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A legitimação do ódio

Abater ciganos? Liberdade de expressão. Ameaças à integridade física? São apenas ameaças, não é para levar a sério, é liberdade de expressão. Assistimos, dia após dia, à legitimação do ódio, ao destilar de um ódio guardado a sete chaves deste a última tentativa falhada de extermínio da espécie humana.

Nas redes sociais houve quem escrevesse “Eu sou racista com ciganos e tenho orgulho de ser assim. Cigano(s) para mim eram todos abatidos”. O comentário, em resposta à defesa de um pedido de desculpas da parte de Portugal para com a comunidade cigana, é, de acordo com o Ministério Público e na pessoa do procurador-adjunto estagiário Pedro Sousa Ferreira, “a opinião pessoal do seu emitente”, enquadrada no “direito de liberdade de expressão, igualmente com dignidade constitucional”.

Podia acabar de escrever aqui. Devia acabar de escrever aqui. Para quê? Para quê escrever, não me dizem? Para quê comentar? Comentar o quê? O óbvio? Para quê quando o óbvio já não é óbvio? Que uma coisa é a liberdade de expressão, outra é atentar contra quem nos rodeia sem o mínimo respeito pela vida humana. Hoje são os ciganos, amanhã os negros, depois os emigrantes, depois as mulheres e as crianças, depois os homens também e depois todos.

É uma questão de tempo. Fruto das sábias palavras de quem procura dirigir os destinos deste grão de areia cósmico à deriva no espaço sideral, entre Bolsonaros, Trumps e Johnsons, hoje tudo se aceita, tudo se permite, tudo se legitima, tudo se desculpa, tudo se tolera em nome do politicamente correcto e da liberdade de expressão. 

Abater ciganos? Liberdade de expressão. Ameaças à integridade física? São apenas ameaças, não é para levar a sério, é liberdade de expressão. Defender a violação das mulheres? É apenas isso, a defesa da violação e não a violação em si e, por conseguinte, liberdade de expressão. Promoção da supremacia racial? Chamemos-lhe antes publicidade, quem quiser compra e quem a promove é livre de o fazer. Está na Constituição. Ai está? Mude-se a Constituição. Por uma questão de bom senso, antes que nos matemos a todos. 

Já não sei se estou diante de um sketch dos Gato Fedorento ou se isto tudo é mesmo a sério. Se é um sketch, não tem piada nenhuma. Assistimos, dia após dia, à legitimação do ódio, ao destilar de um ódio guardado a sete chaves deste a última tentativa falhada de extermínio da espécie humana em meados da década de 1940 do século passado. Um vulcão adormecido.

Esteve sempre aqui, à frente dos olhos, à vista de todos, desde tempos imemoriais. Somos capazes de melhor, sim, é verdade. Mas hoje não. Hoje vamos matar, o vulcão explodiu e os rios de lava vão encher-se de sangue. Já não vale a pena escrever. A estupidez venceu. A estupidez saiu à rua. Fujam da rua!