Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

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Uma história (des)encantada

Deste lado fala uma jovem que gosta apaixonadamente de política. Não, não é do partidarismo ou do tacho, é da sua força, da capacidade que a mesma tem de construir, reconstruir e inventar a sociedade na qual estamos inseridos.

Era uma vez um jovem entusiasta que sonhava em transformar o mundo, tinha uma coragem inabalável, mas faltava-lhe qualquer coisa. Faltava-lhe um rumo. Certo dia, mesmo ao virar da esquina, esbarrou contra uma ninfa que tinha por nome Política. Esta cantou-lhe os hinos das nações, anunciou presságios e prometeu-lhe mundos. Rapidamente, o jovem apaixonou-se pela sagacidade e destreza da sua amada. E assim inauguraram um futuro, travaram batalhas, criaram e venceram monstros ferozes, sempre fiéis um ao outro, fizeram história. Até que, ainda sem saber bem porquê, o jovem se cansou e a bela ninfa vendeu a sua sagacidade por uma reforma jeitosa. Ambos assentaram. Sentados um ao lado do outro, olham-se com um vazio indiferente, acordaram, silenciosamente, em fazer de conta que o outro não está lá.

A propósito das eleições legislativas de 6 de Outubro, escrevo para relembrar como está enfraquecido o laço entre a juventude e a política. Deste lado fala uma jovem que gosta apaixonadamente de política. Não, não é do partidarismo ou do tacho, é da sua força, da capacidade que a mesma tem de construir, reconstruir e inventar a sociedade na qual estamos inseridos.

Ao fazer parte do associativismo estudantil, de uma juventude partidária e de conhecer jovens suficientes fora do ambiente político, pude constatar que a política perdeu a sua juventude. Quem lá devia estar não está e quem lá está parece não estar. O discurso viciado, as caras e personagens de todos os tempos, assim como a incapacidade de reinventar a ordem social afastam, cada vez mais, os jovens portugueses. Já não fazemos parte de uma classe operária, mas também não conseguimos ser os empreendedores destemidos que nos querem fazer parecer. Elite, burguesia, operários, reaccionários, patrões e toda a panóplia lexical que estrutura o discurso político são apenas “conceitos–sombra” de uma História passada, nos quais a realidade social da juventude do agora não se encontra.

Para quem fala a política quando pensa estar a falar para a juventude?

Não parece haver nada no centro do debate político com que a juventude contemporânea se identifique, nada que atinja a sua singularidade e realce a força que lhe pertence. E, por tal, a mesma não responde com tomadas de posição, participação activa, nem com a convicção de quem tem um futuro para construir nas mãos.

Verdade seja dita que nada na política se endereça à juventude enquanto força motriz da sociedade, na medida em que encontra na mesma a sua raison d’être, a sua coragem. O poder social e histórico da política estava na coragem com que a juventude a congratulava, noutros tempos, nos tempos em que havia uma história a cumprir. Aquela coragem que arrebatava monarquias, levantava revoluções e instaurava democracias. 

Claro está que o paradoxo com que nos deparámos é que o tempo continua a passar e o futuro de cada um continua a ter que ser construído, e todos sabemos que esse futuro depende da sra. Política. Acho que lhe devíamos pagar um café, dar-lhe um pouco da nossa atenção. Talvez nos surpreenda! E a chama que alimentava a sua sagacidade volte a brilhar.

Talvez. Como o bom português diz, mais vale tarde do que nunca.