Jerónimo, do “bom bife” no prato à preocupação interna com ajuda ao Governo PS

Comunistas emitiram nas redes sociais e no site da CDU uma entrevista a Jerónimo de Sousa ao mesmo tempo que Costa e Rio debatiam na TV.

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Pedro Fazeres

A estratégia da CDU era assumida: lançar uma entrevista a Jerónimo de Sousa em cima do debate de António Costa e Rui Rio nas três televisões de sinal aberto como forma de protesto. Foi isso que fez nas plataformas digitais, transmitindo a partir das 21h20 no seu site, no Youtube, no Facebook e no Twitter uma entrevista ao líder comunista que fora gravada horas antes, ao final da tarde. Dificuldades técnicas atrasaram a emissão uns 20 minutos e no final, perto das 22h, tinha registado cerca de 1800 visualizações em directo.

Foi Jerónimo quem começou por justificar este gesto dos comunistas, argumentando que recusara participar nos debates das televisões pagas, com André Silva, Assunção Cristas e Catarina Martins devido à “óbvia a discriminação” de as três TV entrevistarem Costa e Rio e relegarem para o cabo os outros debates. “Cria a ideia de que há partidos de primeira e de segunda, com desigualdade e discriminação. Não podíamos pactuar com isto.”

No site, a CDU tinha convidado os cidadãos a participarem com perguntas para o secretário-geral comunista “para dar voz à alternativa” e furar a “discriminação” de que a candidatura da CDU e dos outros pequenos partidos estão a ser alvo, ao passo que "Dupont e Dupond, aliás, Rio e Costa” tinham toda a disponibilidade da RTP, SIC e TVI.​

Questionado sobre os custos internos e as resistências no interior do PCP por dar apoio à solução governativa que permitiu ao PS chegar ao poder, admitiu que “haja um ou outro descontente, com dúvidas ou preocupados”, porque se tratou de um “processo complicado”. Para justificar que esse apoio vem das bases do partido realçou que foi uma decisão do comité central e da direcção do PCP, mas também uma “orientação determinada pelo congresso e pelos militantes que nele participaram”.

“Dizer que vamos sofrer consequências, diga-se em abono da justiça, se foi pelo que fizemos teríamos um resultadão a 6 de Outubro”, ironizou, contando que na rua o sentimento entre os militantes é de “satisfação” por considerarem “ter valido a pena pelos avanços alcançados”.

Sobre o termo “geringonça”, lembrou a sua génese de direita e o tom jocoso. “Chamem-lhe o que quiserem; foi uma solução política para a qual contribuímos, mas com resultados”, congratulou-se. E quando chegou a altura de falar sobre uma eventual participação num Governo de coligação, refugiou-se na sua habitual resposta de “governar com que programa, para quê e para quem?”

PSD e CDS foram a “sombra protectora” do PS

Com perguntas da jornalista e outras apresentadas como de cidadãos, Jerónimo foi defendendo as propostas do PCP aprovadas nestes anos e apresentando as que agora coloca numa lista de 30 medidas de “urgência nacional” para a próxima legislatura, que têm na sua base o aumento geral de salários, com o salário mínimo em 850 euros, mas também a rede de creches públicas e o abono de família universal.

Defendeu que há dinheiro no tecido empresarial para pagar tais salários, incluindo entre as micro, médias e pequenas empresas – o problema dessas “não são os salários de 600 ou 800 euros mas as dificuldades de acesso a crédito da banca, as questões fiscais, o escoamento da produção”. 

Lamentou os maus avanços nas áreas laboral, do táxi e PPP, em que “o PS procurou a sombra protectora e o pronto-socorro do PSD e CDS”. E criticou a submissão dos socialistas à “guarda pretoriana” da União Europeia que impõe limites ao défice (de 3%) que o PS até ultrapassa em muito (fixando-o em 0,2%) – são 200 milhões de euros de investimento a menos por cada décima que o Governo encolhe no limite do défice.

Recusou responsabilidade do PCP na existência de uma excessiva carga fiscal, alegando que o que existe é “injustiça fiscal”, e defendeu a taxação de quem tem muito património e dos grandes lucros das empresas provenientes da robotização. O problema dos cofres do país é que actualmente “quem muito tem pouca paga e quem pouco tem muito paga. É preciso aqui uma alteração”, afirmou, vincando não ser uma “barbaridade” que os que mais têm ajudem a pagar a Segurança Social e medidas como o abono de família e as creches gratuitas para todas as crianças até aos três anos.

O líder comunista também contrariou a ideia de que o seu partido terá alguma culpa pela falta de investimento nos serviços públicos. Adiantou que a bancada do PCP fez muitas propostas nos vários orçamentos para investimentos e que propôs o fim das cativações na Saúde, mas admitiu que isso não é suficiente para obrigar o dinheiro a chegar onde é preciso. “Nós acabámos com as cativações, mas a verdade é que as orientações rígidas do Ministério das Finanças... primeiro que se desembrulhem para concretizar o investimento, como no Serviço Nacional de Saúde, é uma carga de trabalhos!”, desabafou.

Sobre a concorrência do PAN e a moda ambientalista que contagiou vários partidos nos últimos tempos, Jerónimo afirmou, divertido: “Eu também gosto de vegetais, mas alguns dirão ‘um bom bife também calha bem’.” A intenção era criticar propostas de proibição de produção de leite e de carne com os argumentos do impacto negativo destes sectores para o ambiente. “Ouvi um candidato que agora descobriu a ecologia dizer ‘elimine-se a produção de carne e de leite’. Está a dizer ao povo açoriano que o melhor é fechar as ilhas e vir embora. O caminho é outro: ter preocupação com as culturas intensivas, mas é preciso a sustentabilidade”, apontou. “Também gosto dos animais e de os promover, mas não concordo que se subverta o relacionamento do homem com os animais.”

O “malabarismo político” do PS na Cultura

Jerónimo classifica a promessa eleitoral do PS de dar 2% do PIB para a Cultura como um “malabarismo político” porque junta todo o dinheiro no mesmo saco, incluindo os mais de 200 milhões de euros do orçamento da RTP, quando o que se pretende é contabilizar apenas as artes. Sobre a questão da paridade entre homens e mulheres, o líder comunista recusou “imposições”, mas salientou que as listas da CDU têm 48% de mulheres. Porque “ser-se mulher não é condição para ter consciência de classe – e é isso que marca a diferença”, afirmou, lembrando que “o plenário (da Assembleia da República) com mais mulheres eleitas votou contra a legalização do aborto”.