Opinião

Ignorância e arrogância

Quando alguém acusa outro de envelhecer, é porque não percebeu que o próprio, esse sim, envelheceu de espírito.

Foi com absoluta estupefação que li, na edição do jornal Expresso de 7 de Setembro de 2019, em sede de opinião, subscrita por Francisco Louçã, o seguinte: “As melhores das nossas tradições estão a morrer. O Vasco [leia-se Vasco Pulido Valente] envelheceu e já não é o que era.”

A afirmação é feita em termos depreciativos, como dela literalmente resulta. Pois, é evidente que desde que nascemos, envelhecemos. O dr. Francisco Louçã parece entender, qual divindade, que não envelhece, como todos nós. Ora, Francisco Louçã também envelhece, porque é como todos nós, ao contrário do que parece entender.

Só mesmo em sede de ficção é que tal não sucede. Francisco Louçã parece ter entrado numa estranha ficção, desde a infeliz frase referente a Vasco Pulido Valente até à frase em que refere que as melhores tradições estão a morrer. Quando fala das melhores tradições e, portanto, do passado, a referência não deixa de causar estranheza. A que se refere? Não seguramente às tradições monárquicas ou democráticas. Ou então mudou de ideias, a menos que se sinta na pele de um príncipe renascentista. O mais provável é referir-se às tradições revolucionárias e sangrentas do século XIX e a muitas das piores do século XX.

O seu pensamento foi e é conhecido e não me parece que enalteça a Liberdade. Sempre defendeu totalitarismos e este artigo, a que me refiro, bem o demonstra. Mas o envelhecimento não significa o que maldosamente afirma sobre Vasco Pulido Valente.

Ora, na maior parte dos casos, o andamento da Vida traz sabedoria, conhecimento. Daí que em tantas culturas, que por certo lhe serão alheias, o mais Velho é o mais sábio ou considerado.

Além disso, Francisco Louçã já não é tão “novo” assim, à luz da sua própria lógica, para que possa considerar os demais “velhos”. E qual é o problema? Impede-o de pensar? Pela sua teoria sim, mas aparentemente considera que não envelhece, ao contrário de todos nós, qual deus greco-romano.

Francisco Louçã é, aliás, privilegiado no seu processo de caminho de vida, o que estende a quem bem entende. Começando pelo próprio, é, aliás, um privilegiado no seu processo do passar dos anos. Aprendeu muito bem com o passar dos anos: pertence ao Conselho de Estado e é membro do conselho consultivo do Banco de Portugal, essa coisa capitalista que tanto criticou.

E, qual ética dinástica suprema, a sua filha já tem emprego na política e é paga pelos contribuintes, conforme artigo publicado na edição de 2 de Agosto de 2019 da revista Sábado, com o título: “Filha de Louçã foi contratada pelo BE e é paga pelo Parlamento”, não se sabendo quanto ganha.

Já sua mãe assessorara o grupo parlamentar do BE, com a categoria de assessora (Despacho n.º 5296/2010, publicado em Diário da República, embora sem remuneração), e em 2016 foi vogal no concurso de recrutamento e selecção de juízes de paz.

Ética republicana? Ser velho nada tem a ver com as ideias que o dr. Louçã defende. Vive, insisto, ideologicamente no século XIX e com muito do pior do século XX.

Vasco Pulido Valente continua lúcido (para desespero de muitos) na análise quotidiana. É jovem de cérebro, não alguém que pensa como há três séculos e muito livre (de resto, abandonou aquilo a que alguns chamariam “tacho político” pelo seu próprio pé, que não é tacho político, mas enfim).

Quando alguém acusa outro de envelhecer, é porque não percebeu que o próprio, esse sim, envelheceu de espírito, porque no mais, esse é o destino humano. Qualquer um pode perder faculdades, com maior ou menor idade, como perder-se na vida, coisa que, neste último caso, Louçã soube bem evitar.

Preocupe-se Louçã com o Estatuto do Idoso, daqueles que não se podem defender, que são objecto de violência, e que o BE, de que é mentor, inviabilizou, com a ajuda especial do PCP, e deixe lá a lógica totalitária de atacar quem não concorde consigo, como sucede nos regimes que o seu partido tantas vezes apoiou.

Haja liberdade.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico