Opinião

O Grande Ilusionista

Comemos o que nos dão e o perigo não é só o das fake news. Cada vez mais, é o das non-news escondidas com propósitos sombrios.

O título deste artigo de opinião chegou a estar pensado para o meu último livro de poesia. Acabou por ser outro, mas porventura o tema que sempre me fascinou mais foi o Tempo: essa realidade mensurável imensurável, que tudo condiciona e tudo liberta, plena de paradoxos, que conta os dias das pessoas do nascimento à morte, que ora anda demasiado depressa, ora muito devagar. O tempo cronológico e o psicológico.

Talvez em nenhuma outra era como a nossa – afirmações destas são sempre perigosas, pois se algum incauto ler estas linhas daqui a umas dezenas de anos dirá que o seu tempo é que é, mas cada um sente aquilo que a pele lhe dita – a voracidade das informações e desinformações esteja a conduzir a um mundo tão feio e desinteressante. Um daqueles que apetece combater, por se ficar somente pela espuma dos dias. Claro que não temos de pensar cada gesto quotidiano ao mais ínfimo pormenor – não restariam células cinzentas e suicidar-nos-íamos aos magotes.

Mas o outro extremo conduz a uma sociedade intrinsecamente injusta e que vai adestrando as pessoas como cães de Pavlov a só saberem – ou julgarem saber – o que interessa a uma dada classe dirigente. Isto não é novo, sempre foi assim. Por certo, mas a escala e a frequência aumentam na proporção directa em que as tecnologias da informação e da comunicação descobrem, cada dia, um novo gadget ou software. Pensamos e vivemos por tweets, pelo scroll down do Instagram, Facebook e demais redes sociais, lemos os títulos e o lead de uma notícia ou opinião por não estarmos para, ou não podermos, pagar um jornal online. Trump inaugurou a governação pelo Twitter ou, pelo menos, deu-lhe toda uma nova e indesejada dimensão majestática. O Trump já vomitou um tweet hoje?

Quando se mata barbaramente uma freira e as feministas não dizem uma palavra até que o Bispo do Porto tenha posto o dedo na ferida – e quem diz as feministas, diz todos nós – porque, alegadamente, “não teve eco nas redes sociais”, é o tecido social que está todo doente. Nada tenho contra as feministas congruentes e que não desejam, na verdade, um mundo sem homens, como se a riqueza da vida não estivesse na complementaridade com igualdade de direitos e deveres entre mulheres e homens. As outras são mais uma seita como também as há de machistas inveterados, de membros do Opus Dei, da Maçonaria ou daqueles que desejam que o seu modo de vida ou orientação política, religiosa, sexual, sejam impostos a todos os demais. Isto chama-se ditadura e a isto respondo parafraseando Pinheiro de Azevedo: “não gosto de ser sequestrado; é uma coisa que me chateia, pá!”.

Comemos o que nos dão e o perigo não é só o das fake news mas, cada vez mais, o das non-news escondidas com propósitos sombrios. O que não é partilhado, comentado, objecto de haters e lovers na internet não existe. Razão tem Pacheco Pereira que o disse preto no branco na Circulatura do Quadrado desta semana.

E isto porque nos vamos tornando incapazes de ler um texto mais comprido, mais uma dúzia de palavras, a cultura do efémero e do imediato imperando. Pela primeira vez em quase 20 anos de ensino, há algum tempo, um estudante perguntou-me: “mas para que é que isto me serve?”. A questão é totalmente legítima e reveladora de um pensamento instrumental-estratégico que encontra no funcionalismo sistémico uma grande responsabilidade. O aqui e o agora e tudo tem de ter uma utilidade ao virar da esquina. A minha resposta foi: “porque está no programa e vai fornecer-lhe quadros fundamentais para qualquer profissão jurídica que venha a exercer”. Não convenci o aluno.

Alguém se demite em véspera de eleições e a questão discutida é a da pequena política: porquê, que alegados favores teria pagado. Claro que isto deve ser analisado, mas o cerne é muito mais fundo e atravessa todos os Governos – o “banho de ética” de Rio que, afinal, nem um riacho foi, a “ética republicana” que Soares gostava de apregoar e que Eanes e Sampaio melhor interpretaram em democracia. Era isso que deveríamos estar a discutir: todas as formas de combater a corrupçãozinha endémica, o jeito, a cunha, o favorzito.

Todos somos permeáveis, mas temos o dever de nos auto-disciplinarmos e quem exerce o poder político tem não somente o dever constitucional de legislar sobre o tema, quando necessário, como de assumir um verdadeiro código de conduta que vá muito além do que já existe. Mas foi este Governo que o elaborou – honra lhe seja feita, ainda que pressionado pelo patético caso dos bilhetes para ir ver a bola. Sei bem que a ética, a lisura de comportamentos não se legislam. Educa-se, vive-se, respira-se e espera-se que a sociedade seja cada vez mais intolerante com a sua falta.

Uma nota de esperança: os debates da pré-campanha – para além dos fait-divers da caldeira, de se ser vegan, de não se dominar o conceito de evaporação, condensação e o ciclo da água, os “portantos” repetidos à exaustão, as afirmações que não passam no “Polígrafo” – têm decorrido com urbanidade e, dentro do que o formato permite, têm sido esclarecedores quanto às propostas dos partidos. Desde que haja tempo para os ver. E isto sem prejuízo do lazer, como as séries. Uma coisa não tira o lugar da outra. Já agora, sobre o tempo enquanto categoria filosófica, enquanto condicionante máxima da vida, fica a sugestão da série Dark, uma excelente produção alemã.

Tudo tem o seu tempo e há tempo para tudo. Só não há pachorra para uma certa leviandade reinante, construída por slogans em que se não pensa muito, mas que se repetem como mantras, simplesmente por estarem na moda e querermos parecer cool e pertencentes a um bando.