Opinião

Neofeminismo radical e liberdade artística: Tarantino na lista negra

Promover barreiras à liberdade de criação com apelo a boicotes pode corresponder ao ovo da serpente de uma nova censura cultural, intolerável e antidemocrática, da qual a humanidade já experimentou o fel.

O feminismo deve muito ao empenho e clarividência de mulheres inteligentes e corajosas de diferentes épocas e também à luta contínua de colectivos politicamente organizados, a partir do que veio a chamar-se a primeira e segunda vaga da luta feminista. Desde Christine Pizan, Olympe de Gouges, Mary  Wollstonecraft até ao presente, o caminho é longo.

Na ciência, no campo artístico, na política e nos negócios, destacaram-se mulheres que pelo seu valor, inteligência e capacidade profissional, derrubando ideias instaladas de superioridade masculina, deram também notável contributo para a consagração da igualdade de direitos.

Mais recentemente, no que é considerada a terceira vaga de feminismo, milita uma facção de fundamentalistas radicais, cujas intervenções, por vezes ridículas, podem tornar banal e irrisória a causa da igualdade de género, nas vertentes ainda não consolidadas.

Entendem estas neofeministas radicais – resumidamente – que a descriminação sofrida pelas mulheres resulta do domínio do homem, predominantemente branco e rico, na arquitectura jurídica das sociedades. Sexo, género e a sexualidade são para esta corrente construções sociais de poder masculino, com vista à perpetuação de relações hierárquicas dominantes, da perpetuação da inferiorização das mulheres e agora também dos já estabelecidos novigéneros minoritários.

A sua caracterização como radicais não tem conexão directa com os seus a priori, mas sim com as formas de luta verrinosa e crispada que empreendem para se fazerem notar e imporem os seus ideais.

Não é que o capítulo da igualdade de género esteja já visto, lido e respigado, porque há ainda muito a fazer, sobretudo em comunidades onde os direitos humanos e, particularmente, os das mulheres não abarcam o mesmo conteúdo garantido nas democracias ocidentais.

Já é mais duvidoso que se alcancem resultados equilibrados recorrendo constantemente à crítica virulenta, hiperbolizada e irracional, contra linguagens e expressões artísticas em que a mulher não seja tratada numa versão de proeminência absoluta.

O exagero, que vislumbra nas trivialidades a perpetuação deliberada e dolosa de estereótipos de género do antigamente, como sucedeu com a artificial polémica dos caderninhos de exercícios escolares, alegadamente discriminatórios e rebaixantes para as meninas, é absolutamente contraproducente, como bem demonstrou um famoso humorista, ao desmontar esta polémica de forma hilariante.

O próprio substantivo “Mulher”, segundo as neoradicais, é obsoleto, porque limitador, já que se refere exclusivamente à “mulher branca, cisgénero e heterossexual”. Estou em crer que muitas mulheres desconhecem a nova e longa descrição que o rigor feminista demanda seja utilizado na definição social do que é o género feminino.

Há estereótipos indesejáveis, é verdade, mas têm vindo a extinguir-se pela própria dinâmica social, onde já não cabem, de todo. A representação cénica da mãe de família, de tacões e avental, cabelo cor de maionaise​ muito penteado, maquilhagem impecável, movimentando-se da cozinha para a sala com a terrina da sopa a fumegar, desapareceu de todo.

E o atraente cowboy da Marlboro, no seu cavalo de estirpe, está out não só pelo cigarro, mas sobretudo, acredita-se, porque as rédeas que segura se tornaram um símbolo inadmissível de domínio!

A publicidade é uma das várias formas comunicacionais em que a criatividade lança mão da inteligência dos destinatários da mensagem, utilizando sofisticados recursos linguísticos e imagéticos de base social e emocional. É duvidoso que a publicidade possa prescindir de salientar características que associamos, ou à feminilidade, ou à masculinidade, quando o objectivo é chamar à atenção para a disponibilização de um produto comercial e respectivas características, convencendo consumidores a adquiri-lo, através de mensagens concisas e atractivas.

Se, doravante, a publicidade tiver de passar sempre pela refinadora do sexismo (não a do A. O’Neill), creio que perderá altura criativa e utilidade comercial.

O alvo mais recente da cruzada feminista radical é o realizador Quentin Tarantino. Sob o mote da crítica ao seu último grande êxito Once upon a time in…Hollywood, no jornal The Guardian, um tal Roy Chacko escreveu um artigo de opinião com o título “Why it’s time to cancel Q. Tarantino” e no jornal The New York Post a crítica de cinema Sara Stewart sentencia: “Q. Tarantino’s exploitation has no place in Hollywood.” Como se vê, todo um programa censório e de expulsão, concentrado nos títulos dos dois textos.

Parece que Tarantino “estava mesmo a pedi-las”, porque não só fez vários filmes produzidos por H. Weinstein, como tem vindo a exagerar cenas de violência contra mulheres nos seus filmes, e nem sequer arranjou um duplo para Uma Thurman numas cenas acrobáticas de Kill Bill, levando-a sofrer uma entorse. Além disso, admira e elogia o seu colega Roman Polanski.

Segundo esses artigos, é inadmissível que Tarantino tenha introduzido personagens femininas sujeitas a enorme violência e tenha remetido a personagem Sharon Tate, que se augurava central, para intervenções curtas e laterais, enquanto Brad Pitt e DiCaprio preenchem o ecrã, encarnando brilhantemente figuras masculinas preponderantes, cheias de força e graça!

Como atenuante, concedem os críticos, Tarantino tem a seu favor o facto de ter tratado bem as mulheres com as personagens de Beatrix Kiddo de Kill Bill e em Jackie Brown, recortando tipos femininos fortes e poderosos, que são o centro da trama.

Serão estas críticas levadas a sério por muita gente? Espera-se que não, mas a ideologia subjacente, originária e/ou coincidente com a da brigada feminista radical, no sentido de que, se as mulheres não são representadas com preponderância, cheias de força e poder, estão a ser vítimas de sexismo para perpetuação do poder masculino, tem feito o seu caminho, nas redes sociais rápidas e mortais como um míssil 9M729.

Qualquer expressão artística tem a liberdade como pressuposto universal insofismável. Promover barreiras à liberdade de criação com apelo a boicotes e banimento pode corresponder ao ovo da serpente de uma nova censura cultural, intolerável e antidemocrática, da qual a humanidade já experimentou o fel. Criação artística vinculada, balizada por ideais impostos, não, não queremos.

Temos visto ultimamente tentativas de censura e boicote relativamente à criação artística de diferentes personalidades de várias áreas. Recordo, apenas a título de exemplo, a movimentação para se retirar do Met de Nova Iorque o quadro de Balthus Teresa que sonha, e o coro de maldição a Chico Buarque, por causa da letra de uma das canções do seu último álbum, obrigando-o a defender-se como talvez nunca tivesse imaginado, ele que tanto exaltou e elevou o feminino, em toda a sua vasta e variada obra artística.

Podia aqui citar declarações, protestos, anátemas, dos grupos radicais feministas em apoio do que escrevi, mas qualquer um as tem à distância de uma pesquisa na Net. Fico-me pela afirmação de uma jovem ilustradora de nome artístico Sahr, em entrevista a uma publicação da especialidade: “A interacção do feminismo com a arte fará com que a história deixe de ser escrita por homens.” Pois, estranhamos, pensávamos que a história deveria ser escrita a quatro mãos.

Caberá à educação, à instrução, à cultura e até ao direito capacitar cada cidadão para que respeite os demais, nas suas diferenças. Não será a censura permanente, a imposição ideológica por coacção, que vão corrigir os desequilíbrios da sociedade moderna.