Na Escola Pátio da Inês, na Marinha Grande, a importância do ambiente aprende-se no contacto directo com a natureza Francisco Romão Pereira/PÚBLCO
Reportagem

“Por causa do aquecimento global, as tartarugas estão a ganhar borbulhas brancas gigantes!”

No final dos anos 90, a campanha pela reciclagem marcou a educação ambiental nas escolas - e fora dela. Hoje, os estudantes saem à rua em greve climática e pressionam governantes a agir. Nas escolas, da creche à universidade, mudam-se comportamentos e fala-se de aquecimento global, plástico nos oceanos, floresta, biodiversidade. E de cidadania activa.

“A Greta falta às aulas por causa disso!”, diz Sofia, de 7 anos, de braço no ar. Nesta aula do 2.º ano, são muitos os alunos que querem falar sobre o que é isso de aquecimento global e alterações climáticas. “Deitamos o lixo ao mar e ele aquece”, “O fumo das fábricas fura a camada do ozono”, “Por causa do aquecimento global as tartarugas estão a ganhar borbulhas brancas gigantes!”, remata João.

Nesta que foi a primeira semana de regresso às aulas, está ainda viva a memória das actividades do ano passado. “Aqui a educação ambiental começa logo na creche”, diz-nos Isabel Bonita, directora e fundadora da Escola Pátio da Inês, na Marinha Grande. A aprendizagem da separação do lixo, por exemplo, começa aí: “quando comem os primeiros iogurtes têm de ir colocar a embalagem no recipiente certo”, explica.

Localizada numa área residencial fora do centro da Marinha Grande, rodeada de espaços verdes generosos, esta escola privada inclui jardim-de-infância, pré-escolar e 1.º ciclo. Isabel Bonita, de 58 anos, é uma defensora há muito da cidadania ambiental. Quando se mudaram para este espaço, há 16 anos, o primeiro projecto foi a limpeza de uma pequena ribeira que atravessa a escola. “A ribeira das Bernardas estava em muito mau estado”, recorda. “Chamamos-lhe ‘o Bernardo está doente’ e queríamos que ele ficasse bom.” Não raras vezes há descargas poluentes para a ribeira por parte de empresas locais, e a escola lança o alerta à câmara municipal.

No ano passado, dedicaram-se aos oceanos com o tema “Há lixo no mar, há consciências a alterar”. No recreio, as crianças brincam junto a árvores de grande porte que abrigam uma tartaruga feita de tampas de plástico e medusas feitas de chapéus-de-chuva estragados, cordas, copos de iogurte. Lixo que professores, alunos e pais recolheram das praias da zona. Entramos na creche, na sala dos 2 anos. A educadora relata como neste Verão muitas crianças quiseram apanhar lixo na praia. Vicente interrompe: “Eu encontrei uma corda, os peixes iam ficar presos!”. A directora aproveita a deixa: “Meninos, antes de apanhar o lixo é preciso não deitar para o chão”. A educação ambiental nas escolas é muito mais do que reciclagem? “Sim, a reciclagem já está lá ao fundo, agora é recusar, reduzir”, afirma Isabel.

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Francisco Romão Pereira

Educação ambiental: da escola para as ruas

Os resultados do último Inquérito Social Europeu mostram que são justamente as gerações mais novas as mais preocupadas com as alterações climáticas. Mais de 90% considera que a electricidade consumida no país deve ser produzida a partir de fontes renováveis. “Isso também é fruto da educação ambiental nas escolas”, explica Luísa Schmidt, socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que destaca também a influência dos media e das redes sociais.

As escolas devem capacitar com a “ciência, os factos, a história” mas também alertar para os direitos e deveres dos alunos enquanto cidadãos, defende Ana Matos, uma das organizadoras do movimento Parents for Future Portugal. Tem dois filhos, de 6 e 10 anos. “Procuramos, sem assustá-los, prepará-los para a realidade, que é dura de assimilar”, diz. Tem mobilizado pais (e adultos) para apoiar o movimento dos jovens nas ruas: nos últimos dias ultima preparativos para a Semana Mundial pelo Clima, que decorre de 20 a 27 de Setembro, em que os jovens vão sair novamente à rua com protestos. Ana Matos defende que as escolas deveriam tirar partido pedagógico destas mobilizações. “E prepará-los para as adversidades que irão enfrentar no futuro. Penso que este último papel é o que tem sido menos explorado.”

O grande investimento em educação ambiental nas escolas aconteceu no final dos anos 90, quando os Ministérios da Educação, do Emprego e do Ambiente uniram esforços, destacando, por exemplo, professores para esta área. “Deu-se formação e criou-se uma dinâmica que nunca mais parou”, explica Luísa Schmidt. “Mesmo quando os ministros mudam ou os apoios diminuem, as escolas continuam.” Em 2010, no livro Educação Ambiental – balanço e perspectivas para uma agenda mais sustentável, os sociólogos do Instituto de Ciências Sociais Luísa Schmidt, Joaquim Nave e João Guerra concluíam que havia “educação ambiental a mais e educação para o desenvolvimento sustentável a menos”, com pouco envolvimento da comunidade e do “mundo real”.

O estudo não foi actualizado até hoje, reconhece Luísa Schmidt ao PÚBLICO, mas o cenário actual é bem diferente. “Pela vocação de muitos professores, sensibilidade deste ou daquele conselho directivo ou pelo esforço continuado das ONG de Ambiente, a verdade é que as questões ambientais se instalaram nos conteúdos pedagógicos e criaram uma geração mais atenta”, explica. A Estratégia Nacional de Educação ambiental 2020 (ENEA), aprovada em 2017, serviu também para colmatar algumas falhas, afirma a socióloga e investigadora, apostando na transversalidade, quer a nível curricular quer na extensão a agentes importantes que até agora não faziam parte da “rede”, como a polícia ou os militares.

Nas escolas, os projectos extracurriculares sobre sustentabilidade multiplicam-se, promovidos em grande parte pelo poder local. Dos 308 municípios portugueses, 230 fazem parte da rede Eco-Escolas, programa para a acção ambiental com mais de duas décadas. Na Escola Pátio da Inês, na Marinha Grande, a bandeira verde da Eco-Escolas está hasteada há dez anos. “Vamos do jardim-de-infância à universidade”, explica Margarida Gomes, coordenadora do programa. O ensino básico concentra a maior fatia, mas no último ano a adesão do ensino superior aumentou e preparam-se para lançar a iniciativa Eco-Campus. “A educação provoca mudanças lentas. O interesse crescente das universidades é reflexo dessa cidadania ambiental que existe nas escolas”, acredita Margarida Gomes. 

“Parte do nosso trabalho é a convite das escolas que têm os seus projectos com temas definidos”, diz Nuno Sequeira, responsável da Quercus. A Quercus organiza saídas de campo, palestras e workshops para professores, assim como acções onde os alunos participam. O que continua a faltar, defende Luisa Schmidt, é a articulação destas competências com a participação cívica, com as “regras do jogo democrático”.

O Espaço e o Ártico também são da matemática

Na escola secundária de Palmela, quase todos sabem quem é Matilde Alvim, um dos rostos em Portugal da Greve Climática Estudantil. À segunda greve, esvaziou a escola. Ingressou este ano na universidade, em Antropologia, e recorda-se de o ambiente aparecer como tema pela primeira vez no 1.º ciclo. No ensino secundário não escolheu Geografia como opcional, e hoje, diz ao PÚBLICO, sente que lhe fez falta. É, de resto, nas disciplinas de Geografia, Ciências Naturais e Físico-Química que se concentram tópicos como a gestão dos recursos naturais – água, oceanos, pesca, atmosfera, biodiversidade e floresta.

No Referencial de Educação Ambiental para a Sustentabilidade para a Educação Pré-Escolar, Ensino Básico e o Ensino Secundário, publicado em 2018 pelo Ministério da Educação, listam-se como objectivos de aprendizagem no tema Alterações Climáticas conhecer as causas e os impactos e “adoptar comportamentos que visem a adaptação e mitigação face às alterações climáticas.” Matilde confessa que a escola não foi determinante no seu despertar climático. “Mas há uma professora que me inspirou muito, não tanto nesse aspecto, mas mais em ir à luta”, recorda.

Encontramo-nos dias depois com a professora Odília Freitas na escola Secundária de Palmela, numa aula de História com alunos do 12.º ano. “A Matilde ia sempre mais longe”, recorda a professora de 61 anos, “lia muito e trazia artigos sublinhados para as aulas”. No início deste ano, no habitual teste de diagnóstico, perguntou aos alunos qual o tema da actualidade que sentiam ter mais impacto nas suas vidas. Nove em dez alunos escreveram: alterações climáticas.

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Odília Freitas, professora de História na Escola Secundária de Palmela, convoca a actualidade para a sala de aula Vera Moutinho

No programa curricular de História, o tema surge no 3.º período dentro do capítulo “Questões Transnacionais”. Odília tem muitas notas nos rodapés do manual: “Apartheid climático”, “Dumping ambiental”, “Tratado de Paris”. Prefere não seguir à letra o currículo e incluir o tema no desenvolvimento curricular: “A diferença é que o primeiro está morto, o segundo está a acontecer. Não dou o programa como uma lista de compras”, afirma.

Na escola de Palmela, direcção e professores defendem uma maior integração interdisciplinar. No ano passado, as professoras de matemática Helena Capela e Lucinda Martins lideraram projectos na área do ambiente. “Há formações e actividades para professores, mas o que falta é a integração destes temas nos nossos currículos”, defende Helena Capela. “O espaço, as mudanças climáticas, os oceanos: tudo isso podia estar no currículo de matemática”. Por vezes são os pais que não entendem porque é que a professora Helena fala temperatura do Árctico na sala de aula. “Parece que não estou a falar de matemática. Mas estou.”