Yura Fresh/Unsplash
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Megafone

A geração aparentemente inexplicável

Diria que, se fôssemos a geração de algo, seríamos a geração dos que querem estar em relação, mas não sabem como. Dos que se querem relacionar uns com os outros, mas ainda não encontraram o modo certo de o fazer.

Tornou-se costume falarem de “nós” como a geração do Uber, Tinder, Netflix, Instagram, Twitter, Facebook, do digital, do virtual, do irreal – uma geração incompreensível. Mas como resumir uma geração quando esta é a composição de milhares de histórias com origens, sonhos e obstáculos completamente diferentes? Afinal, quando falamos da nossa geração, de quem falamos?

Falamos de “miúdos” que vivem intensamente o imediato, tornando-se pouco pacientes pois, afinal, tudo deveria responder ao som de um clique no computador? Falamos da geração que fica impaciente quando o sinal de loading aparece, pois estamos habituados a encomendar o “aqui e agora”?
Falamos da geração do “desejo à distância de um clique”, pois todos os nossos apetites e apeteceres estão à distância de uma app já criada, ou de uma app por criar? Ou de uma geração que não sonha com o filme que gostava de ver, mas que se senta no sofá e explora as profundezas do Netflix à procura de um filme que “sirva para aquela noite”?

Somos aqueles que vivem em todo o lado e quando nos perguntam de onde viemos, respondemos “Eu sou cidadão do mundo”? Somos os demais que já não saberão os sacrifícios que o sair do nosso país de origem implicam, uma vez que a saudade é ajustável a uma chamada por Skype, FaceTime ou a um voo da Ryanair?

Somos a geração do impacto, que percebe que a vida é curta de mais para ser passada no sofá a “ver passar as moscas” e longa de mais para não encontrarmos alguma forma de deixarmos o nosso cunho neste mundo?

Somos a geração dos apêndices? Não daqueles orgânicos, mas dos electrónicos que parecemos transportar para qualquer lado com o seu fiel companheiro, o carregador — “Não vá o telemóvel falhar-me no meio da cidade onde vivo, onde há milhares de lojas Apple e polícias prontos a socorrer”. Apêndices esses que não nos privamos de usar em jantares românticos, ou em reuniões do escritório. Por vezes, tomamos a honrada atitude de virar o ecrã para baixo, passando uma mensagem a quem está à nossa frente: “Tu és mais importante do que o meu telemóvel, mas não do que constantemente se está a passar dentro dele.”

Poderemos ser nós a geração do malmequer? Num dia gosto disto, no outro já não. Num dia apetece-me esta relação, no outro já não me identifico tanto. E o que poderia ser uma facilidade no processo de encontrar a pessoa certa torna-se num jogo de reciclagem entre o que serve, o que não serve e o que talvez sirva, se estiver in the mood?

Somos tudo isto sem, ao mesmo tempo, nada disto sermos pois, afinal, somos uma geração, um todo composto por histórias individuais, únicas, temperadas de sonhos, fracassos, esperanças e indagares muito próprios.

Eu diria que, se fôssemos a geração de algo, seríamos a geração dos que querem estar em relação, mas não sabem como. Dos que se querem relacionar uns com os outros, mas ainda não encontraram o modo certo de o fazer. O progresso diz-nos para olharmos para a frente, para investirmos na inovação, nas possibilidades do que está para vir. A história pede-nos para olharmos para dentro (quanto à nossa própria história e identidade) e para trás, para o que foi, para compreendermos o que pode vir a ser.

Por vezes, sim, penso que somos a geração do Uber, queremos chegar rapidamente a todo o lado e ao outro, sem notarmos que esta vontade de estarmos em relação pede tempo, esforço. Uma intimidade forçada pode apenas representar violência e não uma proximidade verdadeira.

Somos a geração do Tinder, queremos encontrar a pessoa certa num mundo tão grande e disperso em possibilidades, mas conhecer a pessoa certa não passa por um pegar e descartar, requer um investimento em paciência e curiosidade sobre o outro e a sua história por desvendar.

Somos a geração do Netflix, de quem quer ter acesso à maior variedade e possibilidade de pessoas com quem nos relacionarmos, sendo primeiro necessário formularmos critérios de escolha quanto às nossas amizades para, em vez de terminarmos a noite a ver “A Ressaca 5 – se fosse a ti, estaria na cama”, terminarmos a ver um bom clássico.

Somos a geração do Instagram, do Twitter, do Facebook, uma geração que procura ver e mostrar o bom da vida, das pessoas, sem por vezes entender que não existem realidades sem sombras, nem pessoas sem fragilidades, e sobretudo que é nesse aprofundar e arriscar na intimidade que se fazem os verdadeiros amigos, que se revelam as mais profundas paixões, não ficando pela aparente feira de vaidades que por vezes mais parece um pedido de ajuda.

E, por fim, sim, somos a geração do digital, do virtual, do aparentemente irreal, a geração incompreensível por ser tão caracterizável, sem estas características serem parte da nossa essência. No meio de todas estas tentativas +, umas mais acertadas do que outras, de nos ligarmos uns aos outros, de nos relacionarmos, acabamos por ser a geração dos que procuram o que acho ser o mais bonito na vida, o que também nos traz mais dores de cabeça, mas, acima de tudo, o que mais sentido pode dar à vida quando a entrega é total: as pessoas e as relações que, quando bem trabalhadas, com paciência, sensibilidade e criatividade, podem dar muito e bom fruto para nós, para todos.