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Há música no feminino na Casa da Música

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cortesia casa da música
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Matthieu Chedid
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Alertando para a relevância do trabalho de mulheres intérpretes e compositoras, a Casa da Música tem em curso (até 29 de Setembro) o ciclo Música no Feminino, no qual a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música (OSPCdM) e o Remix Ensemble (RE) apresentaram já dois programas inteiramente constituídos por obras de compositoras nascidas no século XX, dirigidos por maestrinas e com mulheres violinistas como solistas. 

Ambos os programas incluíam uma obra de uma compositora portuguesa (relegada para o início do concerto), uma consagrada e outra em ascensão.

O programa da OSPCdM caracterizou-se por um pleno domínio da escrita para orquestra partilhado pelas quatro compositoras. Em cerca de sete minutos, sob a direcção de Joana Carneiro, a OSPCdM revisitou Ricercare, de Clotilde Rosa (1930-2017), compositora que aprendeu orquestração explorando a orquestra enquanto harpista. Seguidamente, a violinista Hyeyoon Park subiu ao palco para interpretar o primeiro concerto para violino e orquestra de Sofia Gubaidulina (1931), Offertorium, obra composta em 1980 (com sucessivas revisões até 1986), que parte do tema da Oferenda musical, de J. S. Bach, evocando, pela sua instrumentação, a leitura que Webern fez da mesma obra no seu Ricercar (1935). Não é difícil aceitar que esta obra tenha conquistado para Gubaidulina grande prestígio internacional: a familiaridade dos reconhecidos elementos melódicos ajudou a conduzir inúmeros ouvintes na exploração de diferentes perspectivas do tema.

Muito aplaudida, a solista conhecida por ter sido a mais jovem vencedora de sempre do Concurso ARD saudou o público do Porto, muito a propósito, com o Andante da Sonata para violino solo em lá menor, BWV 1003.

Depois do intervalo, Kaija Saariaho (1952) assistiu à estreia nacional da sua Ciel d’hiver (2013), obra de bonitas sonoridades que circula (demasiado) lentamente entre registos extremos.

O programa completou-se com Rocaná (2013), da sul coreana Unsuk Chin (1961), levando-nos a saudar o trabalho preparatório que Joana Carneiro desenvolve com a orquestra, já que a sua géstica, por vezes desconcertante, parece não condicionar o resultado obtido em palco.

Terça-feira, foi a maestrina britânica Sian Edwards quem dirigiu o agrupamento da CdM mais especializado no repertório contemporâneo, fazendo ouvir em estreia absoluta a encomenda que a instituição fez à portuguesa Ângela da Ponte (1984). Para agrupamento e electrónica, State of(f) Emergencies (2019) vive de uma exploração tímbrica que integra o ruído no discurso musical, trabalho em que a compositora faz uma boa gestão do tempo. Infelizmente, a constrição do público à primeira plateia fez com que parte significativa de quem assistia não pudesse usufruir da melhor panorâmica. Seguiu-se Graal Théâtre, que a finlandesa Kaija Saariaho havia já composto em 1992, com a violinista Carolin Widmann como solista.

A segunda parte abriu com uma estreia (nacional) que contrastou com a da primeira, sobretudo pelo seu contexto de criação. Não são só a experiência e a constante presença nos grandes centros musicais que fazem com que a música de Rebecca Saunders (1967) soe aparentemente mais sofisticada do que a obra em estreia absoluta de Ângela da Ponte. O facto de Scar (2018-19) resultar de uma encomenda conjunta da Casa da Música e diversos importantes festivais como o Acht Brücken, Huddersfield Contemporary Music Festival e o Festival d’Automne à Paris, entre outros organismos, diz muito sobre a abismal distância da realidade de ambas e sobre a urgência de repensar o apoio à criação de autores portugueses. Menos imediata do que Gougalon, cenas de um teatro de rua (2009/11), de Unsuk Chin, que quase levou o público a dançar, Scar é uma obra estimulante, que prende a atenção do ouvinte na exploração de diversas combinações tímbricas, em que a componente espacial assume um papel discreto, mas relevante.

O ciclo prossegue esta sexta-feira com mais mulheres a descobrir, destacando-se a manhã de sábado com a rara projecção sonora de obras acusmáticas de Daphne Oram, Delia Derbyshire e Kaija Saariaho (10h00).

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