Foto

Megafone

Sem agricultura — e sem vacas — não se combatem as alterações climáticas

A defesa da agricultura e do mundo rural é a defesa do nosso planeta. Eliminar a bovinicultura em Portugal não é solução para a emergência climática. Pelo contrário. A bovinicultura nacional, pelas características do seu modelo de exploração, faz parte da solução ambiental.

A agricultura é indispensável à vida humana e ao desenvolvimento das sociedades. É assim há milénios. Actualmente, ao mesmo tempo que satisfaz as necessidades alimentares de uma população mundial em crescimento, a agricultura está na linha da frente no combate às alterações climáticas. Sem agricultura e sem agricultores será impossível atingir os objectivos preconizados no Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, pois é a actividade desenvolvida pelo ser humano que mais contribui para a captura de gases com efeito estufa (GEE), especialmente no contexto português, tão marcado por um sistema de produção animal que acontece maioritariamente em regime extensivo. O saldo combinado do sector agroflorestal em Portugal é positivo e representa um sumidouro líquido de emissões. Ou seja, o sector agroflorestal em Portugal, desde 1990 até hoje, sequestrou mais carbono da atmosfera do que aquele que emitiu.

O nosso país localiza-se numa região do Mediterrâneo com solos pobres vocacionados para a pastorícia e pecuária que, juntamente com a nossa floresta — os montados —, se assumem como ecossistemas naturais altamente adaptados à generalidade da produção animal. A criação de animais no nosso tipo de produção é, assim, fulcral para a gestão, não só dos nossos solos, mas também da nossa paisagem e, nesse sentido, um garante de sustentabilidade ambiental e um elemento essencial para a economia rural que urge manter e impulsionar.

A bovinicultura em Portugal decorre maioritariamente em pastagens extensivas biodiversas nas zonas de montado, um ecossistema importantíssimo que tem de ser preservado e expandido, sobretudo por ser uma paisagem em desgaste acelerado, devido ao processo de desertificação em curso. Para este tem contribuído, de forma muito expressiva, a diminuição do teor de matéria orgânica nos solos, decorrentes da exposição solar, da menor precipitação e morte das árvores, tudo fruto das alterações climáticas em curso.

A melhor forma de inverter este cenário – sustentadamente e a longo prazo – é fomentar o crescimento de matéria orgânica no solo. E isso só é possível através do pastoreio, essencialmente de vacas, que estrumam o solo, tornando-o mais fértil e produtivo, mais capaz de armazenar água e, muito importante, porque as raízes das plantas que estes animais comem nessas pastagens mais ricas permitem, através do seu processo de fotossíntese, o armazenamento e retenção de carbono.

Se, desta paisagem, retirarmos os animais, os terrenos ficarão desaproveitados, mais pobres, e as ervas que compõem a pastagem deixam de renovar-se e serão invadidas por matos que, mais tarde e ciclicamente, vão arder. A pecuária é, por isso, essencial para a manutenção dos nossos ecossistemas naturais. Sem animais, só teremos deserto.

A produção animal é também pedra basilar do bem-estar social porque promove o desenvolvimento regional e estimula o crescimento económico. Precisamos de mais pessoas no interior do país. Se houver actividade económica, conseguiremos atrair e fixar população que continuará a fazer a manutenção dos terrenos agrícolas e a cuidar das áreas florestais. No nosso clima, território sem gente é sinónimo de território para arder. É uma realidade dura, mas é assim!

Nos incêndios florestais, a libertação de dióxido de carbono para a atmosfera atinge níveis recorde e deita por terra todo o processo de captura e armazenamento de GEE, além de destruir o rendimento dos proprietários e de colocar em causa o desenvolvimento rural. A defesa da agricultura e do mundo rural é a defesa do nosso planeta. Eliminar a bovinicultura em Portugal não é solução para a emergência climática. Pelo contrário. A bovinicultura nacional, pelas características do seu modelo de exploração, faz parte da solução ambiental.

Por tudo isto nos chocou a atitude da Universidade de Coimbra. Ao invés da decisão errada que tomou, deveria pelo contrário promover o consumo de carne de vaca nacional, ajudando assim a reduzir a pegada ecológica das importações e, simultaneamente, a reforçar um modelo de produção equilibrado e ambientalmente sustentável, protegendo as raças autóctones, as pastagens biodiversas e as populações rurais tão carenciadas.

Não comer carne de vaca por questões alimentares é uma opção e, por isso, deve ser respeitada. Não comer carne de vaca para mitigar as alterações climáticas é outra coisa — e, neste caso, é um erro.