Debates: parecer inteligente sem o ser

O pior inimigo do político num debate é a sua inteligência. Quanto mais inteligente é um político, pior é a debater porque vai querer responder aos argumentos do seu adversário e passar a sua mensagem. Isso é absurdo.

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Tiago Petinga/Lusa

Quase ninguém vê os debates e muito pouca gente decide em quem votar em função deles. Então para que servem? Basicamente, para os comentadores terem assunto para os seus debates e poderem dizer aquilo que pensam sobre o que as pessoas pensam. O cidadão comum pode não ver os debates, mas os comentadores vêem os debates enquanto fingem que são cidadãos comuns. O que é a mesma coisa. Os candidatos debatem, os comentadores dizem o que pensariam os portugueses se tivessem visto o debate.

O senso comum diz-nos que as pessoas debatem para enriquecerem as suas posições e que, do confronto de ideias, saem as melhores soluções. O senso comum não percebe nada de política. Os debates servem para os políticos humilharem os seus adversários através de retórica e memes. Podem interrompê-los ou recorrer a falácias. O que interessa é saírem por cima no jogo, porque, segundo os comentadores, as pessoas não votam em programas, votam em pessoas que fazem boa figura. O que seria da imagem de um político se, caso um adversário apresentasse um argumento infalível, como o capitalismo, ele respondesse: “Olhe, nunca tinha pensado dessa forma. Mudou completamente a minha perspectiva e agora penso exactamente como o senhor. Obrigado, sinto-me uma pessoa muito melhor.” Era o fim desse político, ia viver na mesma residência da Dra. Zita Seabra. Um político não serve para aprender, serve para fazer boa figura e debitar o que os assessores treinaram.

O pior inimigo do político num debate é a sua inteligência. Quanto mais inteligente é um político, pior é a debater porque vai querer responder aos argumentos do seu adversário e passar a sua mensagem. Isso é absurdo. Ele está lá para ganhar, não para informar ou debater de boa-fé. Enquanto está lá a perder tempo a tentar ser racional e lógico, o adversário aproveita a sua fragilidade e, antes que possa reagir, leva com alguém de esquerda a gritar-lhe “então e os bancos?” ou um grande tribuno com o Dr. Nuno Melo a esfregar-lhe a Venezuela. Dois argumentos, pouco racionais, mas infalíveis.

Ser inteligente em debates não resulta. O Dr. Trump ganhou todos os debates nas primárias republicanas por ser inteligente e dominar os dossiers? Precisamente pelo contrário. Teve confiança na sua ignorância e coragem de subir a um palanque sem saber absolutamente nada dos assuntos que ia debater. Sabia duas palavras: America e Wall. Os eleitores republicanos viram-no e disseram: “O Dr. Trump é quase tão estúpido como eu. Tem de ser Presidente.”

Na terça-feira, houve um debate entre todos os partidos com representação parlamentar. Seis pessoas a falar umas com as outras. Alguém se lembra do que se passou? Quantos eleitores indecisos estavam a ver? Provavelmente nenhum. Se um eleitor está indeciso nesta altura do campeonato, provavelmente não é a pessoa que se senta a ver debates.

O grande vencedor dos debates foi o Dr. Rui Rio porque conseguiu mostrar às pessoas que, apesar de tudo, é um ser humano. Muita gente não sabia. Sabia que ele existia de nome e que andava de fato. Mas não lhe reconheciam uma existência humana. E as pessoas gostam de votar em humanos, porque se sentem mais seguras quando são governadas por seres da mesma espécie. Há teorias da conspiração, segundo as quais os políticos são lagartos extraterrestres disfarçados de humanos. Eu não posso desmentir completamente essa teoria porque não conheço os políticos todos e conheço um ou outro que pode ser um lagarto. Mas, quanto a mim, posso dizer, quase com 100% certeza, que não sou um lagarto. Embora não me admirasse se um dia viesse a saber que pertenço a uma espécie que me enviou para a Terra para dominar os humanos e, para eu ser mais convincente como político humano, me apagou a memória. Não posso negar categoricamente que não é esse o caso. Se, mais tarde, vierem a saber que sou lagarto, mea culpa.

Perante este tipo de suspeições, os políticos são forçados a usar a campanha eleitoral para parecerem humanos e a fazer coisas que as pessoas fazem, como andar de bicicleta, beber vinho, fingir mal que não levam a mal os insultos que lhes fazem ou ir a programas de humor fingir que têm fair play e capacidade de encaixe.