Opinião

Os Descobrimentos num museu: o “nevoeiro” do passado face às inseguranças do presente

A musealização dos Descobrimentos é uma oportunidade para finamente incluir a visão do “outro” no discurso museográfico nacional, assim como integrar os novos conhecimentos que se vão tendo, no presente, sobre este período.

Agora que já passou algum tempo sobre o cristalizado debate acerca da proposta de criação, por parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML), de um Museu das Descobertas (nome infeliz para o século XXI), parece-me pertinente voltar ao tema e refletir, pausadamente, sobre o mesmo. O assunto, já se percebeu, é extremamente delicado: os Descobrimentos, na atualidade, não são consensuais na sociedade portuguesa. Esta controvérsia justifica-se não só pelo extremar de alguns discursos contemporâneos, mas também porque, desde o início, a proposta foi mal apresentada. Surgiu uma ideia: a instalação de um museu, na cidade de Lisboa, que incidiria sobre o período dos Descobrimentos, mas nunca se lhe deu – pelo menos publicamente – o devido seguimento. Não se definiu qual o plano para o desenvolvimento da temática (a estratégia ou visão(ões) sobre o período em questão) e tampouco se apresentou uma proposta museográfica (localização do museu e tipo de acervo). Nestas circunstâncias, foi aberto o caminho para que, na opinião pública, circulassem vários textos, nos quais se discutiu muito a terminologia usada para os Descobrimentos e para o colonialismo português, mas pouco sobre a história e os efeitos do período em questão, e menos ainda sobre os seus efeitos numa instituição como o Museu.

Dos vários textos que se escreveram sobre o tema gostaria de destacar o de Luís Filipe Thomaz. Este historiador – e certamente muitos colegas irão concordar comigo – continua a ser uma das principais referências sobre o período dos Descobrimentos. No citado texto, que sintetiza algumas das suas ideias desenvolvidas num pequeno livro, composto por dois artigos (O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo Sem Querer, seguido de Um Museu dos Descobrimentos: Porque Não?, publicado pela Gradiva em abril de 2019), Thomaz defende, coerentemente, o sentido da palavra “Descobrimentos” em detrimento da palavra “Descobertas” e, acima de tudo, o porquê da singularidade deste momento português e do seu papel na “criação” do mundo moderno: quem mais na época poderia ter empreendido viagens marítimas com aquelas características? E porque é que os portugueses de então reuniam essas características e condições? Teve também o cuidado de enfatizar que os nossos antepassados não eram uns predestinados e que, seguindo as suas palavras, “não inauguraram […] o Paraíso na Terra”. Tudo ideias e propostas de valor para o processo de conceção de um guião: o contexto português do século XV; os antecedentes imediatos, os contatos culturais e o saber de árabes e judeus; a transformação do mundo após a chegada à América e do conhecimento do caminho marítimo para a Índia e as consequências de ambos (tráfico negreiro, circulação de pessoas e bens a grande escala, novas doenças, violência, desenraizamento, mestiçagens genéticas e culturais e, ainda, uma produção agrícola em massa).

Não obstante estes dados, que nos poderiam ajudar a criar um guião, como – e de que modo – se passa este conhecimento histórico para um museu? Faria sentido usar uma linguagem e uma estratégia narrativa similar à que se usa num livro de história (De Ceuta a Timor, de 1998, é, por exemplo, um excelente livro)? Diria que não, são duas ferramentas distintas. Uma, o livro, incentiva a separação entre o sujeito e o objeto, outra, o museu, “vive” da fruição entre os dois. Torna-se, assim, necessário compreender as diferenças antes de conceber uma narrativa. Jean Davallon, em artigo de 1992 – “Le musée est-il vraiment un média?” –, elucida-nos bem sobre este aspeto, dizendo-nos que, independentemente dos objetos, das ações e dos agentes, é o museu (a instituição) que nos indica o que são esses objetos, quem são os agentes e quais são as ações. Esse discurso do museu que centra a narrativa na cultura material tem as suas vantagens (acesso a vários tipos de públicos e a possibilidade de obter várias visões e discursos) e desvantagens (descontextualização dos objetos tanto a nível funcional e cultural, risco de simplificação e banalização de conceitos).

As potencialidades do museu, na contemporaneidade, são imensas, mas é preciso saber trabalhá-las. Numa altura em que se debatem definições de museu, dou particular valor a uma definição antiga, de 1987, que surgiu no seio do International Committe for Museology (ICOFOM), da autoria de Judith Spielbauer. A autora que vê o museu como um instrumento destinado “a favorecer a perceção da interdependência do Homem com os mundos natural, social e estético, oferecendo-lhe informação e experiência sensível, e facilitando a compreensão de si mesmo num contexto mais amplo”. Passados mais de 30 anos, parece-me que faria sentido acrescentar a esta definição a ideia de que um museu tem como objetivo servir de mediador para o diálogo intercultural, conceito que seria indispensável num museu sobre os Descobrimentos.

O nome do museu tem sido o tema favorito da discussão: é certamente mais fácil falar de nomes do que de conteúdos. Numa modernidade líquida o debate é feito em poucas palavras, não através de estudos, o conhecimento tende a ser relativizado. Não desejaria ser mal interpretado, o nome é relevante, claro, mas o conteúdo, neste caso concreto, é especialmente importante. Relembro que existe, no Quénia, um museu com o seguinte nome: Museum of British Colonialism. A nomenclatura é conservadora, mas o seu conteúdo desconstrói o processo, não glorifica, muito pelo contrário. O Koninklijk Museum voor Midden-Afrika, na Bélgica, um dos expoentes máximos da museologia colonial, tem mantido o nome ao longo dos tempos, apesar de hoje em dia apresentar um discurso renovado. Existem tantos nomes que podem fazer sentido: Viagens, Encontro, até Descobrimentos (mas sempre numa perspetiva de evolução do conceito no presente) ou outros, que retratem a transformação que foi esse período; já nomes como Portugal Global e Descobertas poderão ser complexos. Não se trata de reformular um museu já existente, mas sim de criar um novo: faz sentido criar, em Portugal, no século XXI, um museu com um nome dos saudosistas de finais dos anos 80? Ou outro já desacreditado pela comunidade académica? Volto a frisar que para se pensar num nome é preciso primeiro que haja um guião. Tratando-se de um museu criado de raiz, o conceito e narrativa pretendidos devem ser os fatores que determinam o nome e, para isso, é preciso definir qual a finalidade deste museu: reconciliador para com o passado colonial, glorificador do império, apologista do diálogo intercultural ou meramente histórico-descritivo…

Para terminar, saliento um tema sensível, mas também aquele que mais me interessa, como se pode depreender, em particular, pelos meus mais recentes textos: os objetos e a sua expografia. Sensible Objects. Colonialism, Museums and Material Culture (2006) é também o título de um livro que surge a partir de um colóquio que teve lugar em Sintra, em 2003; curiosamente, nenhum dos autores dos diversos artigos do livro é português. Na sua leitura conseguimos perceber que o colonialismo é profundamente material, uma ânsia por obter bens; e tanto as colónias como os centros imperiais estão intimamente ligados por uma rede de objetos, desde as matérias-primas, aos artefactos e inclusivamente os próprios corpos das pessoas. Neste âmbito, os museus são provavelmente o sítio par excellence para retratar a materialidade do período colonial europeu (que teve efetivamente a sua génese com os Descobrimentos portugueses). Os museus – enquanto instituição europeia – fizeram-no, durante muito tempo, sobre uma perspetiva imperial. Abre-se agora a porta para desconstruir essa narrativa e, de facto, esse processo de mudança já está a ser iniciado em várias instituições europeias e americanas, através da reconfiguração das exposições permanentes ou, ainda, de exposições temporárias que desconstroem e reanalisam a superioridade civilizacional da colonização europeia (ainda latente na generalidade dos museus).

A musealização dos Descobrimentos é uma oportunidade para finamente incluir a visão do “outro” (sem subterfúgios ou anacronismos) no discurso museográfico nacional, assim como integrar os novos conhecimentos que se vão tendo, no presente, sobre este período; retratando quotidianos, hibridismos, adaptações e transformações. Não devemos, contudo, ser excessivamente crédulos, querer arcar com os defeitos e com as virtudes dos portugueses dos séculos XV e XVI; essas “gentes” não têm praticamente nada a ver connosco. Quer pela sua forma de falar, pelas suas mentalidades e inclusivamente pelo seu aspeto físico, seriam – usando a célebre expressão do historiador David Lowenthal –, literalmente, uns “estrangeiros” no Portugal contemporâneo.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico