Sem Bolt, o atletismo procura a sua nova “estrela”

Doha 2019 serão os primeiros Mundiais em 14 anos sem o jamaicano. Quem avança para a sucessão?

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Noah Lyles é mais um candidato à sucessão de Bolt nas provas de velocidade Reuters

Há dois anos, em Londres, Usain Bolt deixou um espaço difícil de preencher. Não se despediu das pistas como queria – medalha de bronze nos 100m e desistência nos 4x100m – mas despediu-se. E deixou o atletismo à procura de uma “estrela” de grandeza semelhante. É o que vai acontecer a partir desta sexta-feira e até 6 de Outubro em Doha, palco da 17.ª edição dos Mundiais de atletismo, os primeiros em 14 anos sem a presença eléctrica de “Lightning Bolt”. Mas isso não quer dizer que não vá haver espectáculo nestes Mundiais fora do Verão e que se realizam num estádio com ar condicionado.

Na verdade, a sucessão a Bolt já foi feita na pista do London Stadium há dois anos. Justin Gatlin finalmente conseguiu bater o seu rival jamaicano nos 100m e conquistou o seu segundo título mundial, 12 anos depois do primeiro. Gatlin vai tentar um terceiro título no hectómetro em Doha e, aos 37 anos, continua com pernas para o fazer, mas não é dele que se fala para ficar com os títulos e os recordes de Bolt a curto e médio prazo. Noah Lyles, um jovem sprinter norte-americano de 22 anos, tem o talento para apanhar o jamaicano.

A última corrida de Usain Bolt

Em Doha, naqueles que serão os seus primeiros grandes campeonatos, apresenta-se como um sério candidato a ficar com o ouro nos 200m e, quem sabe, bater o recorde do mundo. O seu recorde pessoal feito em 2019 – 19,50s – faz dele o quarto mais rápido de sempre no duplo hectómetro e não está assim tão longe dos 19,19s de Bolt feitos há dez anos em Berlim. Também será, no futuro, candidato a títulos e recordes nos 100m (tem um recorde pessoal de 9,86s, segunda melhor marca mundial do ano), mas não vai correr esta prova no Qatar por decisão própria – nem sequer alinhou nos 100m nas provas de selecção dos EUA, que terão Gatlin e Christian Coleman como os maiores candidatos ao ouro.

“Um desafio de cada vez”, é o que diz este natural da Flórida sobre a sua opção de não tentar a “dobradinha” na velocidade nestes Mundiais (Bolt também só esteve nos 200m nos seus primeiros, em Helsínquia 2005), mas vai, por certo, fazê-lo nos Jogos Olímpicos do próximo Verão. Para além da velocidade, Lyles também tem o carisma (canta rap, faz cambalhotas na pista e mete-se com os rivais) e só não gosta que olhem para ele como a nova encarnação de Bolt: “Não, não sou o próximo Usain Bolt, sou o próximo Noah Lyles. Sou o próximo tipo que terá a sua própria personalidade, a sua própria vontade. E se, por acaso, bater recordes do mundo, sim vou bater os tempos de Bolt.”

Lyles parece estar bastante à frente de toda a gente nos 200m, mas não pode dar o ouro por garantido, até porque a concorrência é forte, a começar nos seus próprios colegas de equipa, como Coleman ou Kenneth Bednarek, o canadiano Andre de Grasse (também um potencial sucessor de Bolt), o nigeriano Divine Oduduru ou o campeão mundial em título, o turco Ramil Guliyev. Yohan Blake é o jamaicano com maior currículo presente em Doha (corre nos 100m e nos 200m), mas, dificilmente fará marcas ao nível das que fizeram dele um dos mais sérios desafiantes de Bolt.

Claro que o novo dono da coroa masculina da velocidade não será o único motivo de interesse em Doha. Há, igualmente, uma enorme expectativa em relação ao salto com vara masculino, com muita gente presente que já saltou acima dos 6,00m. O norte-americano e campeão em título Sam Kendricks é o líder mundial do ano, com 6,06m, mas esta é uma disciplina em que é mesmo impossível de prever um vencedor. A lista de candidatos inclui o adolescente norte-americano que compete pela Suécia, Mondo Duplantis, o brasileiro campeão olímpico Thiago Braz (e o seu compatriota Augusto Dutra), o polaco vice-campeão mundial Piotr Lisek, ou o francês recordista mundial Renaud Lavillenie.

Veremos também quem irá ocupar o lugar mais alto do pódio nos 800m femininos, depois de Caster Semenya ter perdido a batalha legal contra a IAAF no que diz respeito às restrições dos níveis de testosterona nas provas femininas entre os 400m e a milha. Semenya recusou-se a tomar medicamentos para restringir os seus níveis hormonais e não estará em Doha a defender o seu título mundial, ela que tem sido a grande dominadora da distância. Sem a sul-africana, é a norte-americana Ajee Wilson, bronze em 2017, a maior favorita.

Os portugueses, por exemplo, irão seguir com muita atenção a prova do triplo-salto masculino com dois saltadores que serão candidatos ao pódio, Pedro Pablo Pichardo e Nelson Évora, contra a forte armada norte-americana. E a prova do triplo feminino também terá uma tripla presença portuguesa, mas o lugar mais alto do pódio parece estar reservado por Yulimar Rojas, a enorme (1,92m) venezuelana campeã em título que anda a saltar muito perto do recorde mundial – saltou 15,41m no início do mês, um recorde pessoal que apenas perde nas listas para o máximo mundial com 24 anos de idade de Inessa Kravets (15,50m). Também haverá a curiosidade de ver pela primeira vez em Mundiais a estafeta mista de 4x400m, com equipas compostas por dois homens e duas mulheres sem que haja uma ordem definida à partida – e sendo esta uma prova recente, é bem provável que haja recorde do mundo.

Maratona à meia-noite

Para além da novidade da estafeta mista, haverá maratonas corridas à meia-noite local, para que os atletas não estejam expostos às altas temperaturas qataris à luz do dia – as temperaturas motivaram, aliás, a realização destes Mundiais um pouco mais tarde no ano (costumam ser em Agosto) e a instalação de ar condicionado no estádio. Será quase o mesmo horário (23h30) para as provas de 50km marcha, que farão a sua penúltima presença em Mundiais – a mais longa prova do programa deixa de existir a partir de 2022.

Certo é que Doha 2019 não será a loucura que foi Londres 2017, que teve lotação esgotada ou perto disso praticamente todos os dias. O estádio que recebe estes Mundiais, o Khalifa International Stadium, tem capacidade para 40 mil espectadores, mas, segundo vários relatos da imprensa internacional, só foram vendidos 50 mil bilhetes para os dez dias de competição. Segundo contava há poucos dias o jornal britânico Guardian, a organização já mandou cobrir as bancadas superiores do recinto (que será um dos estádios do Mundial de futebol em 2022) e, para ter as bancadas mais compostas, está a pensar em oferecer bilhetes aos migrantes que estão a trabalhar no Qatar e a crianças.