Sergio Azenha
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Sergio Azenha

Megafone

Este ano não vamos ouvir falar das praxes

Os veteranos vão acolher os caloiros e tratá-los pelo nome, e vice-versa, enquanto mostram os cantos e recantos das faculdades e politécnicos, não esquecendo a partilha dos apontamentos e dando a conhecer todos os professores e pessoal auxiliar.

Este ano não vamos ouvir falar das praxes. Ninguém vai exercer o seu poder sobre o outro apenas por ser um ou dois anos mais velho. Ninguém vai insultar, sujar, cuspir, pontapear, abusar física ou sexualmente, sem esquecer obrigar o outro, a lesma, não o Doutor, a entrar no mar revolto ou atirar-se a uma piscina vários andares abaixo.

Este ano ninguém vai ficar traumatizado, paralisado ou estropiado. Não vou ouvir falar de nenhuma aluna abusada em grupo ou pior, e os pais vão poder dormir descansados porque as suas filhas entraram para o ensino superior. 

E este ano já não vão enterrar alunos até ao pescoço ao ponto da asfixia enquanto se tiram fotografias e selfies e se fazem FaceLives para a posteridade ao ritmo dos likes e das partilhas. O rapaz já está inconsciente e ninguém chama uma ambulância de tão absortos nos teclados, nos ecrãs, em si mesmos.

Os caloiros não vão percorrer vilas e cidades cheios de cola e tinta nos cabelos, de joelhos, gatas ou às arrecuas, amarrados uns aos outros enquanto se atiram para as fontes num baptismo de fogo.

Ninguém vai ser perseguido dia após dia em nome da agressão entre corredores, escadas e salas apenas porque sim, porque se teve o azar de entrar para a faculdade depois de tantos anos a queimar as pestanas à procura de um sonho, um futuro de sonho agora ao nível do pior dos pesadelos.

E medo. Ninguém vai ter medo de ir às aulas, as aulas fantasma serão apenas o eco de si mesmas e de tempos passados, tal como o julgamento do caloiro, tudo contos de uma época primitiva, primária, práticas de séculos passados apenas à vista nos livros de História. 

No mais profundo respeito pela igualdade e direitos, os estabelecimentos de ensino superior proibirão as praxes, punindo quem as execute com a expulsão sumária, sem dó nem piedade para quem não tem dó nem piedade.

Deste modo, o ano universitário vai começar como acabou, na mais pura das normalidades entre professores e alunos, salas de aula e anfiteatros, laboratórios e bibliotecas.

Os veteranos vão acolher os caloiros e tratá-los pelo nome, e vice-versa, enquanto mostram os cantos e recantos das faculdades e politécnicos, não esquecendo a partilha dos apontamentos e dando a conhecer todos os professores e pessoal auxiliar.

A semana académica vai substituir a recepção ao caloiro e as mentalidades, o país e o mundo vão evoluir como um todo, sendo notícia de abertura dos telejornais, mas desta vez pela positiva. 

Em clima de festa, assistiremos a alunos de todos os anos em comunhão efectiva, celebrando a bem celebrar esta fase das suas vidas, tão única, antes que acabe, e ainda agora acabou de começar, sorvendo cada momento, cada conversa e aprendizagem como se fossem as últimas, cientes do tempo e da sua marcha inexorável para a frente, sempre para a frente, todos os dias para a frente, a toda a bisga para a frente, nunca mais para trás.