Com Howdy, Modi!, Trump estendeu a passadeira vermelha à Índia no Texas

Festival da comunidade indiana nos EUA teve como ponto alto os discursos do primeiro-ministro indiano e do Presidente dos EUA, numa aliança com os olhos na China e no Paquistão.

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Narendra Modi e Donald Trump juntos no palco, em Houston Jonathan Ernst/REUTERS

Mesmo num país habituado a organizar espectáculos gigantescos e extravagantes, é difícil encontrar uma recepção a um líder político estrangeiro mais apoteótica do que a que foi reservada este domingo ao primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, no maior estádio de Houston, no Texas.

Modi chegou aos EUA no sábado para participar na 74.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, mas a comunidade indiana teve-o só para ela este domingo, em Houston, num festival com o muito texano nome Howdy, Modi! – promovido com cartazes em que o primeiro-ministro indiano e o Presidente norte-americano surgiam com típicos chapéus de cowboys e tudo.

Mas um estádio de futebol americano com 50 mil pessoas a gritar o nome de Modi, ao fim de três horas de música e dança e outras actividades culturais, não dizia tudo sobre a importância da recepção nos EUA ao primeiro-ministro indiano.

Quando subiu ao palco, Modi tinha a esperá-lo uma fila de senadores e congressistas norte-americanos, do Partido Republicano e do Partido Democrata, que tiveram de aguardar a vez para lhe apertar a mão e dar-lhe as boas-vindas ao país – afinal, Modi tinha de acenar à multidão que esperava ansiosamente, há horas, para ver o seu ídolo.

Enquanto isso, Donald Trump ia a caminho de Houston no Air Force One, para se juntar a Narendra Modi no palco do festival. Não é todos os dias que um Presidente norte-americano (mesmo um Presidente habituado a comícios com milhares de pessoas) faz questão de se juntar às festas de uma minoria (especialmente um Presidente com decisões polémicas sobre a imigração).

Mas nem Narendra Modi, nem os quatro milhões de indianos a viver nos EUA são um líder estrangeiro ou uma comunidade qualquer: Modi é uma peça importante na guerra comercial em que os EUA se envolveram com a China, e os eleitores indianos, a maioria mais ricos do que a média nacional e cada vez mais influentes na política americana, são igualmente importantes no caminho para a reeleição de Trump em Novembro de 2020.

Apesar de a relação entre Washington e Nova Deli ter os seus próprios problemas comerciais, que os dois lados esperam melhorar em conversações à margem da Assembleia Geral da ONU, as demonstrações de amizade entre Trump e Modi, dois líderes nacionalistas que atraem multidões gigantescas em comícios e no Twitter, são importantes para ambos.

“Hoje, em Houston, ouvimos o bater do coração desta grande parceria numa celebração das duas maiores democracias do mundo”, disse Modi num discurso marcado por enormes elogios a Trump, a quem chamou “o maior amigo de sempre da Índia na Casa Branca”.

“Sr. Presidente, você apresentou-me à sua família em 2017, e hoje eu tenho a honra de o apresentar à minha família”, disse Modi, olhando para Trump e apontando na direcção da assistência.

Mas a reacção da assistência ao discurso de Trump foi menos entusiasta, principalmente nas partes em que o Presidente norte-americano salientou os resultados das suas políticas nos EUA, da redução dos impostos à descida do desemprego. Apesar de adorarem Modi e as suas reformas económicas que têm aproximado a Índia de um modelo ocidental, a maioria dos indianos nos EUA não apoia o Presidente Trump e a esmagadora maioria deles votou em Hillary Clinton nas presidenciais de 2016.

A frieza foi quebrada pelas referências de Trump à necessidade de se proteger as fronteiras dos EUA e da Índia, e de se combater o “terrorismo islâmico”.

Com estas duas referências, o Presidente norte-americano sinalizou que está ao lado de Modi na disputa da Índia contra o Paquistão sobre a situação na região de Caxemira. Em Agosto, o Governo indiano revogou o estatuto de autonomia de Jammu e Caxemira, o único estado indiano de maioria muçulmana, e anunciou a sua divisão em dois territórios indianos – com o argumento de que é a única solução para pacificar a região e salvá-la da violência provocada por grupos fundamentalistas islâmicos apoiados pelo Paquistão.

Nas imediações do estádio, milhares de pessoas protestavam contra as políticas nacionalistas de Modi, numa manifestação organizada por várias associações indianas, entre as quais a Hindus em Defesa dos Direitos Humanos. 

“Os hindus têm de acordar e perceber o que está a acontecer na Índia”, disse Sunita Viswanath, co-fundadora do grupo, ao canal Al-Jazira. “Não acredito que a maioria dos hindus que estão aqui a apoiar Modi percebam, realmente, até que ponto as forças nacionalistas hindus estão alinhadas com o fascismo.”

Também presente nos EUA para a Assembleia Geral da ONU, o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, deverá encontrar-se na segunda-feira com o Presidente Trump, horas depois de o seu grande rival regional ter sido a estrela do dia no Texas.