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Carta ao jovem que desabafa

Por tudo isto, jovem, não desabafes, a escrita é apenas um escape, acaba o curso e dá um pontapé à vida enquanto as fronteiras estão abertas.

O jovem que desabafa já não sai de Portugal há um ano e meio. Não é de admirar. O jovem que desabafa ainda não acabou o mestrado, quer acabar o mestrado, está a trabalhar ao mesmo tempo e o mestrado paga-se. Com Bolonha, pagam-se todos os mestrados para no fim dar ao jovem que desabafa a mesma formação por mim tida há 20 anos, cinco anos na universidade e uma licenciatura, à data sem necessidade de uma sangria financeira.

No meu tempo, e já sou suficientemente velho para dizer no meu tempo, já se pagava uma propina anual, obra do Governo de Guterres, tendo Bolonha feito todo o sentido num país de braços abertos à desresponsabilização do estado face ao ensino superior público (e não só). Se te queres formar, pagas, deste modo acabando com uma das conquistas de Abril.

Assim é difícil viajar. Por isso, o emprego como jornalista na esperança de não só pagar as dívidas, mas também, e já agora, aproveitar a vida, viver a vida. Mas o dinheiro não chega, é pouco, os jornalistas trabalham todos a recibos verdes, hoje trabalhamos todos a recibos verdes e descontamos por inteiro, não somos jornalistas, médicos ou engenheiros, mas antes colaboradores, ou melhor, empresários por conta própria, soa melhor para a coitada da nossa mãe, farta de pagar contas, poder dizer no cabeleireiro. Como se as outras não soubessem. Como se não tivessem os filhos nos mesmos apuros.

Assim é mesmo difícil viajar. E por isso o jovem que desabafa moureja na vã esperança de uma vida melhor, sonhando com viagens à Patagónia, Japão e Uruguai enquanto gasta a ponta do polegar nas redes sociais, ao mesmo tempo admitindo a sua inveja. Mas aqui não há inveja nem razão para a ter. Porque o que o jovem que desabafa não sabe é que os seus amigos tiveram a sorte de nascer em famílias bem relacionadas com o mundo empresarial e político, nunca houve falta de dinheiro ou necessidade de trabalhar e portanto viajam, destilando fotografias editadas na net para desespero do comum dos mortais.

Em breve, muito em breve, quando acabar o mestrado e se puser a procurar emprego, emprego a sério com contrato e tudo, vai o jovem compreender a realidade do mundo em redor quando, subitamente, vir os seus amigos bem colocados em cargos de topo na administração pública ou em empresas sem sabermos muito bem porquê.

Mas nós sabemos. Há 20 anos já era assim e só lamento como 20 anos se tenham passado sem um único passo em frente, antes pelo contrário. Muito em breve, independentemente da nota final de curso e da distinção na tese, independentemente do profissionalismo como jornalista, vai este jovem olhar lá para fora, para onde se ganha mais, antes do inevitável salto. Caso contrário, a verdade está à vista: o jovem que desabafa vai mesmo, em concordância com todos os jovens desta geração, gastar a idade de ouro atrás de uma secretária, ou nem isso, a salvaguardar um futuro inexistente, precariamente trabalhando uma vida inteira, 16 horas por dia, sete dias por semana , em prol das viagens e férias dos outros, calculando fusos horários a partir de casa enquanto houver dinheiro para pagar a internet.

Por tudo isto, jovem, não desabafes, a escrita é apenas um escape, acaba o curso e dá um pontapé à vida enquanto as fronteiras estão abertas. Esta foi a nossa sina, a nossa e a de 600 mil portugueses nos últimos anos, condenados a uma vida decente noutras paragens entre casa, emprego, família e viagens várias vezes ao ano, enfim, uma vida normal.

E não, não publicamos nada nas redes sociais. As redes sociais e os outros do lado de lá do telefone que se lixem, não merecem o nosso tempo, o nosso valor. E não, jovem, este desejo ardente de viajar não é património exclusivo dos millennials, mas da espécie humana. E a idade de ouro? A idade de ouro é agora e daqui em diante, que eu com 20 anos não tinha dinheiro para nada.