A primeira oportunidade de Pichardo, o português

Saltador nascido em Cuba é um forte candidato às medalhas no triplo, onde também estará Nelson Évora. Inês Henrique defende o seu título na marcha.

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O pódio do triplo em Pequim 2015: o norte-americano Taylor ao lado de Évora e Pichardo (que será português em 2019) REUTERS/Damir Sagolj

Não haverá muitas comitivas nestes Mundiais de atletismo que possam dizer que têm dois campeões do mundo (Inês Henriques e Nelson Évora), um vice-campeão (Pedro Pablo Pichardo) e um medalha de bronze (João Vieira). Não falta currículo a esta comitiva portuguesa em Doha, mas isso não esconde que esta é uma das mais curtas e menos variadas que Portugal envia aos Mundiais. São apenas 15 atletas (quatro homens e 11 mulheres), dos quais cinco vão ao triplo salto, quatro estarão nas provas de marcha, três estão nos lançamentos, duas em corridas de pista e apenas uma na maratona. Em termos globais, é a quarta representação mais pequena de sempre (a mais pequena foi nos primeiros Mundiais, Helsínquia 83) e nunca Portugal teve tão poucos homens a competir, enquanto a participação feminina está dentro da média.

Mas todo este currículo numa selecção pequena pode bem dar uma ou mais posições de pódio e, quem sabe, um título. O maior candidato português a uma medalha chama-se Pedro Pablo Pichardo, o triplista nascido em Santiago de Cuba e que está autorizado a competir por Portugal desde Agosto passado. Pichardo já tem no currículo duas medalhas de prata em Mundiais (2013 e 2015) quando competia pelo país onde nasceu e foi ainda como cubano (em 2015) que se tornou num de apenas seis a saltar acima dos 18 metros – fez 18,08m, a sétima melhor marca de todos os tempos.

Pichardo, que desertou de Cuba em Abril de 2017, ainda não atingiu esse nível com a nacionalidade portuguesa, mas já é dele o recorde português, 17,95m, feitos em Maio de 2018 e que afastou do topo a marca de Nelson Évora, 17,74, que valia como máximo nacional desde 2007. E o luso-cubano anda bastante longe dos 18 metros em 2019, uma barreira que só foi quebrada apenas pelo norte-americano Will Claye, vice-campeão mundial. Prevê-se que a luta pelo ouro seja um assunto discutido entre norte-americanos, com Claye a tentar impedir Christian Taylor de chegar a um quinto título mundial consecutivo, sendo que Omar Braddock também terá uma palavra a dizer.

E quem terá também uma palavra a dizer é Nelson Évora, que será o mais velho (35 anos) entre os participantes no triplo. O título mundial em Osaka já foi há 12 anos, tal como o salto que ainda vale como o seu recorde pessoal, mas o saltador português tem conseguido manter-se no topo nas grandes competições – só em Mundiais, tem um ouro, uma prata e dois bronzes. Há dois anos, em Londres, Évora provou que é um atleta talhado para a competição, com uma saborosa medalha de bronze atrás de Taylor e Claye, e quer provar o mesmo em Doha, num ano em que o próprio reconhece, citado pela agência Lusa, ter tido “alguns problemas durante a época de Verão” – o seu melhor do ano é apenas 17,13m, 19.º entre os inscritos e abaixo da marca de qualificação para a final.

Pichardo e Évora serão os dois primeiros portugueses a entrar em acção nos Mundiais, com as qualificações do triplo a decorrerem a partir das 17h25 (hora de Lisboa). No primeiro dia, os portugueses também devem estar atentos a Salomé Rocha, que corre na maratona feminina com o 11.º tempo entre as inscritas. Já a equipa feminina dos saltos apresenta-se com uma inédita presença tripla. Patrícia Mamona, Susana Costa e Evelise Veiga têm francas possibilidades de passarem à final. Na marcha haverá um português com aspirações e com uma medalha de bronze em Mundiais no currículo. João Vieira vai disputar as duas provas (20km e 50km) naquela que será a sua 11.ª participação em Mundiais, empatando com outra marchadora, Susana Feitor.

Para além de Évora, há outra atleta portuguesa em Doha que sabe o que é ser campeã do mundo. Inês Henriques foi a primeira medalha de ouro numa prova feminina de 50km marcha em 2017, e com um recorde mundial, mas, dois anos depois, as circunstâncias são bem diferentes. Se, em Londres, Inês Henriques era a maior favorita numa prova com apenas sete participantes, em Doha serão 24 marchadoras e a atleta portuguesa, uma pioneira dos 50km marcha nos recordes e nos títulos, já não tem esse estatuto de melhor do planeta.

Na verdade, as 4h05m56s feitas em 2017 são apenas a sexta marca de sempre, tendo à sua frente três atletas da China (uma delas, Liu Hong, abaixo das quatro horas), mais uma italiana (Elenora Giorgi) e uma espanhola (Júlia Takács). Numa prova que será disputada à noite, na qual terá a companhia de Mara Ribeiro, Inês Henriques reconhece que a defesa do título não será fácil: “Não arrisco dizer a classificação que quero. Vou lutar e esperar que o corpo reaja.”

Os 15 portugueses

Homens
Nelson Évora, Triplo salto
Pedro Pablo Pichardo, Triplo Salto
João Vieira, 20km e 50km marcha
Francisco Belo, Peso

Mulheres
Lorene Bazolo, 100m
Cátia Azevedo, 400m
Salomé Rocha, Maratona
Inês Henriques, 50km marcha
Mara Ribeiro, 50km marcha
Ana Cabecinha, 20km marcha
Irina Rodrigues, Disco
Liliana Cá, Disco
Patrícia Mamona, Triplo
Susana Costa, Triplo
Evelise Veiga,  Triplo