamento segundo a sua editora). “Mas há um gesto que se impunha, há uma recompensa que se impunha, há uma recompensa que ele merece há tantos anos e que nos faz perguntar : como é possível que tarde tanto? A recompensa que eu peço esta manhã para António Lobo Antunes é naturalmente o Prémio Nobel da Literatura”, disse o intelectual francês.

Horas depois, na mesma sala, Marcelo Rebelo de Sousa lembrava que há um quarto de século havia um debate na sociedade portuguesa sobre o Prémio Nobel da Literatura para o António Lobo Antunes. Debate que rejeitava, porque Marcelo Rebelo de Sousa sempre achou que o autor de Fado Alexandrino estava acima disso. “Não precisava do Prémio Nobel da Literatura para ser quem era”, disse no encerramento do colóquio. “Isso ficou mais claro quando a Pléiade o reconheceu e o chamou ao Olimpo. [António Lobo Antunes] entrou no Olimpo. Não há que esperar notícias dessa capital da Europa nórdica. Não importa, é perda de tempo”, acrescentou o Presidente da República.

“Claro que o Bernard-Henri Lévy fez bem em ter dito o que disse só mostra como é consistente, persistente e tem aquele traço francês que é não se esquecer daquilo que pensava já há 40 anos”, disse o PR lembrando que para os portugueses o que é fundamental é que António Lobo Antunes ganhou já tudo o que havia a ganhar de prémios.

“É um daqueles casos de acesso à eternidade por mérito próprio. A genialidade abre ‘uma via verde’, ou melhor eu não digo a cor para não ser mal interpretado. Nestes tempos de campanha eleitoral o melhor é não dizer nada porque irão dizer tudo sobre mim [gargalhadas na sala]”, disse e rectificou para “uma via directa”.

“Diz o António Lobo Antunes que os sucessivos Presidentes da República sempre tiveram um carinho especial por ele. Mas eu acho que os portugueses, ao longo destes anos, sempre tiveram carinho pelo António. Por isso, os Presidentes cumpriram a sua função: interpretar a vontade do povo. Para isso são eleitos”, acrescentou.

“Que posso eu dizer senão agradecer-lhe a sua juventude, agradecer-lhe aquilo que por nós fez, agradecer-lhe a sua irreverência e a sua liberdade. Foi, é e será sempre um homem essencialmente livre. E que contribuiu para a nossa liberdade, por aquilo que pensou, por aquilo que fez e por aquilo que escreveu. Como reconhecer isso? É muito simples. É o pouco que está ao alcance de um Presidente da República que é atribuir-lhe a Ordem da Liberdade nestes 40 anos de obra literária. E é isso que eu passo a fazer.” E assim fez, perante uma enorme plateia a aplaudir de pé.