Opinião

A cimeira do desalento e a rua da esperança no dia 27

Ontem, a Cimeira do Clima não passou de mais um elenco de discursos de chefes de Estado ou de governo. Já os que estão de fora do Acordo de Paris nem os ouvimos.

As alterações climáticas e a proteção do planeta são uma questão de sobrevivência e direitos humanos. Porque a vida só é possível num ambiente ecologicamente equilibrado. Se nada mudar, tudo fica em causa – os direitos económicos, sociais e culturais, mas também os civis e políticos, pois todos são indivisíveis e a segurança de toda a humanidade é a primeira vítima da nossa falência.

Ontem, a Cimeira do Clima não passou de mais um elenco de discursos de chefes de Estado ou de governo. Já os que estão de fora do Acordo de Paris nem os ouvimos.

Portugal, que tem um discurso simpático, não teve até agora influência ou exemplo suficiente para liderar, pela falta de ações concretas, mensuráveis, e políticas públicas de emergência a uma tragédia em marcha.

A Amnistia Internacional tem ao longo dos anos lançado vários relatórios sobre abusos ambientais que colocam em causa, no imediato, a vida das pessoas, desde o óleo de palma na Indonésia, ao petróleo na Nigéria. Os exemplos da urgência são evidentes.

Os direitos humanos – e, neles, os recursos naturais – são nossa responsabilidade coletiva, da qual decorre a obrigação positiva e urgente de proteger e garantir sustentabilidade.

O tempo é de soluções dos Estados, das empresas, de todos nós.

Os Estados. Que cumpram os compromissos internacionais e vão além do Acordo de Paris. Que se baseiem na ciência para a conceção de novos objetivos. Que concebam medidas de pressão arrojadas (cláusulas de cumprimento dos objetivos de Paris, por exemplo, condicionais aos acordos de comércio) porque as grandes multinacionais e os milhões de postos de trabalho que garantem não podem ficar de fora da equação. Que desenhem um modelo de economia assente na sobrevivência dos países. E, nisto, é necessária solidariedade internacional. Tem de haver ajuda aos países cuja sobrevivência depende de indústrias poluidoras. A par desta cooperação, cada Estado tem de trabalhar a nível nacional. Percebemos a questão da transição económica e energética, e dos planos para algures entre 2030 e 2050, mas a morte do planeta exige mudanças agora, com políticas públicas que permitam ao mercado de consumo escolher soluções sustentáveis.

As empresas. Que entendam que não há tempo a perder e que têm de ser parte da solução. Precisamos de verdadeiros planos de Responsabilidade Social que não sirvam apenas para cumprir calendário ou ter ganhos reputacionais, mas que se foquem na sustentação da sua própria atividade económica. É simples: se não encontrarem forma de produzir riqueza de forma sustentável, os mercados irão, mais cedo do que tarde, deixar de procurar os vossos produtos. É, também aqui, uma questão de sobrevivência.

Nós. Cada pessoa, cada consumidor. Que façamos tudo ao nosso alcance. Reciclar, sim, faz a diferença e pode ser lucrativo numa economia circular. Consumir menos também. O lixo tem de ser tratado, mas, antes disso, é preciso reduzi-lo.

Há ainda muito mais que podemos fazer e no próximo dia 27 há uma ação muito concreta: a de sair à rua e, pacificamente, exigirmos a todos a sua parte.

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