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A vida nos colonatos da Cisjordânia: “Não importa onde estamos, Israel controla tudo”

Até hoje, Israel construiu mais de 120 colonatos na Cisjordânia. Se há colonos que vivem nestes locais por motivos ideológicos, outros apenas procuram um local mais barato para viver. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu voltou a prometer anexar o Vale do Jordão como promessa eleitoral, o que tem alarmado os palestinianos que ali vivem. Os dois lados do conflito pela Reuters.

Ali Farun, 74 anos, gesticula numa rua de al-Eizariya, a cidade palestiniana que é vizinha do colonato Ma'ale Adumim, que vemos em segundo plano. "Pouco interessa se eles anexam Ma'ale Adumim a Jerusalém ou se permanece território da Cisjordânia; eles controlam tudo, de uma forma ou de outra", disse à Reuters REUTERS
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Ali Farun, 74 anos, gesticula numa rua de al-Eizariya, a cidade palestiniana que é vizinha do colonato Ma'ale Adumim, que vemos em segundo plano. "Pouco interessa se eles anexam Ma'ale Adumim a Jerusalém ou se permanece território da Cisjordânia; eles controlam tudo, de uma forma ou de outra", disse à Reuters REUTERS

O palestiniano Ali Farun diz à Reuters, com revolta: "Pouco interessa se eles anexam Ma'ale Adumim [o terceiro maior colonato israelita na Cisjordânia] a Jerusalém ou se permanece território da Cisjordânia. Eles controlam tudo, de uma forma ou de outra." 

As diferenças são bem visíveis. Entre 1997 e 2018, as imagens de satélite obtidas pela Reuters do território da Cisjordânia mostram uma área que se tornou praticamente irreconhecível. Ao longo dos anos, segundo dados da agência noticiosa, Israel construiu mais de 120 colonatos na Cisjordânia; o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu prometeu, nas últimas eleições, anexá-los a Israel. E agora, para as eleições legislativas de 17 de Setembro, reiterou a promessa de anexar o Vale do Jordão, alarmando os palestinianos. A Reuters afirma também que a maior parte da comunidade internacional considera os colonatos ilegais e que esses são o maior obstáculo ao processo de paz israelo-palestiniano. Uma visão que Israel rebate

O povo judeu já habita naquela região desde tempos bíblicos, afirma Mike Nasser, artista americano de 63 anos, que vive em Ofra, um dos primeiros colonatos a estabelecer-se na Cisjordânia, em 1967. "É ridículo dizer que os judeus não podem viver aqui", realça. "Podem perguntar a quem quiserem: é fácil perder a ligação com os antepassados e com a terra onde viveram? É óbvio que não. Foi a História que criou o povo judeu. E a Bíblia tem tudo a ver com isto." Do outro lado da rua vive Azmir Musleh, que não tem dúvidas ao afirmar que a terra pertencia aos seus antepassados árabes e foi roubada. "Esta terra é o meu corpo e a minha alma. É o coração e alma da minha família. O meu pai, o pai do meu pai e o pai dele já plantavam sésamo, figueiras, oliveiras." 

Nem todos os que vivem nos colonatos israelitas o fazem por ideologia. Há quem procure apenas um local barato para viver. Para a maioria, os colonatos contíguos a território israelita são parte de Israel e não ilhas israelitas perdidas na Cisjordânia. Michele Coven-Wolgen, que vive no colonato Ma'ale Adumim, acredita que a sua cidade, "que tem até um centro comercial", deveria ser simplesmente anexada a Israel. Afinal, a vida no colonato pouco difere de outra cidade israelita. As escolas são boas, o transporte para Israel é muito acessível. Em todo o caso, quem lá vive mantém a versão de que a presença judaica na Cisjordânia é apenas o cumprimento de uma promessa bíblica, transmitida por Deus.

"Este território pertence ao povo de Israel, não tenho quaisquer dúvidas", afirma peremptoriamente Itai Zar, o fundador do colonato Havat Gilad, na Cisjordânia, em 2002, onde hoje residem cerca de 50 famílias. O seu irmão foi morto por militantes palestinianos antes da fundação. "Há 18 anos viemos para cá, éramos apenas uma família, e hoje somos uma comunidade próspera." Por outro lado, a partir da aldeia palestiniana Sarra, Bothena Turabe, palestiniana de 43 anos, testemunhou o lento mas progressivo crescimento de Havat Gilad. "Durante a noite, olhas e parece que não há lá nada. Na manhã seguinte olhas e vês mais caravanas. Esta terra não é vossa, vocês estão a roubá-la."

Beitar Illit é o colonato em território palestiniano que apresenta um ritmo de crescimento mais acelerado e é casa de uma crescente comunidade de judeus ultra-ortodoxos. É, mais uma vez, o argumento financeiro que traz a maioria para este colonato feito à base de betão e alcatrão — e não à base de cabanas e estradas de terra, como é o caso de Havat Gilad. Blocos residenciais, numerosos e densos, são a casa de uma comunidade composta por famílias numerosas. "Não viemos para cá por razões de ordem ideológica", garante à Reuters um comerciante de Beitar Illit. "Seria impossível para nós conseguir comprar casa noutro lugar que não em colonatos." Para Mohammad Awad, agricultor de 64 anos a viver em Wada Fukin, uma aldeia palestiniana vizinha, é irrelevante o motivo que leva alguém a mudar-se para um colonato. "É impossível haver paz entre as duas partes porque no centro do conflito está um pedaço de terra que foi tomado à força. Como é que eu posso deixar alguém roubar a minha terra, continuar a viver nela e a desfrutar e, ao mesmo tempo, conviver pacificamente com o ladrão?"

Imagens aéreas do colonato de Ofra. Do lado esquerdo, 1997; do lado direito, 2014
Imagens aéreas do colonato de Ofra. Do lado esquerdo, 1997; do lado direito, 2014 REUTERS
Ofra, um dos primeiros colonatos israelitas em território palestiniano. Foi fundado em 1967, logo após a guerra no Médio Oriente
Ofra, um dos primeiros colonatos israelitas em território palestiniano. Foi fundado em 1967, logo após a guerra no Médio Oriente REUTERS
Palestiniano Azmi Musleh, 53 anos, segura um coelho e passa tempo com a filha e o neto no seu pátio na aldeia Ein Yabrud, junto ao colonato de Ofra. "Esta terra é o meu corpo e a minha alma. É o coração e alma da minha família. O meu pai, o pai do meu pai e o pai dele já plantavam sésamo, figueiras, oliveiras."
Palestiniano Azmi Musleh, 53 anos, segura um coelho e passa tempo com a filha e o neto no seu pátio na aldeia Ein Yabrud, junto ao colonato de Ofra. "Esta terra é o meu corpo e a minha alma. É o coração e alma da minha família. O meu pai, o pai do meu pai e o pai dele já plantavam sésamo, figueiras, oliveiras." REUTERS
Homem estuda num seminário judeu no colonato de Ofra
Homem estuda num seminário judeu no colonato de Ofra REUTERS
Michael Netzer, de 63 anos, é um artista de banda desenhada americano que se chamava Mike Nasser. Vive no colonato Ofra, na Cisjordânia, um dos primeiros colonatos a estabelecer-se no território palestiniano, em 1967. "É ridículo dizer que os judeus não podem viver aqui. Podem perguntar a quem quiserem: é fácil perder a ligação com os antepassados e com a terra onde viveram? É óbvio que não. Foi a História que criou o povo judeu. E a Bíblia tem tudo a ver com isso."
Michael Netzer, de 63 anos, é um artista de banda desenhada americano que se chamava Mike Nasser. Vive no colonato Ofra, na Cisjordânia, um dos primeiros colonatos a estabelecer-se no território palestiniano, em 1967. "É ridículo dizer que os judeus não podem viver aqui. Podem perguntar a quem quiserem: é fácil perder a ligação com os antepassados e com a terra onde viveram? É óbvio que não. Foi a História que criou o povo judeu. E a Bíblia tem tudo a ver com isso." REUTERS
Homens judeus junto a uma carrinha numa bomba de gasolina, em Ofra
Homens judeus junto a uma carrinha numa bomba de gasolina, em Ofra REUTERS
Homem israelita conserta um velho Mustang, em Ofra
Homem israelita conserta um velho Mustang, em Ofra REUTERS
Familia israelita passa o seu tempo no jardim, no colonato de Ofra
Familia israelita passa o seu tempo no jardim, no colonato de Ofra REUTERS
Soldado israelita e uma mulher conversam junto à zona comercial de Ofra
Soldado israelita e uma mulher conversam junto à zona comercial de Ofra REUTERS
Vista sobre o colonato de Ofra
Vista sobre o colonato de Ofra REUTERS
Vista mostra casas de palestinianos na aldeia de Ein Yabrud, vizinha do colonato Ofra.
Vista mostra casas de palestinianos na aldeia de Ein Yabrud, vizinha do colonato Ofra. REUTERS
Imagens aéreas do colonato Ma'ale Adumim. Do lado esquerdo, 1997; do lado direito, 2018
Imagens aéreas do colonato Ma'ale Adumim. Do lado esquerdo, 1997; do lado direito, 2018 REUTERS
Vista geral sobre Ma'ale Adumim, um grande colonato nos arredores de Jerusalém
Vista geral sobre Ma'ale Adumim, um grande colonato nos arredores de Jerusalém REUTERS
Parte do seu apelo, para muitos residentes, deve-se ao baixo custo da habitação nas imediações de Jerusalém.
Parte do seu apelo, para muitos residentes, deve-se ao baixo custo da habitação nas imediações de Jerusalém. REUTERS
Ali Farun, palestiniano de 74 anos, encontra-se junto à barreira entre Israel e a sua aldeia, al-Eizariya, perto do colonato Ma'ale Adumim, na Cisjordânia.
Ali Farun, palestiniano de 74 anos, encontra-se junto à barreira entre Israel e a sua aldeia, al-Eizariya, perto do colonato Ma'ale Adumim, na Cisjordânia. REUTERS
Crianças palestinianas brincam no exterior em al-Eizariya, junto à fronteira com o colonato de Ma'ale Adumim.
Crianças palestinianas brincam no exterior em al-Eizariya, junto à fronteira com o colonato de Ma'ale Adumim. REUTERS
Michele Coven-Wolgel, de 60 anos, vai dar um passeio com a sua filha em Ma'ale Adumim. "Não sinto que viva num colonato", disse à Reuters. "Se deveríamos ser anexados? Sim, somos uma cidade de 41 mil habitantes, até temos um centro comercial."
Michele Coven-Wolgel, de 60 anos, vai dar um passeio com a sua filha em Ma'ale Adumim. "Não sinto que viva num colonato", disse à Reuters. "Se deveríamos ser anexados? Sim, somos uma cidade de 41 mil habitantes, até temos um centro comercial." REUTERS
Vista geral mostra uma piscina pública em Ma'ale Adumim.
Vista geral mostra uma piscina pública em Ma'ale Adumim. REUTERS
Israelitas divertem-se na piscina pública de Ma'ale Adumim.
Israelitas divertem-se na piscina pública de Ma'ale Adumim. REUTERS
Imagens aéreas do colonato Havat Gilad. Do lado esquerdo, 2002; do lado direito, 2018
Imagens aéreas do colonato Havat Gilad. Do lado esquerdo, 2002; do lado direito, 2018 REUTERS
Há casas na vista geral da paisagem a partir do colonato Havat Gilad, onde vivem cerca de 50 famílias.
Há casas na vista geral da paisagem a partir do colonato Havat Gilad, onde vivem cerca de 50 famílias. REUTERS
Bothena Turabe, palestiniana de 47 anos, fala ao telefone na sua casa, local onde trabalha, na aldeia de Sarra, junto ao colonato de Havat Gilad, na Cisjordânia. Assistiu ao crescimento do colonato. "Durante a noite, olhas e parece que não há lá nada. Na manhã seguinte olhas e vês mais caravanas. "Esta terra não é vossa, vocês estão a roubá-la."
Bothena Turabe, palestiniana de 47 anos, fala ao telefone na sua casa, local onde trabalha, na aldeia de Sarra, junto ao colonato de Havat Gilad, na Cisjordânia. Assistiu ao crescimento do colonato. "Durante a noite, olhas e parece que não há lá nada. Na manhã seguinte olhas e vês mais caravanas. "Esta terra não é vossa, vocês estão a roubá-la." REUTERS
Crianças brincam no colonato de Havat Gilad.
Crianças brincam no colonato de Havat Gilad. REUTERS
Homem trabalha na construção de uma casa, em Havat Gilad.
Homem trabalha na construção de uma casa, em Havat Gilad. REUTERS
Itai Zar, de 43 anos, e Bat-Zion Zar, de 41, fundaram o colonato Havat Gilad. Conversam na cozinha da sua casa, em território ocupado ilegalmente. "Este território pertence ao povo de Israel, não tenho quaisquer dúvidas", disse à Reuters. Fundou o colonato na sequência do assassinato do seu irmão. "Há 18 anos viemos para cá, éramos apenas uma família e hoje somos uma comunidade próspera."
Itai Zar, de 43 anos, e Bat-Zion Zar, de 41, fundaram o colonato Havat Gilad. Conversam na cozinha da sua casa, em território ocupado ilegalmente. "Este território pertence ao povo de Israel, não tenho quaisquer dúvidas", disse à Reuters. Fundou o colonato na sequência do assassinato do seu irmão. "Há 18 anos viemos para cá, éramos apenas uma família e hoje somos uma comunidade próspera." REUTERS
Imagens aéreas do colonato Beitar Illit. Do lado esquerdo, 1997; do lado direito, 2018. Beitar Illit foi fundada nos anos 90 para residencia da comunidade judia ultra-ortodoxa. É uma das mais prósperas da Cisjordânia
Imagens aéreas do colonato Beitar Illit. Do lado esquerdo, 1997; do lado direito, 2018. Beitar Illit foi fundada nos anos 90 para residencia da comunidade judia ultra-ortodoxa. É uma das mais prósperas da Cisjordânia REUTERS
Judeus ultra-ortodoxos estudam dentro de uma sinagoga no colonato de Beitar Illit, na Cisjordânia
Judeus ultra-ortodoxos estudam dentro de uma sinagoga no colonato de Beitar Illit, na Cisjordânia REUTERS
David Hamburger, de 36 anos, um judeu ultra-ortodoxo, trabalha na sua loja, em Beitar Illit, na Cisjordânia. "Não estamos cá por motivos de ordem ideológica", disse à Reuters. "Seria impossível para nós comprar casa fora de um colonato."
David Hamburger, de 36 anos, um judeu ultra-ortodoxo, trabalha na sua loja, em Beitar Illit, na Cisjordânia. "Não estamos cá por motivos de ordem ideológica", disse à Reuters. "Seria impossível para nós comprar casa fora de um colonato." REUTERS
Um rapaz anda de bicicleta no colonato de Beitar Illit.
Um rapaz anda de bicicleta no colonato de Beitar Illit. REUTERS
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